2.3. Çevre nedir?
2.3.2. Çevre Sorunları
A partir da breve apresentação das selecionadas74 ideias de Herder e Fichte, almeja-se compreender a formação do pensamento nacionalista teuto-brasileiro. Constata-se que tal pensamento foi fruto de um movimento intelectual conhecido como germanismo:
O germanismo é um movimento intelectual surgido entre meados do século XIX e a década de 1940 entre indivíduos do grupo étnico alemão no Brasil, tendo como preocupação central a defesa da identidade étnico-nacional da população imigrante. Foi encabeçado por figuras da elite teuta – jornalistas, professores, pastores, comerciantes, industriais – que forjaram uma identidade específica para esta população com base na distinção étnica – propriamente etnocêntrica – em que são tomadas características culturais e biológicas como elementos diferenciadores. Como o próprio nome revela, o germanismo não é apenas um movimento de valorização de um caráter, identidade ou modo de ser alemão, mas também tem suas origens numa concepção de unidade cultural germânica própria ao nacionalismo do século XIX. (SILVA, 2005, p. 311).
Encontram-se impregnados na concepção do germanismo vários elementos de influências do pensamento de Herder e Fichte. Essas características evidenciam-se através de alguns preceitos.
74 Destaca-se que foram selecionadas somente ideias que, de acordo com a ótica do autor dessa
dissertação, estavam mais evidenciadas no incipiente nacionalismo alemão que influiu na formação do nacionalismo teuto-brasileiro. As obras de Herder e Fichte são de uma abrangência bem mais complexa, destacam bem mais do que os poucos pontos levantados. Destacam, sobretudo, estudos da filosofia e da semântica.
Pode-se citar, por exemplo, o Romantismo alemão75, tendo Herder como seu grande expoente. Acreditava-se na valoração do “heroico” passado alemão, além do papel fundamental que o idioma alemão representava para a preservação da memória identitária do povo. A preservação do idioma é um dos pontos-chave tanto para Herder quanto para Fichte.
Ainda se pode referir sobre a reação ao domínio francês, iniciado na Europa com as conquistas napoleônicas. Esse domínio francês está, no caso do Brasil, muito relacionado com o “modo de ser francês” como padrão de elegância e comportamento na sociedade. Inclusive, o jornalista e político alemão Karl von Koseritz criticou muito em sua viagem ao Rio de Janeiro no final do século XIX a postura afrancesada da população.
Pode-se destacar, ainda, a “superioridade das raças”, o evolucionismo e o antissemitismo (momento posterior). A partir dessa ideia, o alemão foi considerado, ou considerou-se, um ser superior ao povo brasileiro76, por ser mais capacitado para atividades econômicas mais complexas, e apresentar uma cultura mais elaborada. Apesar de contrariar Fichte, que dizia que não existia obrigação da cultura superior ajudar a inferior, os germanistas pregavam que a função dos alemães no Brasil seria “humanitária”, ajudando o jovem país americano a se desenvolver economicamente.
Deve-se referir, também, a ideia de separação de “Nação” e “Pátria”. Essa é a questão nevrálgica para o nacionalismo teuto-brasileiro. Baseados principalmente na concepção de Fichte, a partir do qual a questão étnica é fundamental para a formação da nação, e não necessariamente a questão da formação de uma pátria, os germanistas estabeleceram a concepção de que a nova pátria seria o Brasil (questão político territorial), mas a nação continuaria a ser a alemã, pois bastava aos descendentes seguirem o “Volkstum, entendido como a essência do povo, o caráter, também etnicidade (tomada como identidade primordial de um grupo), e Deutschtum (germanidade) como a essência do povo alemão” ( SILVA, 2005, p. 299, grifo nosso).
75 “As ideias que compõem o germanismo advêm, de um modo geral, do romantismo alemão, que
serviu de alicerce para a formação de um sentimento nacional, um desejo de unidade como nação, a base do nacionalismo alemão do século XIX. Os românticos buscaram na língua o elo de ligação do povo germânico, traço comum aos indivíduos da nação alemã, uma ideia de nação cultural que não previa a unificação política” (SILVA, 2005, p. 312).
76 “O pioneirismo dos colonos, a eficiência do colonizador teuto são contrapostos a uma imagem
estereotipada do brasileiro rural, desqualificado como caboclo por todo um conjunto de características desabonadoras, remetidas a uma condição de inferioridade racial” (SEYFERTH, 1993, p. 23).
A partir da ideia da preservação do Volkstum e do Deutschtum, concebeu-se o âmago do nacionalismo teuto-brasileiro, em que:
A nova pátria é a colônia, a nova cidadania a brasileira, mas a etnia continua sendo alemã; o ato de emigrar significou o rompimento com o país
de origem, mas não com o Volk (povo/etnia) alemão. O pertencimento sugerido por tal categoria remete, por um lado, a uma entidade supraterritorial - a nação alemã, concebida como entidade cultural e lingüística que une um povo de mesma origem - e, por outro lado, à cidadania e a um território considerado como Heimat ou Vaterland - o Estado brasileiro. (SEYFERTH, 1993, paginação irregular, grifo nosso).
Nesse amálgama de cidadania (relacionada à pátria) e etnia (ligada à nação), formataram-se as bases do perfil do teuto-brasileiro, também chamado de Deutsch- Brasilianer. Já que os alemães e seus descendentes eram uma nação pertencente a uma pátria (que englobava outras nações), seria necessário que essa nação alemã tivesse direitos políticos ante essa pátria. Essas “lutas” foram intensificadas pela exclusão política: grande parte dos teuto-brasileiros não tinham direito à participação política, por não possuírem, de fato, a cidadania brasileira.
