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A presente pesquisa caracteriza-se por sua natureza qualitativa na compreensão de um fenômeno organizacional, apresentando uma dissertação fundamentada com objetivo descritivo, sem a preocupação com representatividade numérica e sem a utilização de instrumental estatístico na análise dos dados (VIEIRA, 2006).
Os pesquisadores qualitativos usam cada vez mais lentes teóricas para guiá-los em direção às questões que são importantes e devem ser examinadas (CRESWELL, 2007). Assim, para alcançar os objetivos da pesquisa, a estratégia metodológica foi construída sobre dois pilares. Com base em pesquisa bibliográfica, envolvendo a teoria da agência no movimento da Nova Gestão Pública, elaborou-se a fundamentação teórica visando dar sustentação ao problema de pesquisa e permitir a estruturação de definições constitutivas e operacionais para o mapa conceitual (VIEIRA, 2006). E, quanto aos procedimentos técnicos, utilizou-se da pesquisa documental, com a finalidade de caracterizar o caso em estudo, descrevendo os fenômenos relacionados à contratualização da gestão com as Organizações Sociais de Saúde pelo Estado do Rio de Janeiro, valendo-se de materiais que não receberam tratamento analítico ou, quando processados, conferindo-lhes nova interpretação à luz dos objetivos da pesquisa (GIL, 2008).
Merriam (1988, apud GODOY, 2006) se refere ao estudo de caso qualitativo como uma descrição (holística e intensiva) de um fenômeno bem delimitado. E por Stake (1994
apud GODOY, 2006, p.199), quando se fala em estudo de caso estamos nos referindo “fundamentalmente à escolha de um determinado objeto a ser estudado, que pode ser uma pessoa, um programa, uma instituição [...]”. No mesmo sentido Creswell (2007, p.32) explica que no estudo de caso “o pesquisador explora em profundidade um programa, um fato, uma atividade, um processo [...]”
Emprega-se o estudo de caso como método apropriado ao tipo de questão da pesquisa, centrada no “como” (YIN, 2010), ora aplicada ao tratamento dos problemas de agência nos contratos de gestão com as Organizações Sociais de Saúde pelo Estado do Rio de Janeiro. “O estudo de caso é preferido no exame dos eventos contemporâneos, mas quando os comportamentos relevantes não podem ser manipulados” (YIN, 2010, p. 32).
É assim identificado como um estudo não-experimental, realizado a partir de dados existentes em seu próprio contexto. Não há tentativa de produzir efeitos diferentes através de manipulações. As relações entre os fenômenos são observadas sem interferência, ou seja, não se procura alterar condições no ambiente estudado para medição das alterações produzidas (KERLINGER, 1980).
A coleta de dados da pesquisa documental baseou-se em leis, decretos e resoluções específicas sobre o tema das Organizações Sociais no âmbito do Estado do Rio de Janeiro; no Manual de Qualificação e Manual para Elaboração do Relatório de Execução e Prestação de Contas das Organizações Sociais de Saúde, ambos elaborados pela Secretaria de Estado de Saúde; em contratos de gestão, considerando o conjunto integrado pelo edital de seleção, termo de referência e demais anexos; processos de contratação; e, no relatório operacional da Auditoria Geral do Estado, órgão vinculado à Secretaria de Estado de Fazenda. São todos documentos oficiais que espelham o processo e as dinâmicas de contratualização, que foram acessados nos sites dos órgãos de governo, bem como nos arquivos da Superintendência de Acompanhamento dos Contratos de Gestão, na Secretaria de Saúde. O acesso à Secretaria de Saúde bem como sua interação com a Secretaria de Planejamento, órgão de origem da autora da dissertação, permitiram a observação direta dos procedimentos para melhor qualificar a análise das informações.
O tratamento dos dados coletados foi voltado para abordagem qualitativa, utilizando a técnica de análise de conteúdo. Segundo Vala (2014, p.104), a análise de conteúdo não é um método, mas uma técnica de tratamento de informação, e, como tal, “pode integrar-se em
qualquer dos grandes tipos de procedimentos lógicos de investigação e servir igualmente os diferentes níveis de investigação empírica”. Quanto aos níveis de investigação empírica, Vala (2014, p. 105) refere-se à “hierarquia de objetivos do trabalho” em três níveis: descritivo, descrevendo fenômenos; correlacional, descobrindo associações entre fenômenos; e, causal, descobrindo relações de causa-efeito.
As operações mínimas na análise de conteúdo passam pela definição do quadro de referência teórico orientador da pesquisa, selecionando certo número de conceitos analíticos; pela constituição de um corpus, com a escolha de documentos, no caso, segundo critério de ordem qualitativa, ponderando questões metodológicas e de pertinência teórica; pela definição das categorias que representem as variáveis de análise – uma categoria indica um termo chave, com a significação central do conceito que se quer apreender, e a descrição dos respectivos indicadores, possibilitando, com isso, a inclusão de um segmento de texto do corpus numa determinada categoria; e, pela definição de unidade de análise. (VALA, 2014)
Nessa linha de entendimento, sob a dimensão dos problemas de agência, foi elaborado o mapa de análise com definições constitutiva e operacional de termos utilizados na interpretação dos dados. Emergindo da fundamentação teórica, extraíram-se os conceitos e identificadores dos problemas de agência: assimetria de informações, divergência de interesses e preferências de riscos, inerentes à delegação de poder na separação entre propriedade e gestão, aos quais se somaram estruturas de controle e monitoramento.
A pesquisa adotou a linha positivista da teoria da agência, centrada na identificação de situações em que principal e agente têm objetivos conflitantes, para em seguida descrever os mecanismos de governança que limitam os comportamentos oportunistas no tratamento dos problemas de agência (EISENHARDT, 1989), adequando a interpretação para a esfera pública na perspectiva de análise das pressões do principal.
A unidade de análise objeto da teoria da agência é o contrato entre principal e agente, considerando no caso, o contrato de gestão entre a Secretaria de Estado de Saúde e as Organizações Sociais. Ocorre que, tais contratos foram elaborados de forma padronizada, incorporando uma extensa gama de contingências e replicados à todas as contratações com Organizações Sociais, independentemente do tipo de unidade de saúde. Dessa forma, a análise de um contrato confere representatividade e confiabilidade à metodologia da pesquisa.
Foi selecionado o único contrato que ao longo do período delimitado para a pesquisa teve mudança na Organização Social gestora passando por dois processos seletivos, pressupondo a existência de ter ocorrido algum problema que levasse ao tratamento diferenciado por parte da Secretaria de Saúde.
Apoiando-se em procedimentos interpretativos para a apresentação e análise de resultados, efetuou-se a identificação de características impressas no Contrato de Gestão que se enquadrassem no comportamento das definições operacionais, prosseguindo para o exame do Conselho de Administração como órgão de controle da respectiva Organização Social gestora do contrato, e por fim procedeu-se à discussão de resultados, com a modulação dos conceitos aos eventos descritos no contexto de estudo, Capítulo 3, e retorno à fundamentação teórica, em atenção ao problema de pesquisa, para tecer as considerações finais. A figura 4 representa a estratégia metodológica da pesquisa, conforme expresso na presente seção.
Figura 4. Estratégia metodológica