Seguindo a linha de raciocínio de Vieira podemos entender que o catolicismo que vivia Conceição passava por elementos de conflito. Como sabemos, os jesuítas sempre fizeram parte da história de Portugal, e também do Brasil. São os responsáveis pela propagação das principais ideias contra-reformista entre lusitanos e brasileiros (VIEIRA, 1980, p. 53).
Foram séculos de luta contra o pensamento moderno, na área filosófica houve por evocação de Tomás de Aquino203 na fundamentação da física aristotélica, um embate que defendia a fé por meio e formas substanciais e acidentais.
Paim ressalta os cinco pontos que caracterizam a moral contra-reformista, depois de avaliação de várias obras do século XVI a XVIII:
1. O homem está na terra por simples castigo,
2. A condição de peregrino destina-se a fixar o lugar na vida eterna, 3. O homem é um vil bicho da terra e um pouco de lodo,
4. Condenação da riqueza,
5. A pobreza é uma virtude (Cf. PAIM, 1996, p. 18-20).
Todos estes pontos salientam o pessimismo quanto à realidade da modernidade, isso ficou impregnado de tal forma em nossa moralidade social básica que há um desdém ao lucro, toda riqueza pode causar temor e tudo isso
203 A moral tomista é igualmente uma adaptação da ética de Aristóteles. O homem deve desejar o bem e o bem para Aristóteles está intimamente ligado à questão da inteligência. Como o ato mais elevado da consciência é a contemplação do divino, para Aquino devia realizar-se dentro dos limites da existência terrena, quer dizer, em condições precárias. (Cf. JEAUNEAU, 1963, p. 84-85.)
possivelmente pode ser desnecessário a uma vida que almeja apenas uma passagem do mundo do castigo204.
Esta foi a preocupação de Pombal atento com as questões mais visíveis; segundo ele, Portugal estava atrasado em relação às demais nações europeias. Um aglomerado de questões políticas, econômicas, sociais, filosóficas que são perpassadas pela questão religiosa. Parece que isso foi assim até que, em Portugal, religiosos passam a ser influenciados por ideais jansenistas.
Como sabemos a Igreja Católica no Brasil estava submissa à Coroa, por isso, por meio das ordens de Pombal, jesuítas foram expulsos do Brasil, e por isso o jansenismo205 tornou-se uma alternativa entre um posicionamento mais próximo do reformado e ao mesmo tempo um movimento que não se desliga da fé católica. Segundo Léonard sua importância se fundamentava em três premissas:
• Fomentação de uma piedade austera, • Culto das Sagradas Escrituras e
• Independência com relação a Roma (LÉONARD, p. 38).206
204
Paim registra ainda que, “o socialismo surgiu com uma reação moral dos intelectuais aos efeitos sociais da Revolução Industrial, com a formação de grandes aglomerações urbanas e o trabalho fabril baseado em jornadas intermináveis”. Motivação moral essa que pode ser reavaliada se verificarmos o atraso que é disposto no presente momento frente ao contexto moderno de nossa pátria. Como ressalta Paim numa comparação que denota dois pontos de vista: Nos fins desse último século, Brasil e Estados Unidos dispunham de contingente populacional assemelhado, por volta de 3 milhões de pessoas. A distinção radical consistia na base moral e nas tradições culturais configuradas. Ali, havia o predomínio da convicção (puritana) de que o sucesso na obra (e, portanto, o enriquecimento) poderia tornar-se indício de salvação. Aqui, com idêntico propósito de salvar a alma, a franca opção pela pobreza.
205
Movimento criado pelo bispo holandês de Ypres, Cornellius Jansenius (Jansen), no século XVII. Este movimento, derivado do Cristianismo, baseou-se numa doutrina que contemplava a conciliação da liberdade humana com a graça emanada por Deus. Esta doutrina nasceu de uma interpretação livre dos escritos de Santo Agostinho feita por Jansenius na sua obra "Suma Agustinus seu doctrina S. Agostini de humanae naturae sanitae, aegritudine, medicina adversus Pelagianos et Massilienses" (publicada em 1640). Nesta obra, extremamente controversa e que foi condenada pela Igreja nos anos de 1641 e 1642, Jansenius utilizou princípios de caráter reformista (sobretudo de Calvino) (Cf. Jansenismo. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. Disponível na <URL: http://www.infopedia.pt/$jansenismo> acesso em 11/2011.
