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Çile’nin Muhtelif Din ve Kültürlerdeki Yer

Os autores entendem progresso como a crença em um futuro melhor do que o passado, a qual estava difundida pelo mundo como um dos reflexos do impacto da cultura ocidental. Contudo, refutando parcialmente essa crença, Kahn e Wiener afirmam que a visão do progresso é, por um lado, juízo de valor e, por outro, um julgamento empírico e assentado sobre a realidade. Contrariando esse último aspecto, argumentam que estava cada vez mais claro que as mudanças, embora produzidas, na maioria das vezes, por esforços propositais, poderiam conduzir não só a melhores resultados, mas também a resultados mistos, indesejados e ambíguos229.

Os futuristas identificam, ainda, que algumas das vertentes progressistas apresentam visões utópicas sobre o futuro, as quais têm como ponto final ou o paraíso na Terra, ou, de forma mais transcendental e quiliástica230, o fim de um processo teleológico. Conforme os autores, essas visões foram associadas a conceitos e movimentos políticos, filosóficos ou religiosos e persuadiram várias pessoas inteligentes. Porém, como para os futuristas nem todas as mudanças são progressistas, eles afastam a tendência múltipla da idéia de um progresso imanente231.

Esse afastamento também ocorre pela própria atividade de especulação e planejamento do futuro proposta por Kahn e Wiener, a qual se diferencia do progresso compreendido como uma transcendentalidade. Assim, os autores esboçam alguma consciência da ligação entre a escatologia judaico-cristã e o progresso moderno, o qual remete, portanto, a uma raiz mais profunda do sentimento de redenção da humanidade.

Para judeus e cristãos, a história consistia na salvação. É a este fator que Löwith atribui a busca de um sentido e um objetivo transcendentes para a história, dotando-a de uma                                                                                                                          

229

KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 29.

230 Os autores entendem quiliasmo como uma idéia da Idade Média que trata da tensa expectativa de um fim para a história, com a luta decisiva em que a tirania do mundo seria superada pelas “pessoas escolhidas” e através das quais o mundo seria renovado e a história chegaria a sua consumação. COHN, Norman, 1961, p.309, apud KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 275.

finalidade. Essa meta final tende a ser escatológica e futura, pendendo à esperança e a um momento aguardado – por exemplo, o Juízo Final. Assim, a visão judaico-cristã é voltada para o futuro, o qual difere do passado e revela-se somente conforme a vontade de Deus. O passado seria, com isso, uma preparação para os elementos vindouros232. É, portanto, uma visão escatológica e teleológica233, pois a história desenvolve-se para um fim, preenchendo- se, então, com um objetivo234.

Löwith atribui às mentalidades hebraica e cristã o elemento de preocupação moderna com o futuro. Inicialmente, afirma que a escatologia serve como uma conquista do fluxo temporal, o qual, sem um fim, simplesmente acaba e consome suas próprias criações. Além disso, dá um caráter universal à história, pois une toda a humanidade no mesmo sentido final. Sendo assim, o progresso, conforme Löwith, não rompeu com tais aspectos e, portanto, não abandonou o caráter profético, apenas secularizando-o235.

Todavia, houve um rompimento do progresso em relação à história cristã. Esta última não pressupunha ação, já que a vinda de Cristo – o acontecimento por excelência, que representou a revelação de Deus em um homem – deu origem à história como espaço da sucessão de pecado e morte à espera da redenção. O nascimento de Jesus representou o princípio do fim. Já a concepção moderna vê a história como o palco do destino humano, ganhando, assim, o caráter moderno e secular, redundando naquela sensação já comentada de mudanças constantes e importantes. Além disso, a história se tornou ciência, sendo, assim, passível de realização e, por isso, elemento de controle e direção236.

Portanto, o pensamento histórico moderno deriva do pensamento cristão, porém, por conseqüência disso, deixa de ser cristão. A modernidade preservou a idéia de um fim e de uma concretização, mas não mais como um processo em vias de acontecer. Se para os cristãos, então, a história era algo de pouca importância, para os modernos, com a não concretização da redenção, ganhou destaque a sucessão dos acontecimentos e a história como a preservação e o aprimoramento da sociedade existente237.

