Quando sonhamos olhamos para frente à procura dos dias que ainda não chegaram. Neles repousa o canto da vitória e aí fica registrada a nossa história.
Por que devemos lá chegar? Porque sonhamos mesmo caminhando devagar. O passo é lento, mas a vontade de chegar é maior que o sofrimento.
O momento em que vivemos é importante e promissor, é preciso aproveitar que o vento sopra a favor. Formar núcleos, organizar brigadas, juntar gente em acampamentos na beira das estradas, é claro, também em ocupações, para trazer ânimo e coragem a todos os corações.
Plantar na terra, jogar nela as sementes que precisam germinar. Enfrentar, resistir se precisar, sem medo do futuro. Amanhã os frutos já maduros, surgirão para nos alimentar.
Convidar as famílias que ainda não acreditam, que olham a esmo para o infinito sem organizar a luta. A história é como uma fruta; é doce quando fica madura; é preciso tratar os descrentes com ternura, mesmo que os planos pareçam uma loucura.
Devemos resgatar a natureza plantando sobre a terra árvores e flores. Criar nela a cultura da beleza, da arte popular e dos valores. Ninguém pode duvidar, que isto é possível edificar, pois somos os melhores construtores.
Quem somos, senão Sem Terra destemidos? Que marcamos o destino embravecidos e deixamos na história uma lição? Quem não luta morre na exploração, mas quem luta pode ver a liberdade, não há diferença nem idade para quem luta pela revolução.
Somos homens e mulheres transformados em famílias, que fazemos com os pés a própria trilha, avançando sobre todas as ambições, levamos em nossos corações um puro sentimento de igualdade, queremos terra e uma nova sociedade, para assentar todas as gerações.
Assim festejamos as conquistas. Cada qual põe o seu ponto de vista em favor da grande democracia. O respeito é o direito que anuncia, o surgimento de uma nação nova, a luta é quem nos põe à prova, nas batalhas feitas com rebeldia.
Cuidar da casa, da roça e da comunidade é o dever de quem a terra conquistou; para aquele que ainda não chegou, o tempo por enquanto é de zelar, do pátio, da lona e do lugar, sem desanimar. Ajudar as crianças ir à escola, dar a elas todo apoio que precisam, ser leais com os que alfabetizam e coerentes com os pensamentos. Fazer dos acontecimentos, material de estudo; quem tem um movimento já tem tudo para seguir tentando outros intentos.
Pensar no futuro e construí-lo no presente. Sonhar ver os descendentes felizes vivendo com cuidado; o tempo é do povo aliado, basta querer e seguir olhando para frente.
Insistir no caminho das mudanças; as lutas renovam as esperanças e as vitórias sustentam a rebeldia. Não deixar de lutar por um só dia se quisermos deixar a coragem como herança.
Que cada família Sem Terra brasileira, acredite que seu grande apetite de lutar, vem da arte de querer conquistar, aquilo que esperou a vida inteira.
Cartas de Amor Nº 91
À HERANÇA
Maldita seja a herança que leva embora a esperança. Onde, na família, na sociedade ou no Estado, os valores são ignorados e ninguém já acredita mais, porque os sucessores seguem os mesmos passos dos exploradores e aos poucos se tornam quase iguais.
Há heranças deixadas que podem ser relacionadas com a fartura e o progresso. Há outras que não valem nada e se atualizadas trazem a miséria e o retrocesso.
Há uma coisa que quanto mais é dita pior fica. Como esta de que são as eleições que decidem a política. Poderia ser verdade se os governantes tivessem lealdade. Não é assim, o povo vota tentando por o fim naquilo que está errado; mas caberia, após o pleito, aos eleitos romperem com o passado.
Não basta repetir que a “herança é maldita” a toda hora, é preciso ter coragem de jogar alguma coisa fora. Imagine a cena: uma moça quando ainda pequena, aprendeu com sua mãe o vício do cigarro; quando adulta, sentindo o incomodo do pigarro, foi ao médico e a história revelou. Recebeu a incumbência de largar o vício; mas disse ela: apesar de todo o sacrifício, não posso jogar fora o que a minha mãe me ensinou.
É o que está ocorrendo na atualidade. A equipe econômica do governo teve a capacidade de adotar o modelo anterior e piorá-lo mais um pouco. Os credores ainda acham pouco mas aplaudem sem parar. Dizem que, quando o presidente vai “cobrar”, o ministro é que apresenta a conta; está mal de ponta a ponta, o que é então de fato governar?
Seria cuidar do caixa e fazer os pagamentos? Dizer aos funcionários que não terão aumento? Ajeitar os partidos no poder? Falando sério, a pior herança que um povo pode ter, é o jeito errado de fazer política. Quando este vota e se erradica, confiando que alguns poucos vão dar jeito, é como apontar ao próprio peito a espada que ameaça e mortifica.
Governar não é fazer justiça? Colocar cada coisa em seu lugar? Se é para se desmoralizar, de que vale então querer poder? Demoramos vinte anos pra vencer e em menos de dois já nos frustramos. Será que não é porque entregamos, nas mãos de alguns nosso destino? O sol do mandato já está a pino, logo passará do meio-dia e se não quisermos devolver o bastão à burguesia, devemos agarrar o poder que conquistamos.
De que jeito? Não é elegendo vereadores e prefeitos, dizendo que só “o poder central é insuficiente!”, mas, é tornar-se intransigentes e organizar-se para cobrar do Estado, tudo o que antes foi negado, colocando em pauta novamente.
Levantai pobres da terra e da cidade! É preciso pintar o espaço de vermelho, organizar-se em Movimentos e Conselhos e sair em defesa da utopia. Se acreditávamos até poucos dias, que as eleições por si só nada mudavam, é preciso imitar os que marchavam e desfraldar de vez a rebeldia.
Jamais na história houve este intento, onde um indivíduo se fazendo de instrumento, deu a seu povo o que este merecia. As conquistas não vêm sem valentia, sem luta e participação. O Estado domina o cidadão, quem lá chegar precisa saber disso, e se quiser manter os compromissos, terá que ir em outra direção.
Resta uma coisa ainda a falar: Sem o povo, quem quiser governar, apenas agradará aos senhores. O Estado pertence aos opressores, é uma máquina de engolir consciências, se não quisermos perder a coerência é preciso estar sempre nos vigiando, e se quisermos de fato governar e não nos desmoralizar, é preciso lá entrar em bandos.
Cartas de Amor Nº 92