206
LÉONARD ainda ressalta: Uma piedade austera: quadro diferente do que até agora vimos, que vai do vivo ao equívoco. Não que este quadro seja falso, mas é necessário completá-lo, nele colocando em lugar de destaque a Congregação dos Padres do Patrocínio, cuja história, esboçada, me- rece ser conhecida nos seus detalhes. Agrupava sacerdotes seculares, reunidos em Itú (São Paulo), ao redor do famoso Pe. Jesuino de Monte Carmelo, cujo nome leigo era Jesuino Francisco de Paula Gusmão. É conhecido seu grande valor como pintor, músico e arquiteto. O que nos Importa aqui, entretanto, é o clima espiritual de rigorismo e exigência religiosa em que viviam, numa época de enfraquecimento espiritual, o Pe. Jesuino, seus filhos Elias de Monte Carmelo e Simão de Monte Carmelo, outros como João Paulo Xavier e Antônio Joaquim de Melo. Esse grupo exerceu grande influência sobre o clero de seu tempo; sabe-se que Feijó a ele pertenceu de 1818 a 1821. Não foi apenas
Vieira destaca este importante ponto:
O jansenismo, como é amplamente conhecido, foi o nome dado à tentativa de reforma e reavivamento dentro da Igreja Católica, no século XVII, baseada nos preceitos religiosos de Fleming Cornelius Otto Jansen (1563-1638), Bispo de Ypres. (...) Jansen tentara reformar a Igreja Católica, sugerindo a mudança da sua teologia do tomismo para o Augustinianismo. De certo modo, Jansen reagia também contra o protestantismo, se bem que muitos de seus ensinamentos religiosos fossem parecidos com o de João Calvino (...). O processo de crescimento para conhecer a Deus, de acordo com Jansen, exigia, entre outras coisas, a leitura diária da Bíblia. No entanto, porque Jansen também acreditava na sucessão apostólica, sustentava que esta relação íntima entre o homem e o Criador só podia ser obtida por meio da Igreja Católica (VIEIRA, 1980, p. 29).
Convém ressaltar então que a realidade evangélica começa com um movimento de grande expressão em nossa pátria, o jansenismo, fator que explica bem o contato de protestantes com católicos e posteriormente o movimento missionário207. Isso é muito desenvolvido por Vieira:
É muito interessante notar este sentimento quase ecumênico que existia entre jansenistas e protestantes no Brasil. A antiga literatura e a correspondência protestantes claramente exemplificam isso. Um caso
uma piedade “jansenista" o que os catecismos de Lião e Montpellier ensinaram aos sacerdotes brasileiros, mas ainda o amor às Escrituras, como base primordial da fé e da vida religiosa. Não nos sendo possível folheá-lo aqui, baseemo-nos na apreciação que encontramos no Dictionnaire dês Hérésies, do abade Migne, sobre o Catecismo de Montpellier (49):"Divulga-se no T. II, II parte, II seção, cap. II, par. 30, que a leitura da Sagrada Escritura, tanto do Antigo como do Novo Testamento, DEVE SER A OCUPAÇÃO DIÁRIA DOS FIÉIS. Esta proposição, tomada assim de modo indefinido, é falsa, injuriosa à Igreja e contrária a seus usos"(LÉONARD, p. 38).
207 Não queremos aqui excluir outro grupo importante do protestantismo no Brasil, o protestantismo de colônia. Sua influência também pode ser percebida, como ressalta Boanerges Ribeiro, mas como foi uma das primeiras formas de protestantismo no Brasil, ainda estava muito limitado pelas leis contra expansão na pátria: “Embora os evangélicos de Colônia não se preocupassem com proselitismo entre brasileiros, contudo
inseriam-se na organização social do País, interpretavam com liberdade as restrições constitucionais e seu culto; estabeleciam o culto; ingressavam nas agendas do sistema de parentesco (batismo, casavam, sepultamento) até então monopolizadas pela religião do Estado – e faziam-no decididamente, mesmo antes das acomodações necessárias no sistema jurídico, com conhecimento e, por assim dizer, a conivência das autoridades. Ingressavam nos cenários com seus cemitérios, seus templos, suas casas pastorais, suas escolas. Conservavam a homogeneidade comunitária, educando os filhos em suas escolas, sob a direção de professores protestantes. E algumas famílias católicas romanas enviaram seus filhos a essas escolas”. (cf.
