Em constante transformação, os comportamentos e práticas sociais estabelecidos nos diferentes ambientes – virtuais ou físicos –, demandam um campo antropológico e social que se entrelaça. Como objeto de estudo, a Internet possui dois modelos de abordagem teóricas: “internet enquanto cultura e internet enquanto artefato tecnológico” (Amaral, Fragoso e Recuero, 2011, p. 40). Enquanto artefato cultural, é procedente da antropologia e dos estudos das comunidades, possuindo “significados compartilhados que são produzidos por uma comunidade de ideias” (Shah apud Amaral, Fragoso e Recuero, 2011, p. 40), oportunizando, assim, a compreensão do objeto como um local híbrido. Desta forma, as fronteiras entre o espaço físico e o virtual interatuam de forma fluída.
As práticas de produção e consumo de conteúdo dos usuários acabam oportunizando um amplo recorte de análise. Nessa abordagem, o papel das audiências pode ser enfatizado e relativizado em seus aspectos positivos e negativos, a partir de uma intrínseca relação com os estudos culturais como propõe Sterne (1999), sob a noção antevista por Raymond Williams (1974), de que as tecnologias são sempre produzidas por um processo histórico e em um sistema social, como uma „articulação ou aparato‟ (Slack e Wise, 2002) (AMARAL, FRAGOSO e RECUERO, 2011, p. 42 – 43).
Essa perspectiva observa a inserção da tecnologia na vida cotidiana (Amaral, Fragoso e Recuero, 2011). Dessa forma, aspectos das comunidades virtuais e físicas aparecem como um elemento cultural, favorecendo a percepção da rede, visto que “o objeto internet não é único, mas sim multifacetado e passível de apropriações” (Amaral, Fragoso e Recuero, 2011, p. 42).
Os modelos de cultura e de artefato cultural são utilizados para fornecerem uma estrutura para pensar sobre dois aspectos do ciberespaço que podem ser observados como campos para um etnógrafo. Cada olhar sobre a internet sugere diferentes abordagens metodológicas e um conjunto distinto de problemas e vantagens (HINE apud AMARAL, FRAGOSO e RECUERO, 2011, p. 41).
A proposta do coletivo de pesquisa espanhol Mediaciones (Universitat Oberta
de Catalunya) tem sua ênfase na abordagem da convergência de mídias, permitindo
assim que os objetos sejam construídos seguindo as práticas e os atores sociais, “levando em conta não apenas a dimensão simbólica, mas também a dimensão material no qual o campo é definido durante a pesquisa” (Amaral, Fragoso e Recuero, 2011, p. 44). Neste contexto, a tecnologia midiática e a Internet configuram-se como geradoras das práticas sociais.
De acordo com essa proposta, cada abordagem teórica e seus diferentes conceitos são apropriados a diferentes objetos/campos e podem ser observados sob diferentes metodologias de pesquisa qualitativa. Os objetos de estudo são desenhados e definidos a partir das práticas midiáticas por eles geradas, levando em consideração as relações „borradas‟ entre online/offline. [...] A abordagem praxeológica proposta pelo grupo de Barcelona funciona como um entrelaço que envolve „representação (narrativas), práticas (agenciamentos) e materialidade (infraestrutura); e que esteja além das dicotomias, entendidas como articulações, „campos‟, metodologias e traduções (AMARAL, FRAGOSO e RECUERO, 2011, p. 43 – 44).
A partir da inserção nas comunidades, o pesquisador entra em contato com o seu objeto de estudo. Para Geertz (2001), o fazer etnográfico configura-se como:
[...] tentar ler (no sentido de construir uma leitura de) um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com sinais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado (GEERTZ, 2001, p. 20).
Popularizado na metade dos anos 1990 por Kozinets, o termo netnografia advém do neologismo (net+ etnografia), tratando de abordagens de pesquisas em comunidades de consumo online. Outras terminologias como “ciberantropologia” também são mapeadas por autores que têm como base conceitos da antropologia ciborgue de Haraway (1991). Desta forma, observa “humanos nos ambientes conectados” (Amaral, 2010, p. 127), com o intuito de “examinar a reconstrução tecnológica do homem e preparar o etnógrafo para lidar com uma categoria mais ampla de „ser humano‟” (idem, 2010, p. 127). O termo “etnografia virtual” foi popularizado por Hine (2000, 2005), considerando as mudanças na comunicação advindas das tecnologias.
A metodologia de uma etnografia é inseparável dos contextos nos quais ela é empregada e é uma abordagem adaptativa que floresce na reflexividade sobre o método. A abordagem etnográfica descrita aqui tem como objetivo fazer justiça à riqueza e complexidade da Internet e também defender a experimentação dentro do gênero como uma resposta a novas situações (HINE apud AMARAL, FRAGOSO e RECUERO, 2011, p. 172).
