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Çevre Yönetimi

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Além da fala de si, o segundo Círculo de Cultura propunha partir da problematização sobre “O jovem nos diálogos com a arte: Dramatizando o ser no mundo”.

Para isso realizei um exercício de expressão corporal, livre a princípio, e depois conduzido, a pedido dos jovens. Os jovens construíram cenas em que mostravam seu convívio social ― na pracinha do bairro, por exemplo, onde eram assediados pelos traficantes para utilizar drogas praticamente todos os dias, onde, então, tinham contato com amigos e conhecidos que utilizavam drogas.

O grupo colocou, depois, na análise dos jogos dramáticos, que queriam fazer, uma peça de final de ano, mostrando esta situação de assédio. Então, eles fizeram um jogo em que todos morriam no fim, devido à “dívidas” de drogas ― o que deixava ver o imaginário em

que viviam. Eu perguntei: será que a gente vai mostrar isso ou deve mostrar mais coisas? Vocês estão contentes com o que expuseram aqui? E eles puderam assistir-se pensando, ver a figuração das suas experiências na obra que extraíram de si, em grupo.

O exercício anterior havia deixado às claras a violência dos ambientes em que eles transitavam. E não expressava apenas uma história grupal, mas ali via-se o sentimento experimentado, que trazia o eu-próprio para um “nós” grupal que, confesso, assustou-me, pela forma como dele não emergia traços que fossem de um projeto de futuro.

Pensei: as cenas que mostravam eram de morte, dívidas e nenhuma saída, nenhuma esperança. Tudo terminava com a morte. Isso me causava espanto. Lembrei-me de Freire (1992): os espoliados não têm espanto porque já veem isso todo dia. E a esperança? Eu me perguntava. Como eu poderia construir esperança com eles? (Jornal da pesquisa).

Foi nesse momento, após a primeira figuração e o “dar-se conta do que estavam a dizer” que eles propuseram que eu continuasse os jogos dramáticos. Segundo o que um dos jovens expressou: “a gente queria que a senhora fosse mais fundo, tia”. Ao som de uma música clássica propus que deixassem vir sentimentos que eles deveriam ir reconhecendo em si ― observar o próprio sentimento junto ao que pensavam era o mote inicial do aquecimento.

Eu primeiro pensei que seria importante criar um movimento de escuta em que cada jovem iria falar de algo que o incomodava. Depois de um momento inicial com música, para estimular certa introspecção, sugeri que cada um pudesse externar seus sentimentos, andarilhos que eram de suas experimentações na escola, casa e bairro. Sentimentos de medo, solidão, angústia, dificuldades familiares, opção por drogas, efeitos das drogas, convivência com a morte, o que cada um encontra após a morte, Deus, de novo no ventre da mãe, renascendo, aconchego da mãe, da família... Todos eram sentimentos vividos e... experiências postas nas cenas dramáticas que faziam (Jornal da Pesquisa).

Ao conduzir a vivência, a pedido deles, tive uma enorme surpresa. Como atriz, emocionava-me o talento natural de alguns, a riqueza de expressões e gestos que eu via. E chego a pensar: “vem da dor entranhada nas vísceras de uma classe oprimida”. Eram os jovens se descobrindo ― eu aprendia e me emocionava.

Eu pensava: eles estariam com medo e queriam partilhar isso comigo? O medo era parte do imaginário do ambiente juvenil daquele grupo ou era de fato o sentimento dominante nos lugares onde frequentavam? Como ensinar-lhes a esperança? Será que é possível a alguém ensinar a esperança? (Jornal da Pesquisa).

Freire (1992, p. 51) reforçava esse meu sonho pela esperança, “sonho pela humanização”, pelo que em saúde tantas vezes chamamos com outros nomes. Eu pensava em

como torná-la concreto, rompendo com as “amarras, econômicas, políticas,sociais, ideológicas.” Não seria conviver com a desumanização um hábito, já instalado, acomodado, consentido nos silêncios? No processo de se fazer e re-fazer eu poderia ajudá-los a se desacomodar, sim, mas daí nasceria alguma esperança?

