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BÖLÜM V. YATIRIM FONLARININ BAĞIMSIZ DENETİM SONUÇLARININ

5.4 Çalışmanın Bulguları

Sentido na Pertença

A prova da inexistência de Deus pela construção lógica oriunda de Epicuro, em que a Suma Bondade e a Onipotência Divina estivessem conjugadas, mesmo em um mundo ladeado pelas misérias humanas em todos os campos, acabou por criar o poder demoníaco, possibilidade de se quebrar a lógica epicurista. Dualidade evidente em nossas religiões desde os embates de Ormuz e Arimã do antigo Zoroastrismo persa. As religiões, em especial as do seio do Patriarca Abraão, acabaram por cunhar um adversário decaído, a personificação do Mal, o Diabo – em que tantas alcunhas revelam sua postura negativa diante da Luz, do Bem, e no cristianismo, do próprio Cristo.

Por muito tempo o cristianismo moderno, ou seja, o da teologia liberal do século XVIII, intentou diminuir o poder conferido à personificação do mal. Todavia, à moda,

“Pastores e fiéis [neopentecostais] enxergam a ação divina e demoníaca nos acontecimentos mais insignificantes do cotidiano. Para eles, não há acaso. Tudo é prenhe de sentido, e a Bíblia contém todas as respostas de que precisam. Daí a banalização de fenômenos sobrenaturais nas igrejas pentecostais. E tudo indica que, diferentemente dos grupos e teólogos cristão liberais, estes crentes não estão nem um pouco dispostos a abrir mão do sentido que o personagem do Diabo e o de seu criador e oponente, Deus, são capazes de conferir à caótica, precária e sofrida vida humana” (Mariano, 1999:110).

Desse reavivamento do entendimento e da percepção das influências demoníacas no mundo, pelo meio religioso pentecostal e, sobretudo neopentecostal, deu-se início a um processo de enfrentamento por parte dos membros destas religiões aos cultos de origem afro-brasileira e kardecista. Exorcismos e manifestações compunham o cenário cultual de demonização dessas religiões. Na pesquisa Novo Nascimento (Fernandes, 1996: 50, 51) promovida pelo ISER, 95% dos evangélicos consideravam o Candomblé e a Umbanda como satanistas ou demoníacas. 88% deles consideravam o Kardecismo também demoníaco, e, 43% dos adeptos da Igreja Universal consideravam até o Catolicismo como demoníaco.

Deus e o Diabo estão em batalha, em que Deus já é o vencedor a priori, no entanto, o que temos, de fato, é uma batalha pelas almas. Porque haverão aqueles eleitos que, santificados, serão salvos e os imprudentes que se perderão e se condenarão à danação eterna. Tal dualismo e embate sempre estiveram marcados no cristianismo, todavia neopentecostais e deuteropentecostais como a Casa da Bênção e a Deus é Amor potencializaram tal disputa criando ensejos litúrgicos, que associavam a verdadeira libertação a destronamentos do Diabo, como em casos de “macumba”. Temos os cultos afro-brasileiros e kardecista estigmatizados, pelo (neo) pentecostalismo, uma vez que estes outros são agenciadores do mal e lutam por levar a humanidade para o Mal.

Em recortes citados por Mariano (1999:114) Edir Macedo e R. R. Soares apresentam os embustes do Diabo de forma a responsabilizá-lo por todo o mal

existente no mundo. Um processo que acredito ser de desresponsabilização pelos produtos oriundos da própria decadência humana, biológica e moralmente situada.

“(...) não existe nada que esteja fora da ação demoníaca. No futebol, na política, nas artes e na religião, nada escapa ao cerco do Diabo (...) Satanás tem milhares de agências no mundo (...) Por trás da religião, do intelectualismo, da poesia, da arte, da música, da psicologia, do entendimento humano e de tudo com o que temos contato, Satanás se esconde”. Cita ainda, “centros de perdição” como “as adegas, os prostíbulos, as casas de jogo de azar, os bares onde as pessoas se embriagam e tantas outras coisas que transtornam a vida dos homens são também agências do Diabo. O espiritismo não ensina seus adeptos a se afastarem delas; pelo contrário, bebidas alcoólicas, fumo, prostituição e coisas desse tipo são comuns principalmente no baixo espiritismo (...). O Diabo controla tudo. Há pessoas tão envolvidas com o espiritismo que têm sob controle dos espíritos desde a alimentação até sua vida sexual. Os espíritos se envolvem com tudo. Cores de roupas, lugares onde passear, tipos de carnes e comidas, dias de lazer, pessoas com quem devem fazer amizade, filmes a que se pode assistir, horário para andar pelas ruas, modo de banhar-se” (Soares, 1984: 24, 83, 85, 103, 114).

