Neste capítulo pretende-se realizar uma análise mais pormenorizada dos exemplares considerados mais significativos dentro do conjunto de 108 exemplares modernos do BNB projetados por arquitetos cearenses ou radicados no Ceará. Para tanto, é necessário estabelecer parâmetros para seleção das obras mais representativas, a partir de características observadas. Como foi exposto no capítulo anterior, os edifícios foram construídos para atender às diversas necessidades da instituição, desde atendimento ao público até funções administrativas, dentro de uma política de expansão planejada e de modernização.
Desse modo, verifica-se a configuração de três tipologias principais em função dos usos cuja definição foi abordada no primeiro capítulo: a agência, o edifício misto e o administrativo. Conforme o gráfico abaixo, percebe-se a preponderância dos exemplares construídos com o intuito de ampliar, ou consolidar, a rede de atendimento ao público da instituição:
Gráfico 3.1 - Quantidade de edifícios de acordo com o uso.
O primeiro aspecto a ser ressaltado se refere então aos três tipos de usos identificados no conjunto das obras. Este parâmetro se sustenta no fato de que algumas características específicas estão associadas ao tipo de usos e funções a que os edifícios se destinam. Assim, independente do quantitativo apresentado acima, optou-se por analisar pelo menos um exemplar de cada um dos três tipos de uso principais.
Com relação aos edifícios administrativos, foram identificados três exemplares: o Centro Administrativo Presidente Getúlio Vargas (CAPGV), inaugurado em 1984 (primeira etapa) e concluído em 1986, atual sede do BNB; o conjunto Centro de Treinamento e Restaurante; e o edifício da Creche, localizado ao lado do primeiro em Fortaleza-CE. Considerou-se então que o CAPGV (figura 3.1) seria o mais relevante para a análise devido a três fatores: primeiro, trata-se do edifício-sede da instituição; segundo, pelo seu porte, possuindo a maior área construída de todo o conjunto moderno do BNB; terceiro, pela singularidade do seu partido arquitetônico, marcado pela presença de uma grande estrutura espacial em alumínio que cobre diversos blocos administrativos, separados por jardins. Pelas razões levantadas, o projeto de autoria dos arquitetos-funcionários Marcos Antônio Thé Mota (1950) e Wesson Monteiro Nóbrega (1947), foi o primeiro escolhido dessa amostra de exemplares mais significativos.
Figura 3.1– CAPGV.
Fonte: arquivo histórico digital do BNB. Projeto: Marcos Thé Mota e Wesson Nóbrega, 1982.
Referente à segunda categoria, os edifícios de uso misto. Do conjunto de onze edificações construídas pelo BNB, uma já prontamente se destaca: o edifício Raul Barbosa (1978), que fora construído para ser a primeira sede moderna do BNB e, também, abrigar a principal agência de toda a rede de atendimento, a unidade de Fortaleza, possuindo assim o mais completo programa bancário a ser atendido num só projeto (figura 3.2).
Figura 3.2 – Edifício Raul Barbosa (EDIRB).
Fonte: arquivo histórico digital do BNB.
Ainda na categoria de edifícios mistos, dos outros cinco exemplares pesquisados, buscou-se destacar três obras modernas através do cruzamento de informações como: a inserção geográfica e a relevância dos centros urbanos no Nordeste; a localização urbana, considerando o sítio onde fora implantado e o contexto com a cidade; e as características projetuais, avaliando-se as edificações que possuíam soluções formais mais singulares para atendimento do programa bancário e administrativo. Desse modo, se destacaram três exemplares, os edifícios que abrigam as antigas “filiais estaduais” de: Natal-RN e João Pessoa-PB (figura 3.3), ambas de autoria dos arquitetos José Liberal de Castro, Gerhard Bormann e Reginaldo Rangel; além do projeto de Maceió-AL (figura 3.4) de José Neudson Braga.
Figura 3.3 – Edifícios de João Pessoa-PB (à esquerda) e Natal-RN (à direita).
Fonte: arquivo técnico digital do BNB.
Projetos: Liberal de Castro, Gerhard Bormann e Reginaldo Rangel, 1969 e 1970, respectivamente.
Figura 3.4 – Edifício de Maceió-AL.
Fonte: arquivo histórico digital do BNB. Projeto: Neudson Braga, 1971.