Porém, se a secularização rompeu com a escatologia cristã, não conseguiu livrar-se da visão voltada para o futuro como momento de consumação238. Portanto, parte do receio de Kahn e Wiener com o progresso está nesse aspecto religioso, teleológico e até fatalista que ele                                                                                                                           232 LÖWITH, K., 1991, p. 18-19, 22. 233 Ibid., p. 22. 234 Ibid., p. 30. 235 Ibid., p. 30-31. 236 Ibid., p. 194-195. 237 Ibid., p. 197-198. 238 Ibid., p. 199-202.

possui como herança. Isso causa o afastamento, pois, se levado ao extremo, contrariaria a idéia de planejamento. Se o progresso é um processo inevitável com um fim definido, pouco importa, então, o grau ou a forma da intervenção humana.

Portanto, os autores pensam o progresso não como uma decorrência imanente ao desenvolvimento do Ocidente. Além disso, põem-no também como um juízo de valor, que é mais bem explicado quando os autores tratam da idéia de decadência. Kahn e Wiener argumentam que a decadência pode resultar de uma falta de competição, pois, qualquer indivíduo, instituição, nação ou cultura que não compete com outros, pode, não só cair, como causar uma decadência global239. Essa idéia será retomada mais à frente, quando pensarem, para o futuro, a importância do desenvolvimento da Guerra Fria como uma competição pacífica. Porém, a decadência pode advir, também, de um juízo comparativo.

Conforme os futuristas, a Inglaterra passaria por uma decadência em comparação com outras nações de seu porte. Seguindo suas projeções, afirmam que se as tendências da época se mantivessem, a Inglaterra sairia, antes do ano 2000, das 5 nações mais ricas. Todavia, desenvolvem um argumento baseado em dois pontos: 1) se nos outros países as taxas de crescimento descessem ao nível da inglesa, o crescimento inglês pareceria muito mais animador e a decadência desapareceria; 2) se a Inglaterra continuasse em queda, haveria muitas críticas contra o governo e lamentações sobre a situação, parecendo, portanto, que nenhuma solução seria possível – apesar dos esforços dobrarem a taxa de crescimento. Com isso, os autores retomam o problema da competição, porém, agora, por outro enfoque. Talvez não haja uma decadência real, mas apenas uma decadência relativa. Como eles mostram, é possível que a Inglaterra, por exemplo, continue a crescer, o problema é a possibilidade de esse crescimento ser menor do que o das nações competidoras, o que resultaria em uma queda aparente e relativa. Há, aqui, de forma obscura, uma refutação da idéia de decadência econômica, pois o crescimento não parece deixar de existir. O que ocorre é um crescimento menor se comparado com outras nações, podendo causar a aparência de decadência. Porém, não é somente a decadência econômica que preocupa os futuristas240.

Kahn e Wiener identificam como outro elemento de decadência as próprias idéias humanas acerca da história, como, por exemplo, a idéia de uma idade de ouro perdida. Destarte, para os autores, teorias de decadência poderiam surgir da nostalgia dos conservadores a partir da erosão ou do desaparecimento de certos valores ou instituições.                                                                                                                          

239

KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 29. 240 Ibid., p. 29-31.

Frente a isso, certa parcialidade afetaria os estudos de história assim como os do futuro, refletindo as preocupações dos historiadores ou dos futuristas, que podem tender ou ao otimismo utópico, ou a busca de evidências inumeráveis da ruína241.

Dessa forma, os autores crêem que ou a queda ou a ascensão de qualquer cultura pode se basear tanto em tendências absolutas, quanto em competidoras242. Ou seja, a decadência é tratada como uma contraparte do progresso, dando outro sentido à história. Portanto, tanto a sensação de progresso como a de decadência podem ter bases gerais e absolutas, ou seja, pode, de fato, haver um melhoramento ou uma piora em certos aspectos gerais. Por outro lado, pode ser que tais sensações sejam apenas relativas e que certos aspectos continuem a se desenvolver, porém de uma forma mais lenta em relação a outros. Todavia, não é a tendência múltipla que determina se há progresso ou decadência, absoluta ou relativa, mas é o próprio fazer humano, porque a tendência múltipla, em seus componentes, não é necessariamente progressista ou decadente – como veremos nos próximos capítulos.

Não dá para negar, por fim, o receio e a descrença, após o término da Segunda Guerra, com certos aspectos do racionalismo e do progresso. Kahn e Wiener compartilham desse sentimento. Eles não mais acreditam em um progresso próprio da história. Pelo contrário, como vimos, possuem reservas frente a tal pensamento.