• Sonuç bulunamadı

III. BÖLÜM: FRANSA VE TÜRKĐYE’DE ÖZELLEŞTĐRMELERĐN

3.3 ÇALIŞMANIN MODELĐ

As CSM, uma coleção de 420 cantigas religiosas em homenagem à Virgem Maria, foram elaboradas em galego-português e atribuídas a Dom Afonso X de Castela, o Sábio, que as teria elaborado com a colaboração de trovadores, músicos, desenhistas e miniaturistas das mais variadas origens e culturas, que ele acolhia na sua corte. Para Parkinson (1998, p. 179), elas constituem um monumento literário, musical e artístico da mais elevada importância. Mettmann (1986b, p. 8) confirma a relevância desse corpus para o estudo da época medieval:

Por haberse logrado en ellas un perfecto equilibrio entre texto, melodías y pintura ocupan las Cantigas de Santa Maria un lugar privilegiado en la literatura medieval, y no cabe duda de que para su régio ‘autor’, el “fazer sões” y el “pintar” no eran de menor importancia que el “contar”, “trobar” y “rimar”. Huelga subtrayar el rango que en la historia de la espiritualidad les corresponde a las Cantigas como al monumento literario más destacado del culto mariano en la Península Ibérica, su interés para la historia de la métrica y, finalmente, su importancia como uma de las fuentes más ricas del galaico-portugués antiguo.

Para Keller (1987, p. 10), “Alfonso produced an anthology of miraculous narratives which would surpass any such collection before or during his time. This collection was the Cantigas de Santa Maria”.

Uma interpretação das Cantigas que difere um pouco das anteriores é a de Castro (2006). O autor acredita que a obra religiosa afonsina é um legítimo representante da literatura gótica; desta forma, as Cantigas seriam uma espécie de “catedral gótica literária”:

[...] além de representarem as transformações históricas, guardando óbvias ligações com o culto mariano, [as CSM] não só dão um vasto espaço ao diabo como personagem, mas também assemelham-se às catedrais na representação da diversidade populacional e das crenças fantásticas, algo demonstrado nas imagens ora esculpidas nas paredes, ora iluminadas nos vitrais dessas construções sagradas. Em sua vastidão, o texto apresenta uma enorme variedade de povos (etnias, religiões, nacionalidades, classes sociais) e os mais fantásticos acontecimentos. Podemos até pensar que as riquíssimas iluminuras que acompanham originalmente os textos e as notações musicais servem-lhe como os vitrais, que trazem um encanto inigualável às construções religiosas. (CASTRO, 2006, p. 44-45)

Leão (2002, p.1) chama atenção para o ambiente em que esta antologia foi criada, mostrando a riqueza de trabalhos desenvolvidos por Afonso X:

No mesmo scriptorium também se compilavam leis, ou se registravam em códigos várias normas consuetudinárias; escreviam- se tratados de várias ciências; registrava-se a história da Espanha, bem como uma história geral da humanidade; traduziam-se obras do hebraico, do árabe ou do grego por via do árabe; compunham-se obras sobre jogos e lazeres, como o xadrez e os dados; produziam-se poemas profanos e sacros, cujos textos eram copiados, musicados e miniaturados em belíssimos manuscritos.

Segundo Leão (2007, p.20), foi nesse contexto de efervescência cultural que surgiram as CSM, uma coleção de mais de quatro centenas de cantigas, 420 no total, narrativas ou líricas, das quais 356 narram os milagres da santa (miragres); as demais, com exceção de uma introdução e dos prólogos, são de louvor a Virgem (loores), estas distribuídas de dez em dez. Tirando o poema introdutório, todas estão acompanhadas de melodias. Para Parkinson (1998, p.179), dado que a intenção dessa coletânea foi sempre a de louvar a Virgem e aumentar a devoção a ela, todas as cantigas são na verdade de

louvor, todas exaltam a Mãe de Deus, vista, sobretudo, como nossa indulgente advogada junto a Jesus Cristo.

Muitos milagres marianos foram recolhidos de igrejas e santuários europeus, principalmente franceses e ibéricos, e são de fonte confirmada e bem conhecida, mas muitos relatos são ainda hoje de fonte desconhecida e provavelmente apenas oral (FILGUEIRA VALVERDE, 1985, p. 49).

Para Leão (2007, p. 26-27), é importante ressaltar que não há apenas uma narrativa verbal, mas também uma narrativa iconográfica em iluminuras, que se dispõem numa só página, dividida em seis quadros; e ainda outra narrativa textual, resumida, sob a forma de seis legendas, cada qual colocada acima de um quadro da seqüência das iluminuras (apenas nas primeiras 25 cantigas, que receberam prosificações em castelhano, colocadas abaixo das iluminuras, no manuscrito Escorial rico). A autora ainda acrescenta que a narrativa verbal se expressa em “sintético poema cheio de subentendidos”, enquanto a narrativa visual que a acompanha pode extrapolá- la para preencher eventuais lacunas da narrativa poética.