No que diz respeito à terceira categoria, composta pelas agências, que abrange a maior quantidade de exemplares, adotou-se como primeiro critério uma característica que se sobressaiu em alguns edifícios ao longo da coleta de dados da pesquisa: a utilização de um projeto, que fora elaborado para uma determinada agência, como referência para outras unidades. Segundo Áureo Souza e Tito Lívio Correia, isso se sucedeu em momentos de grande demanda pela construção de novos prédios dentro de um tempo exíguo. Esse processo resultou, então, em trinta novos edifícios baseados em doze propostas projetuais anteriores, já existentes no acervo do BNB, conforme Tabela 3.1:
Tabela 3.1 - Lista de conjunto de projetos utilizados em mais de um edifício.
Autor do projeto original
Ano do projeto
original Edifícios construídos
1 Francisco Afonso Porto Lima 1970 Guanambi-BA, Iguatu-CE, Januária-MG e Jequié-BA 2 José Neudson Braga 1974 Limoeiro do Norte-CE e Paulo Afonso-Alagoa Grande-PB, Jaguaribe-CE,
3 Antônio Carvalho Neto 1975 Floresta-PE e Surubim-PE 4 Paulo Cardoso da Silva 1976 Gararu-SE, Mata Grande-AL e Valença Angicos-RN, Catolé do Rocha-PB,
do Piauí-PI
5 José Neudson Braga 1976 Lavras da Mangabeira-CE e Ouricuri-PE 6 José e Francisco Nasser Hissa 1977 Itaporanga-PB e Picos-PI 7 Delberg Ponce de Leon 1980 Alagoinhas-BA, Almenara-MG, Carira-SE, Itaberaba-BA, Nanuque-MG e
Tobias Barreto-SE
8 Marcos Antônio Thé Mota 1980 Morro do Chapéu-BA, Mundo Novo-BA, Pesqueira-PE e Sertânia-PE 9 Pedro Cleber L. Dantas 1981 Itapetinga-BA e Pirapora-MG 10 José e Francisco Nasser Hissa 1981 BA, Lagarto-SE, N.S. Glória-SE, União Caicó-RN, Campo Maior-PI, Jacobina-
dos Palmares-PI
11 Tito Lívio Ramos Correia 1983 Boquim-SE, Goiana-PE, Paulista-PE e Piripiri-PI 12 Tito Lívio Ramos Correia 1985 Cajazeiras-PB, Santo Antônio-RN
Fonte: elaborado pelo autor.
Esses projetos tiveram atributos que se destacavam e potencializavam a sua escolha dentro do conjunto existente no Banco, tornando-se uma espécie de modelos de agência bancária para determinadas circunstâncias, relacionadas principalmente ao porte da unidade e às características do terreno onde seriam implantados. Neste sentido, estes exemplares podem ser considerados legítimos protótipos, confirma Montaner:
Os protótipos arquitetônicos são produzidos essencialmente durante o movimento moderno, quando os métodos de projeto e construção tomam como referência o mundo mecanicista da produção industrial, e buscam exemplos que passem por bancos de provas similares aos que passam as máquinas repetíveis e articuláveis. Encontramos os casos mais emblemáticos nas propostas de Le Corbusier e Mies van der Rohe (MONTANER, 2001, p.117).
Figura 3.5: Edifício da agência de
Guanambi-BA (Protótipo 1). Figura 3.5: Edifício da agência de Mata Grande - AL (Protótipo 2).
Fonte: arquivo histórico digital do BNB.
Entre os que foram reproduzidos em série, procurou-se elencar exemplares que retrataram diferentes momentos dentro do recorte temporal adotado pela pesquisa. Assim, foram selecionados quatro projetos: o primeiro a ser repetido, denominado nesta pesquisa de Protótipo 1, concebido pelo arquiteto Francisco Afonso Porto Lima e construído para as agências de Guanambi-BA (figura 3.5), Iguatu-CE, Januária-MG e Jequié-BA, tornou-se uma primeira referência para as novas agências modernas do BNB; o segundo escolhido, o projeto de 1976 de Paulo Cardoso da Silva construído para a agência de Catolé do Rocha-PB , e replicado em Angicos-RN, Gararu-SE, Mata Grande-AL (figura 3.6) e Valença do Piauí-PI, por ser um exemplo de agência bancária com uma proposta em um único pavimento e se constituindo numa espécie de modelo para as agências de menor porte, chamado de Protótipo 2; o terceiro projeto selecionado é de autoria de Delberg Ponce de Leon, que, com alterações, serviu de base para seis construções, a maior produção em série do BNB, será então considerado o Protótipo 3 (figura 3.7); o quarto é o projeto que Tito Lívio Correia Ramos concebeu para a agência de Piripiri-PI e serviu como base para construção de três outras unidades, além de ter sido o ponto de partida para o projeto da agência de Simão Dias-SE, sendo um dos últimos a ser replicados, assume a denominação de Protótipo 4 (figura 3.8).