RIBEIRO, 1991, p. 11). Não quis entrar neste contexto com as questões que envolvem as outras possíveis linhas que são compreendidas como pentecostais por exemplo. Mais dados sobre isso é necessário enfatizar obras como a de CARMELO ALVAREZ, (1981, p. 20ss).
que serve de exemplo foi a cordialidade que existiu entre o Padre Antônio Diogo Feijó e o metodista Daniel P. Kidder. As visitas que este fez a Feijó foram vividamente descritas no seu livro, Sketches of Residence and Traveis in Brazils.
É digno de nota que a afinidade que existia entre o Padre Feijó e o missionário metodista foi extensiva a outros protestantes. Em 1836, como Regente do Império, Feijó, que em 1828-29 apoiara o projeto de lei que expulsava do Brasil os frades ultramontanos estrangeiros, deu ordem ao ministro plenipotenciário brasileiro em Londres, o Marquês de Barbacena, para entrar em contato com os Irmãos Morávios e convidá- los a virem para o Brasil a fim de catequizar os índios (VIEIRA, 1980, p. 31).
Sobre este possível contato com o Jansenismo ainda comenta Mathias:
O jansenismo nos parece ter sido importante fator na vida de Conceição. Esse ecumenismo anterior a ele parece lhe ter alcançado. Não vemos nele, ao longo de toda a sua ação e, em suas palavras, uma postura radicalmente anti-ecumênica. A isto pode ser acrescentado o tripé jansenista apresentado por Léornard, pois a vida de nosso personagem é uma vida de dedicação, de não encarar Roma como o centro do mundo (ainda que considere o catolicismo como único e verdadeiro representante do cristianismo) e, conforme nos informa a maioria de suas biografias, de contato com a Bíblia já por volta dos 18 anos (MATHIAS, 2008, p. 56).
Podemos ver isso nas palavras do próprio Conceição:
Fui muito devoto até os 16 anos. Foi meu mestre de primeiras letras o virtuoso Jachinto Heliodoro de Vasconcelos. Depois que a religião começou a influir no meu coração, comecei a sofrer de melancolia pelo retrospecto que fazia sobre minha vida passada; na mesma religião, porém, tenho achado remédio para curar essas chagas, e ao traçar estas linhas sinto que minha esperança e consolação são plenas no meu divino Redentor Jesus Cristo (S. João 1a. Ep. II, 2°). Aos 18 anos comecei a ler a Bíblia. Apenas tinha lido os três primeiros capítulos do Gênesis quando notei que a prática e doutrina da Igreja Romana, faziam
oposição direta e irreconciliável com a palavra de Deus. Gen. 2.24, S. Mat. 19.5 (Cf. CONCEIÇÃO, in O Puritano, 1900, p. 2).
Podemos perceber o espírito contra-reformista sendo já identificado e combatido aqui. Em outro lugar ainda diz: "Admitido na sociedade da mesma vi que todos se empregavam na leitura da Bíblia e de outros livros espirituais. Visitei depois quase todas as casas dos Alemães; em toda a parte, sempre o mesmo quadro de culto e religião!” (CONCEIÇÃO, in O Puritano, 1900, p. 1).
Entendo que o contato com o jansenismo, e somando a isso o proceder bíblico dos protestantes, gerou em Conceição os sentimentos de crítica contra- reformistas que identificam os aspectos notórios de compreensão moral por meio da visão civilizatória e a importância da Bíblia.
Comecei a deduzir então os seguintes razoamentos: "Quem sabe se os estrangeiros têm tanta religião como nós brasileiros?... Quem sabe se a religião deles é a mesma que a nossa religião?! Ah! Quem sabe se eles não são mais religiosos do que nós, visto que são também mais civilizados do que nós!...
Assim discorria eu comigo mesmo. Contava então de idade vinte anos. (Cf. CONCEIÇÃO, in O Puritano, 1900, p. 1).
De cara percebemos que a importância do contato com os protestantes gerou nele uma série de características que se assemelham ao pensamento protestante.208