Após o exercício como um todo, busquei gravar entrevista coletiva, acerca dos sentimentos vivenciados ao realizá-lo. Vejamos a imersão de um dos jovens que denominei Francisco:

Francisco: E eu senti que... Senti o mundo como nunca tinha sentido antes. [...]

Calmo, bem... Como se fosse leve. Quando eu relaxei de verdade, no começo, eu senti isso. Fiquei deitado, imaginando... Sei lá, na hora que a senhora fez a vivência, senti como se tivesse perdido, eu pensei como se tivesse perdido a minha mãe...E foi muito difícil ficar pensando isso, não gosto...

Sei lá, o mundo ficou mais feio quando eu pensei nessas coisas [...]. Eu senti uma coisa diferente quando a senhora pediu pra mudar a expressão. Na hora também que a senhora pediu pra gente renascer também, pensei, sei lá, era como se a gente tivesse morrido de verdade. E depois renascesse. Como se Deus tivesse dado uma nova chance da gente poder viver uma nova vida, com uma... uma nova... uma outra coisa... outra oportunidade. É.

Freire (1967, p. 104) pensava numa perspectiva de facilitar o processo de criação ou partejamento de si, a partir da própria pessoa. O homem, desenvolvendo “a impaciência, a vivacidade, característica dos estados de procura, de invenção e reivindicação”, desencadearia em si “outros atos criadores”.

Ví, através dos exercícios teatrais, o jovem Francisco concluindo: “era como se Deus tivesse dado uma nova chance da gente poder viver uma nova vida”. Eram as reflexões alcançadas no jogo dramático e reflexionadas pelo jovem que o aproximavam dessa dimensão espiritual, como se uma potência protetora fosse extraída de si mesmo.

Manoel: Eu imaginei que eu tava num mundo diferente; eu relaxei bastante, é só

isso. Eu pensei logo assim, que era como se eu tava perdendo um assim... Uma pessoa que eu gostasse tanto assim. E eu imaginei... e tive medo.

Nas vivências realizadas, os temas eram propostos encaminhando-os para uma reflexão sobre as questões que eles traziam e sem perder de vista as que envolvem o uso abusivo de droga. Mas as dramatizações são criadas na hora, a partir das experiências de cada um.

A vivência é individual, no sentido de que cada um cria o seu papel, a sua personagem. Mas é vivência coletiva também, por estarem todos ao mesmo tempo pensando juntos e atuando, no mesmo ambiente, o que um diz reverbera no outro e provoca respostas e novas interrogações.

Então, a resposta é diferente; ela se dá a partir do que cada um traz em si. Como na reflexão do jovem que denominei Lucas:

Lucas: Eu senti uma coisa diferente quando a senhora pediu pra nós mudar a

expressão. Foi na hora que eu olhei pro Manoel, também, aí... Senti como se não fosse só, como é que eu vou te explicar?

― Uma brincadeira. (Alguns respondem.)

― Pronto, como se fosse de verdade. Tipo, eu tivesse fazendo uma coisa na hora que

eu tivesse virado pra lá e tivesse muitas pessoas olhando, entendeu?

Jung (1982, p. 60-61) chamava a atenção para o fato de que a certeza do mundo dos espíritos é uma grande conquista para o mundo: “O mundo dos espíritos não foi uma descoberta, como por exemplo a do fogo pela fricção, mas sim a experiência ou conscientização de uma realidade tão válida quanto a do mundo material”. A sensação de “muitas pessoas olhando”, referida pelo jovem não seria essa presença espiritual?

Lucas: Quando a senhora falou pra gente pensar o que nós perdemos, quando nós

tava morrendo, aí eu pensei muita coisa, assim, da família, e no que nós ia ganhar no futuro. Fiquei pensando: todo mundo tem um sonho de alguma coisa, aí eu pensei nisso.