Para Edir Macedo, até mesmo os vírus e bactérias, ou seja, tudo que causa doenças é de origem demoníaca. Segundo o grande líder da Universal o Brasil não é desenvolvido porque o demônio utiliza-se do catolicismo (Macedo, 1988:27, 104). É necessário, desta forma, que os fiéis estejam preparados para lutar por suas almas, e este empreendimento acaba por demonizar o diferente que precisa ser derrotado, pertença necessária que elabora um sentido a estas vidas precarizadas pela exclusão socioeconômica. A alteridade religiosa é impossível, o que torna toda e qualquer possibilidade de ecumenismo um disparate para os membros destas religiões que precisam do Diabo para fazer o Bem vencedor. As religiões que pregam uma teologia que não observa os embustes do “Inimigo”, pela apostasia acabam por também se fazerem inimigos, uma vez que não preparam seus fiéis para a “ordem de batalha”. A “armadura dos cristãos” presente na Epístola de Paulo à Comunidade dos Efésios nunca esteve tão contemporaneamente colocada. “Revesti-vos da armadura de Deus para estardes em condição de enfrentar as manobras do diabo” (Efésios 6,11).

Qualquer contato com a obra maligna leva, irremediavelmente, a sintomas. Sintomas tão banais da ordem física, que qualquer um poderia estar virtualmente possuído. Com tamanha abrangência, o proselitismo torna-se uma potente “arma” para a conversão dos aflitos.

A matriz religiosa brasileira passou por mudanças profundas no que diz respeito a pluralidade. O pluralismo existente passou a ser mais tolerado no século XX, cada vez mais desenraizado do itinerário simbólico do catolicismo. Até o Catolicismo de veemente perseguidor tornou-se difusor de práticas ecumênicas, todavia, afro- brasileiros e espíritas retomaram os discursos “vitimizadores” diante os novos enfrentamentos encabeçados pelos (neo) pentecostalismo.

“O que acontece no espiritismo, na verdade, justificaria chama-lo fábrica de loucos. Engano, desequilíbrio mental e nervoso, crime, loucura, possessão e opressão demoníaca, prostituição, pederastia, lesbianismo, idolatria, etc. (...) Há muito charlatanismo os terreiros”. Prossegue o líder da Internacional da Graça ao dizer que no Quimbanda existe “exus protetores de pederastas, de viciados, de valentões, de ladrões etc. Muita bebida, principalmente cachaça (marafo) é consumida por seus adeptos”. O Candomblé é acusado de ser “uma das religiões mais diabólicas que a humanidade já conheceu”. O Umbanda é o “lugar” em que até “os demônios são adorados como deuses, a quem prestam cultos e sacrifícios (...) O Espiritismo (kardecista) é a maior agência que Satanás estabeleceu neste mundo para extraviar e perder os homens” (Soares, 1984: 21, 29, 31, 34, 70, 84).

O deputado estadual e umbandista Átila Nunes (PMDB/RJ) chegou a pedir, em 1981, ao então ministro da Justiça, Ibrahim Abi Ackel, que interviesse pela tolerância religiosa (Jornal do Brasil, 21.11.1988). A voz do deputado contou com inúmeras outras vozes oriundas de movimentos religiosos e de instituições culturais e raciais. A Igreja Universal, por intermédio de Paulo De Velasco, se defendeu dizendo apenas que “não há agressão. É que alguns evangélicos ficam exaltados na luta contra o mal” (Veja, 30.11.1988).

As agressões foram muitas, de todos os lados, mas, segundo Mariza de Carvalho Soares, em seu texto Guerra Santa no país do sincretismo, publicado nos cadernos

do ISER em 1990, o simbolismo utilizado pelos cultos afro-brasileiros e (neo) pentecostais é muito semelhante, apenas possuindo invertidos os valores, mas depositando o discurso em um mesmo jogo de configuração lingüística (1990:88). Como exemplo desta semelhança, temos que, mesmo diante das intensas divergências, ambas sobrevivem a partir do compartilhamento de construções simbólicas como a experiência dos transes extáticos de possessão. Sem as entidades afro-brasileiras, não é possível os exorcismos aos “encostos”.

Mesmo a sexta-feira se mostra como espaço de compartilhamento simbólico: Nos terreiros e tendas ocorrem os “trabalhos” possíveis pelas giras de Exu. No neopentecostalismo temos os “cultos de libertação” que se popularizaram com a alcunha de “Sessões do Descarrego”.

Esta modalidade de Teologia neopentecostal recebe o nome de Teologia do Domínio e refere-se à luta, à guerra, travada entre Deus e o Diabo, todavia tal categoria tem funcionado como um princípio de gestão “desresponsabilizadora”. A culpabilidade de um processo dito patológico não é conferida ao biológico do indivíduo, ou mesmo à sua estrutura psicológica, mas sim pela perda de autonomia, é conferida ao maligno. Um desvio moral é associado, igualmente, ao “outro” espiritual que será expulso como a um tumor, não sendo associado ao sujeito desviante. Não existe, portanto, culpa, arrependimento ou expiação, e sim, tão somente, a libertação. O fiel não precisa assumir um pecado, uma vez que foi vítima de uma opressão ou mesmo de uma possessão.

Demonizar o não compreensível ou o diferente aparece na constituição do ente-fiel como uma libertação do-ente, do si próprio enquanto gestor em autodeterminação. É transferido o mal para outrem, mesmo que tenha de criar este outrem invisível. Desta forma, encontra-se sentido na pertença comunitária, forma-se um exército

com um inimigo a se vencer. O político sabedor disto se coloca como general a lutar contra forças malignas que corrompem o Estado e as Instituições de fomento ideológico. Um bom político tornou-se sinônimo de bom guerreiro espiritual.