Assim, apresenta-se, inicialmente, a participação dos teutos nas questões políticas, mas não pelo viés político-partidário, e sim pelo viés da participação política através da conquista do direito de cidadania. Cidadania essa que teve seus horizontes ampliados a partir do artigo número V do Decreto no 3.029, de 9 de janeiro de 1881, também alcunhada de Lei Saraiva, que possibilitou a participação dos teutos acatólicos nos meios político-partidários.77
A possibilidade de eleição, advinda da Lei Saraiva, determinou, ainda no império, a eleição dos primeiros deputados de origem germânica:
A partir daí, vamos ter o ingresso de cinco deputados de sobrenome alemão na Assembleia Provincial gaúcha, nos últimos oito anos da Monarquia. Foram eles: Frederico Guilherme Bartholomay, Frederico Haensel, Karl von Kahlden, Karl von Koseritz, Wilhelm ter Brüggen. O fato de apenas um deles (Brüggen) ter pertencido ao Partido Conservador, e os outros quatro ao Partido Liberal, sugere que a ação do senador Gaspar Silveira Martins pode ter rendido dividendos. Além disso, o fato de essa bancada de cinco deputados ter sido muito pouco católica sugere que a questão da cidadania para não-católicos foi um tema importante. (GERTZ, 2010, p. 40).
77 “Acreditamos não ser possível falar em comportamento político do “imigrante alemão”, mas sim de
um comportamento político de um novo setor social: de comerciantes e industrialistas que tiveram uma atuação político-partidária, onde não é dito que o agricultor participava, mas sim era geralmente um espectador. Além dessa diferença não podemos deixar de considerar as diferenças religiosas” (KRAUSE, 2002, p. 96).
Como se pode entender, a lei Saraiva possibilitou a luta pela cidadania plena, ou seja, pelo direito de participação política não só para o voto, mas também para ser eleito. Devido a essa “manobra” de Gaspar Silveira Martins78 ocorreu a cooptação de muitos teuto-brasileiros ao PL.
Em contrapartida ao processo de cooptação estabelecido pelo PL, o PC expressou um verdadeiro repúdio à participação germânica no processo eleitoral brasileiro, destacando através do jornal O Conservador:
Que o Brasil necessitaria de uma imigração que trouxesse força de trabalho e capital; e, para atrair a ambos, bastaria o clima e a fertilidade do solo brasileiros; imigrantes que viriam por outras razões que seu bem-estar pessoal não seriam desejados, principalmente aqueles que quisessem tornar- se ministros e deputados, pois a honra da nação seria por demais altiva para servir de tapete para os imigrantes limparem sua escandalosa sujeira; a eleição de pessoas de sobrenome alemão para a Assembleia Provincial chegou a ser classificada como grande vergonha nacional. (GERTZ, 2010, p. 40).
Até mesmo o jovem PRR, criado em 1882, um ano após a aprovação da Lei Saraiva, demonstrava desconfiança em relação aos eleitores de origem germânica. Através do jornal A Federação,
Podiam ser lidos – no decorrer da década de 1880 – conteúdos daquilo que se costumava chamar de manifestações “nativistas” ou de alerta contra o “perigo alemão”, isto é, declarações no sentido de que a população de origem alemã da província faria parte – ou poderia vir a fazer – de um projeto de expansão imperialista da Alemanha. (GERTZ, 2010, p. 40).
Contudo, Dreher (2001, p. 08) aponta que, mesmo com uma presença significativa dos teuto-brasileiros no partido liberal, três diferenças político-filosóficas foram engendradas entre os germanistas: os Liberais - liderados por Karl von Koseritz; os luteranos – com evidente liderança dos pastores Wilhelm Rotermund e Hermann Dohms; e os católicos - sacerdotes jesuítas que assumiram o papel de mentores do grupo teuto, com maior destaque para Theodor Amstad e Max von Lassberg –, com grande influência entre os colonos do interior.
78“Estabelece-se então um arranjo entre a elite pecuarista e os setores econômicos dominantes da
região colonial, tendo como um defensor dos estrangeiros acatólicos o tribuno do PL, Gaspar Silveira Martins. Foi um dos batalhadores no senado para a efetivação da lei Saraiva, de 1881, que permitia a elegibilidade dos acatólicos, conquistando a simpatia nas zonas coloniais alemãs” (KRAUSE, 2002, p. 97).
A partir dessas três diferenciações, determinou-se a tendência79 para a participação política partidária desses grupos, consubstanciando, principalmente: os liberais, que tiveram a tendência de participar do Partido Liberal, e, posteriormente, Federalista; os católicos, ao Partido de Centro; e os luteranos tenderam ao Partido Colonial (GERTZ, 2010).
Salienta-se que havia, inclusive, um forte processo de rivalidade entre esses grupos. Destaca-se a intensa briga nos jornais entre o pastor Rotermund, que propunha o atrelamento entre a Igreja Luterana e germanidade como algo intrínseco aos dois elementos. Esse amálgama: fé luterana e a tradição alemã, já estava expressa em Fichte, que via na religião luterana uma idiossincrasia que diferenciava os povos alemães dos demais. Segundo Rotermund, os membros da comunidade religiosa luterana que negassem sua germanidade estariam perdidos, para a Igreja. Esse aspecto de atrelamento da igreja alemã (luterana), que requisitou para a germanidade, ou o Deutschtum, era uma velada crítica ao principal articulador do teuto-brasileirismo, Karl von Koseritz, que era considerado ateu, apesar de sua ligação com a maçonaria.
4.3 A CONSTITUIÇÃO POLÍTICO-PARTIDÁRIA NAS ÁREAS DE IMIGRAÇÃO