Em sua conformação geral, as aulas observadas são estruturadas em função de tópicos voltados para a literatura e para a gramática. Para essa fase inicial do estudo, foram observados nove eventos de aula, no período de 30 de abril a 10 de setembro de 2007, tendo sido seis na turma 2T11e três na turma 2T12. Cada evento compreende ao tempo de duas horas)aula. Isso explica, em alguns casos, terem sido trabalhados dois tópicos diferentes, em um mesmo evento, ou terem sido feitas duas atividades distintas – aula explicativa, seguida de aplicação de exercícios ou de roteiro de leitura e/ou de pesquisa. Durante essas aulas, a freqüência dos alunos oscilou entre 20 e 30 alunos na primeira turma, e entre 14 e 19, na segunda, considerando)se as ausências, os atrasos na chegada, e as saídas antes do término das atividades.
A amostragem dos eventos cobre as atividades corriqueiras de aulas, ao longo de um bimestre letivo marcado por interrupções de greve de professores. Assim, tem)se uma amostragem diversificada das atividades de sala de aula, orientada em função dos tópicos de língua e de literatura previstos no programa da disciplina para aquele período; esses tópicos estão associados a atividades
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pedagógicas que vão da exposição explicativa à avaliação, passando por exercícios de aplicação (tarefas individuais e em grupo), revisões e avaliação. Desse modo, os eventos podem ser sintetizados, conforme estão detalhado nos Quadros 1 e 2, p. 68 e 69.
A leitura dos registros relativos a essas aulas leva)nos a algumas constatações genéricas acerca da condução da disciplina de língua portuguesa. Dentre essas constatações, nota)se que os tópicos de língua e de literatura são desenvolvidos dentro de um relativo equilíbrio de distribuição de carga horária, mas também sem aparentes fronteiras estanques, no que se refere a possíveis distinções entre áreas do conhecimento, e, portanto, a eventuais abordagens excludentes sobre fatos da língua. Um exemplo são os modos como são abordadas as variações dos registros na escrita, em situações ordinárias, em contraste com sua ocorrência em textos literários. Essa flexibilidade na abordagem da língua pode ser observada, por exemplo, na aula A8, ocasião em que o gênero carta é explorado a partir de um conto, e vice)versa (conto “Carta ao Prefeito”, de Rubem Braga).
Nessa aula, através de um roteiro de pesquisa, são explorados aspectos da linguagem que caracterizaria o conto, o que se aplica, também, ao gênero carta. No mesmo roteiro, são exploradas, ainda, noções sobre as pessoas do discurso e sobre a seqüência textual prototípica da narrativa. Em seu discurso, a professora demonstra uma relativa coerência entre o que propõe em seu plano de ensino e suas práticas de sala de aula. Nesse plano, focado sobre aspectos do “Uso inadequado da Língua Portuguesa”32 a professora se propõe a trabalhar os conteúdos do programa de modo que, dentre outros objetivos, o aluno venha a “Compreender e aplicar a diversidade de falares e usos irregulares da Língua Portuguesa”. Essa preocupação também é verificada nos seus roteiros de leitura e de pesquisa passados aos alunos.
Em linhas gerais, considerados os limites da situação de ensino) aprendizagem em que se situa, esse discurso apresenta pontos de convergência com o que discutimos há pouco, sobre questões envolvendo língua e uso, a partir dos PCNEM (BRASIL, 1999) e da abordagem da Linguística funcionalista. Esses indícios são, por si sós, elementos relevantes na compreensão dos eventos observados, na medida em que apontam para os pressupostos teóricos que
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permeiam as práticas pedagógicas ali adotadas e, por extensão, os suportes teóricos que subjazem ao discurso da professora, relativos às questões de língua, linguagem e texto, abordadas em suas aulas.
Um outro aspecto a ser considerado, no momento, é o papel do livro didático na condução das aulas. Em várias situações, foi observado que ele exerce uma função determinante nas atividades de ensino)aprendizagem, tanto no que se refere aos tópicos de língua quanto aos de literatura. Em certos eventos, a sequência das aulas se estrutura em função de três componentes ali encontrados, quais sejam, as amostragens de textos, os suportes de teoria (gramática, gêneros de texto e literatura), e os exercícios de aplicação. Em várias ocasiões, a professora alterna explicações próprias, com anotações no quadro, e a leitura dirigida do livro didático. Num primeiro momento, observa)se que, em seu papel, esse recurso apresenta uma dupla função de condutor da leitura e da escrita na sala de aula, e, em certa medida, o discurso da professora e conforma ao discurso ali presente, na formulação de conceitos e na adoção de certas concepções relativas à língua portuguesa e ao seu uso. Assim como o livro didático, os roteiros de leitura e de pesquisa também são documentos estruturantes das aulas, na medida em que constituem em formato prévio da seqüência das atividades de ensino)aprendizagem a serem desenvolvidas em eventos posteriores, como também determinantes dos tópicos a serem estudados, incluindo)se, aí, em certa medida, a perspectiva teórica a ser adotada, relativamente aos conteúdos do programa da disciplina. Passemos, agora, à análise do livro didático, o que nos proporcionará outros elementos de compreensão das aulas aqui analisadas.