Figura 3.7: Edifício da agência de
Itaberaba-BA (Protótipo 3). Figura 3.8: Edifício da agência de Paulista-PE (Protótipo 4).
Fonte: arquivo histórico digital do BNB.
Projeto: Delberg Ponce de Leon, 1981. Fonte: arquivo histórico digital do BNB. Projeto: Tito Lívio Ramos, 1983.
Contudo, é importante destacar também alguns projetos de agência que não foram repetidos, mais apresentam características excepcionais, como é o caso específico de dois exemplares: primeiro, o edifício localizado na cidade de Juazeiro
do Norte-CE, o maior construído pelo BNB fora de uma capital, trata-se de uma torre bancária de oito pavimentos, cujo porte e tipologia conferem grande singularidade a esse projeto do arquiteto Wesson M. Nóbrega (figura 3.9); o segundo, também emblemático, é o edifício da agência de Penedo-AL de autoria de José Liberal de Castro e José Neudson Braga e construído dentro de um contexto urbano de relevância cultural e histórica, no qual a proposta do projeto dialoga com esse entorno (figura 3.10).
Figura 3.9: Edifício da agência de Juazeiro do
Norte-CE. Figura 3.10: Edifício da agência de Penedo-AL.
Fonte: arquivo histórico digital do BNB.
Projeto: Wesson Nóbrega, 1976. Projeto: Liberal de Castro e Neudson Braga, Fonte: arquivo histórico digital do BNB. 1976.
Em síntese, a lista de obras a serem melhor analisadas nessa pesquisa sobre o conjunto moderno do BNB compreende os edifícios listados na Tabela 3.2. Mais adiante, será apresentada a proposta de metodologia para análise dos projetos escolhidos.
Tabela 3.2 - Exemplares modernos mais significativos do BNB.
UNIDADES Construída Área
(m²)
Nº de
pavtos. Arquiteto Uso projeto Ano
Centro Administrativo Presidente Getúlio Vargas em Fortaleza- CE
20.471,77 03 Wesson M. Nóbrega Marcos Thé Mota e Administrativo 1982 Ed. Raul Barbosa em
e Carlos Costa Filial estadual em João
Pessoa-PB42 2.489,47 03
José Liberal de Castro, Gerhard Bormann e
Reginaldo Rangel Misto 1969 Filial estadual em
Maceió-AL43 2.339,86 03 José Neudson Braga Misto 1970
Filial estadual em Natal-
RN44 1.541,66 08
José Liberal de Castro, Gerhard Bormann e
Reginaldo Rangel Misto 1970 Protótipo 1 –
Guanambi-BA, Iguatu- CE, Januária-MG e Jequié-BA
710,64 02 Francisco Afonso Porto Lima Agência 1970 Protótipo 2 – Angicos-
RN, Catolé do Rocha- PB, Gararu-SE, Mata Grande-AL e Valença do Piauí-PI
317,62 01 Paulo Cardoso da Silva Agência 1973 Protótipo 3 – Alagoinhas-BA, Almenara-MG, Carira- SE, Itaberaba-BA, Nanuque-MG e Tobias Barreto-SE
667,60 02 Delberg Ponce de Leon Agência 1980 Protótipo 4 – Boquim-
SE, Goiana-PE,
Paulista-PE e Piripiri-PI 584,38 02 Tito Lívio Correia Agência 1982 Agência Juazeiro do
Norte-CE 3.841,40 08 Wesson M. Nóbrega Agência 1976
Agência de Penedo-AL 939,81 03 José Liberal de Castro e Neudson Braga Agência 1978 Fonte: elaborado pelo autor.