O jovem Lucas relata sua sensação de perceber a vivência como se não fosse só uma brincadeira, alcançando também, intuitivamente, um estado de consciência transcendente, que levava o sujeito a se sentir um ser espiritual. Uma consciência que permeia o cosmos se vê de um novo lugar ― pensei. Queiroz (2010, p. 29) compreendia que “a espiritualidade tem o potencial de transcendência da experiência humana de um nível local e isolado para um nível mais abrangente e universal, com um sentido de totalidade”.

Ivone: Não fica olhando pra mim, não. Meu nome é Ivone. É... Tipo assim... Eu já

tinha vivido essa experiência, tal, e aí eu relaxei... Foi bom. Quando eu quis realmente sentir o que a senhora tava tentando passar pra gente, e tal, foi legal. Na hora que eu relaxei, eu... Teve uma hora que relaxei. Mas depois teve uma hora que realmente eu fiquei angustiada. Quando eu olhei pra esse menino... Aí eu fiquei parada assim. Porque eu tava imaginando que ele tava tipo como se ele tivesse desesperado, e eu queria ajudar. Mas eu não podia sair de onde eu tava ali, então eu fiquei só, assim, pensando. E foi supremo, foi legal.

O menino a que Ivone se referia era Manoel, aquele mesmo garoto que ficara “palhaçando” no dia em que eu passara fazendo os exercícios dramáticos com turmas inteiras no ano anterior, antes de ter o grupo juvenil.

Ele havia nesse dia da vivência “O jovem nos diálogos com a arte:dramatizando o ser no mundo”, a que eles se referiam, realizado um exercício dramático tão bonito e verdadeiro que havia mexido com os colegas. Como era um garoto muito extrovertido, sempre fazendo graça e tentando chamar a atenção a todo momento, a entrega que ele demonstrara durante o exercício mostrava o tesouro escondido que ele ainda não revelara de si, talvez nem ele mesmo conhecesse. Eu havia ido mais fundo, como eles pediram e suscitara neles o desejo de fazer uma viagem interior até o mais profundo que pudessem de suas emoções, passando por todas as perdas possíveis conduzindo-os depois a um renascimento no ventre da mãe, que se transformou num momento muito emocionante para todos (Jornal da pesquisa).

Para que se compreenda, havia também aqueles que tinham mais dificuldade de extrair de si, os sentimentos e experiências marcantes. Como se vivia um processo formativo com sujeitos em formação, havia que se permitir a construção no tempo de cada um. Como no caso de Marcos.

Marcos: Eu não consegui me concentrar, tia. Só quando eu me deitei ali... Relaxei.

Fiquei assim perdido em algum canto, tentando fugir e não conseguia.

Josy:Tentando fugir de alguém ou de você mesmo?

Marcos: Da escuridão, das trevas. Sei lá. (Não quis mais falar.)

Pires (1979, p. 59-61), discorre sobre a transcendência humana e observa que ela pode trazer a experiência de o sujeito se perceber individulizado, mas unido ao todo. A partir do horizonte espiritual em evidência pela mediunidade, o sujeito poderia se perceber como ser espiritual, tornando também possível a comunicação com outros seres espirituais, sem o corpo carnal: “continua o humano no plano espiritual”, observava o autor.

Tiago: Eu senti que, sei lá, fiquei meio adormecido... Na hora que a senhora falou...

Pensei tantas coisas, aí, quando a senhora falou pra renascer, pensei nos meus problemas e tal. Aí quando falou pra renascer, pensei na minha vida todinha. Em poucos minutos, tal, ó tia, vou falar não, tô com vergonha.

Jung (1982, p. 60-61) compreende que a condição hominal permite a ascensão a “uma consciência mais ampla”, nos levando a crer que “os processos inconscientes, sempre e em toda parte, levam à consciência conteúdos que, uma vez reconhecidos, ampliam o campo desta última”. Vê-se nos diálogos dos jovens que houve uma imersão em busca de si mesmo. O que leva o jovem a dizer: “Aí, quando falou pra renascer, pensei na minha vida todinha. Em poucos minutos”.

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