A definição de Angrosino (2009) refere-se à etnografia como “a arte e a ciência de descrever um grupo humano – suas instituições, seus comportamentos interpessoais, suas produções materiais e suas crenças” (Angrosino, 2009, p. 30). Criam-se novas relações e modos de interação nas comunidades online, configurando-se como processo de comunicação adaptados das relações sociais presenciais e transpostas para o universo online. Para tanto, as diferentes abordagens etnográficas estabelecem-se como referenciais metodológicos nestes campos.
[...] trata-se de uma participação muito peculiar, na medida em que é possível para o/a pesquisador/a tornar-se invisível, ou seja, ver sem ser visto/a, não interferindo em princípio na dinâmica da interação observada, embora deva-se levar em conta a possibilidade do lurker já estar contida na própria enunciação dos/as participantes. É essa participação (mesmo que invisível) no grupo que irá viabilizar a apreensão de aspectos daquela cultura possibilitando a elaboração posterior de uma descrição densa, que demanda uma compreensão detalhada dos significados compartilhados por seus membros e da rede de significação em questão (BRAGA, 2006, p. 4 – 5).
O método etnográfico, desta forma, passa por adaptações quando configurado aos ambientes digitais. Diferentes apropriações terão como aporte diferentes abordagens do método, com maior ou menor flexibilidade e adaptação. Para tanto, a abordagem netnográfica considera as práticas de consumo de mídia, os processos de sociabilidade e os processos comunicacionais que envolvem as representações dos indivíduos inseridos nas comunidades virtuais. A ascensão dessas comunidades, dos aplicativos móveis e aparatos tecnológicos na comunicação ubíqua apresentam ainda uma forma provisória, configurando-se, assim, como um processo ainda em fase de estabelecimento. As formas de apropriação dos meios mudaram com a comunicação ubíqua. Com isso, novas possibilidades metodológicas foram inseridas e ainda constituem um fenômeno embrionário. Os indivíduos passam a utilizar as diferentes ferramentas possibilitadas pela convergência midiática e pelo avanço das tecnologias através dos dispositivos móveis. Dessa forma, a base nunca está desvinculada dos processos comunicativos, sejam eles presenciais ou por interação mediada por computador, na forma online.
O processo de interação social ocorrente no interior dos ambientes proporcionados pela Internet é recente, e parte de estratégias individuais e grupais não herdadas, mas adquiridas por apropriação e adaptação de regras já estabelecidas, próprias de outros contextos relacionais (Braga, 2001). Tais estratégias vão sendo aplicadas caso a caso, atendendo a demandas situacionais, anterior a uma codificação formal explícita ou mesmo tácita, que se consolidará depois da sedimentação de uma cultura da atividade online (BRAGA, 2006, p. 1 – 2).
O enfoque comunicacional observado nas comunidades virtuais e tecnologias móveis onde os fluxos das redes se estabelecem, confere a esta abordagem o contexto e as culturas que delas emergem e nelas se desenvolvem. São conversações, práticas e negociações simbólicas “cuja observação sistemática e a investigação interpretativa nos ajudam a decompor e desvendar padrões de comportamento social e cultural” (Amaral, Fragoso e Recuero, 2011, p. 168). A narrativa dessa abordagem passa por uma multiplicidade de formas textuais, são processos participativos que integram as transformações nas diferentes esferas das
sociedades, em que a Internet tem alterado as relações sociais.
Assim, torna-se pertinente que outras técnicas e métodos sejam aplicados em conjunto com a netnografia, considerando que, conforme argumentam Montardo e Passerino (2006) em estudo sobre blogs, a limitação da netnografia está justamente na identidade e veracidade dos indivíduos na rede. Sendo assim, podem ser aplicadas técnicas como entrevistas, observação de sites, documentos, vídeos, entre outros, que irão possibilitar legitimar e confrontar os dados e as informações destes integrantes das redes. Contudo, a netnografia permite uma maior fluidez entre as conexões, visto que há possibilidades de analisar identidades, as formas de relacionamento, as dinâmicas e interações. Assim como a obtenção dos dados torna-se rápida e menos subjetiva (Kozinets, 2000). A netnografia, dessa forma, possibilita pensar, como propõe Hine (2000), os processos das “culturas da Internet”. Assim são possíveis formas de interpretação quanto à Internet como artefato cultural, ampliando suas perspectivas de dinâmicas interacionais nas redes. Como já exposto, as tecnologias e dispositivos híbridos inserem-se cada vez mais no cotidiano dos indivíduos, ou seja, com este aporte metodológico é possível observar, nesta perspectiva, as multiplicidades da Internet e suas redes de conexão. Considerando esse pressuposto, a amplitude da rede refere-se aos processos de consumo e produção que, conforme salienta Hine (2000), “são dispersos entre múltiplos locais, instituições e indivíduos” (p. 28). Assim essa cultura tão ampla e multifacetada possibilita que outros métodos tornem-se aporte para observações e análises de dinâmicas nas redes de conexão. Portanto, como aporte complementar desta pesquisa, será utilizada a observação participante.