Segundo Mettmann (1986b, p.12), as cantigas de milagres podem ser divididas em três grandes grupos, segundo a procedência e o cenário das histórias narradas. No primeiro grupo teríamos todos os milagres marianos divulgados pelo ocidente cristão; algumas destas coleções reúnem milagres localizados em determinados santuários, sobretudo franceses. No segundo grupo estão as cantigas relacionadas com santuários da própria península. Finalmente, no terceiro grupo, as cantigas relatam acontecimentos milagrosos sucedidos ao próprio Rei, a membros de sua família ou às pessoas próximas a ele; algumas cantigas são de caráter autobiográfico. O quadro abaixo, retirado de Mettmann (1986b, p. 12), apresenta a distribuição das cantigas de acordo com os tipos

apresentados acima (cantigas que narram milagres acontecidos em várias partes da Europa – internacionais, na própria península – nacionais, e ao próprio rei – pessoais).

Cantigas Milagres Internacionais Nacionais Pessoais

1-100 89 75 14 1

101-200 90 46 44 3

201-300 90 36 54 8

301-427 87 19 68 13

Quadro 2.1. Distribuição das cantigas de acordo com sua origem (Mettmann, 1986b, p.12)

Podemos perceber pelo quadro 2.1 a evolução do projeto a partir do conteúdo dos milagres retratados. Os milagres de tradição européia, os internacionais, predominam no conjunto das primeiras cem cantigas, mas essa proporção diminui muito conforme se avança a cada grupo de 100. Já a proporção de narrativas localizadas na Península Ibérica aumenta. No final, há um aumento considerável de eventos associados ao Rei Afonso X diretamente, ou a membros de sua família e de sua corte (MASSINI- CAGLIARI, 2005, p. 66).

Filgueira Valverde (1985, p. 50) também classifica as fontes das Cantigas, mas de uma maneira um pouco mais pormenorizada que Mettmann, da seguinte forma: a) marianos latinos sem característica local; b) romances marianos; c) obras gerais de onde se tomaram temas relativos à aparição da Virgem; d) coleções locais estrangeiras; e) coleções locais peninsulares; f) milagres familiares ou autobiográficos.

Mettmann (1986b, p. 13) explica que a estrutura dos poemas narrativos é praticamente invariável: há um estribilho inicial, que se repete depois de cada estrofe e apresenta o tema; nas primeiras estrofes se dão normalmente indicações mais ou menos

concretas sobre o espaço, a época, às vezes a fonte e nomeiam-se as personagens envolvidas na história.

Já em relação às cantigas de louvor, todos os temas, os epítetos e imagens têm antecedentes ou paralelos na literatura mariana anterior ou contemporânea, nas quais o Rei e seus colaboradores se inspiravam sem seguir modelos determinados. Mettmann (1986b, p.14) acredita que havia clérigos entre os autores, devido à grande familiaridade com textos litúrgicos. Entre as 61 cantigas de caráter não-narrativo, predominam aquelas que celebram Maria como auxiliadora, mediadora e procuradora. Segundo Leão (2007, p. 8), nessas cantigas (de louvor), a presença da figura de Afonso X é freqüente, sempre retratado em uma postura humilde:

Diferentes no propósito e no valor documental são as cantigas de

loor, que constituem a parte essencialmente lírica da coletânea.

Algumas vezes em discurso direto, mostram sempre o Rei-trovador diante da Virgem Maria, exaltando-lhe as qualidades ou oferecendo- lhe a sua devoção, da mesma forma que, nas iluminuras respectivas, a figura do Monarca é presença constante, na mesma postura humilde.

Para Keller (1987, p. 15), a música deve ser considerada tão importante quanto os outros aspectos mais comentados pelos estudiosos, as histórias em versos e as ilustrações. Segundo o autor, sem a música, as Cantigas seriam apenas milagres e hinos escritos em verso e ilustrados.

Segundo Filgueira Valverde (1985, p. 44), as cantigas estão escritas, como outras obras afonsinas, a partir de uma idéia de “exemplaridade”. Esta tendência não é mera inclinação pessoal, era a direção dominante da época, que estabelecia todo um gênero “exemplar”, tendo assim pretexto para recorrer à narrativa tradicional do Oriente e da antigüidade clássica, para criar e compor novos relatos e para infiltrar passagens amenas nas mais elaboradas formas literárias.

Así surge el “exemplum”, con su carácter didáctico, de predicación, dando paso a un triple juego: teológico, moral e imaginativo. El orador expone su doctrina, saca la conclusión práctica e ilustra, con una narración o fábula, doctrina y conclusiones. Así había entendido el ejemplo la retórica clásica, en su utilidad para la comprensión, la persuasión y el recuerdo, apelando a la vez a la inteligencia, a la voluntad y a la memoria; así lo utilizó la cristiandad desde los orígenes mismos de la predicación evangélica. (FILGUEIRA

VALVERDE, 1985, p. 45)

Já Keller (1987, p. 7) chama atenção para outro aspecto das cantigas de Afonso X: o recreacional. Para o autor, é este aspecto que une todos os outros elementos, imprime racionalidade aos poemas, chama e prende a atenção, “and imparts to the remarkable volumes the power and the charm which enabled the king to confront the widest possible public in all its masses and classes”.

Não se sabe precisar ao certo quando foi escrita cada uma das CSM, mas as diversas fases de sua elaboração distribuem-se ao longo de alguns anos. É possível situar as cantigas no tempo com base nas referências históricas que se podem extrair do próprio texto. A biografia de Afonso X também é um fator crucial na datação dos poemas da coleção, sendo importante apontar os fatos mais relevantes de sua vida para poder supor aproximadamente a data de cada um dos manuscritos (MASSINI- CAGLIARI, 2005, p. 62).