Com o intuito de definir o conceito da natureza e a função das notícias, bem como a influência que esta exerce no comportamento das pessoas, Robert Ezra Park, ao imbricar-se na sociologia, defende a existência de um sucessivo laço entre as atividades do repórter e do sociólogo. As particularidades são definidas no sentido de que os dois profissionais necessitam, para atuar de modo adequado, das práticas sociais inerentes à profissão do conhecimento elaborado. O jornalista necessita de um conhecimento organizado, singular, contextualizado, mas não conceitual. Já para o sociólogo, a “conceptualização do conhecimento” mantém suas bases na natureza sistemática, proposta a públicos com formação característica, especializados.
Park destaca-se entre os membros da Escola de Chicago, onde acompanhou os pensamentos de George Simmel sobre as cidades, o qual examinava-as como um “estado de espírito”. Para a Escola de Chicago a cidade é apresentada “(...) como „laboratório social‟, com seus signos de desorganização, de marginalidade, de aculturação, de assimilação; a cidade como lugar da „mobilidade‟” (Mattelart, 2005, p. 34). Todos os aspectos relacionados à comunidade e os seus indivíduos são ponto de conduta destes estudos, desde esses aspectos sobre a natureza da informação e a diferenciação entre a “propaganda social” ou publicidade municipal, até a “ecologia humana”. Ao aprofundar-se nos estudos das comunidades humanas, as definições de comunidade, suas diferenças e homogeneidade surgem como proposta de estudos das interações sociais. A comunidade é definida a partir de três
elementos básicos, “uma população organizada em um território, em maior ou menor medida nele enraizado, cujos membros vivem numa relação de interdependência mútua de caráter simbiótico” (Mattelart, 2005, p. 34). Sendo inerentes às relações, a luta pelo espaço, o processo inicial de organização na sociedade inicia-se.
O contexto antropológico das cidades refere-se ao individualismo urbano, em que espaço e tempo são transitórios. Assim, a cidade é observada como lugar da mobilidade, com seus interagentes, processos distintos de aculturação e possibilidades de interação social com outras comunidades. Atualmente, o sentido dessa mobilidade reflete-se nas Redes Sociais da Internet (RSIs), com abrangência para um lugar desterritorializado movente, ubíquo e transitório, onde locomover-se tem sentido amplo. Nas RSIs, o indivíduo tem um espaço imenso para essa locomoção sem sair do seu espaço físico, porém alterando suas percepções de mundo, de sociabilidade e cognição.
Os processos comunicativos e de interação dos indivíduos na sociedade estão imbricados na perspectiva da “metodologia etnográfica”, instituída primeiramente no campo das ciências sociais por John Dewey e George Herbert Mead. Com a proposta de estudar estas interações sociais, “encontra-se na base de uma microssociologia que parte das manifestações subjetivas do ator” (Mattelart, 2005, p. 36). Com novos meios de organização nas sociedades, instaurando a “ordem moral” através das “concentrações urbanas e industriais”, indivíduo e sociedade entram em um sistema tensional.
Se existe comunicação é em virtude das diversidades individuais. E se o indivíduo está submetido às forças da homogeneidade ele é capaz de se subtrair a ela. Reencontramos aí a tensão que percorre as pesquisas de Dewey, para quem a comunicação é ao mesmo tempo causa de e remédio para a perda da comunidade social e da democracia política (MATTELART, 2005, p. 36).
A capacidade de experiência do indivíduo produz uma ação singular e única, traduzindo-se na sua trajetória de vida. Estes aspectos das interações sociais aparecem na Escola de Chicago como fatores de estudos das mídias e suas concepções nas relações com a sociedade. Os estudos das interações simbólicas dos atores designam a distinção dos grupos sociais, com base no conceito central
do significado e os objetos sociais, estes são construídos pelos atores envolvidos de forma permanente.
A corrente do interacionismo simbólico desenvolvida pela Escola de Chicago concentra-se na natureza social, com estrutura basilar em que o significado social dos objetos deve-se ao fato de que os indivíduos dão-lhes sentido no decurso de suas interações. Assim, os atores, a partir da interação entre as pessoas, constroem ações individuais ou coletivas, agindo neste contexto social. A vida em sociedade pressupõe a interação social. No entanto, não são apenas estas relações e significados que o indivíduo dá ao mundo que estabelecem as interações sociais, mas as atitudes críticas igualmente formam esta corrente. A posição do interacionismo simbólico, segundo Blumer (1969), é de que “os significados proporcionados pelos elementos ao homem são intrinsecamente fundamentais”.
O uso de significados por um indivíduo em ação implica um processo de interpretação. A subjetividade e/ou a intersubjetividade dos atores são determinantes das ações sociais para esta corrente. Motivações sociais e a liberdade de escolha de cada indivíduo formam-se como ponte de acesso aos significados das interações. O interacionismo simbólico baseia-se, assim, em três premissas. A primeira estabelece que os seres humanos determinem suas ações a partir dos significados que o mundo lhes oferece. A segunda premissa versa no fato de que esses significados são provenientes ou advindos das interações sociais com os outros indivíduos. Já a terceira premissa determina que os significados são “manipulados” pelo processo de interpretação e, modificados por este, empregado nas relações com outros indivíduos.
A partir dessas premissas, há a sistematização do que Blumer (1969) classifica como “conceitos básicos, ou „imagens-raiz‟”. São estas “imagens” que se referem à “natureza dos seguintes problemas: grupos ou sociedades humanas, interação social, o homem como agente, atividade humana e conjunção das linhas de ação”. Essas imagens, em conjunto, representam a forma como o interacionismo simbólico analisa a sociedade e o comportamento humano. Surge o processo de interpretação a que é levado o indivíduo a partir da ação, observação, relacionando, portanto, o significado destas, traçando seu próprio fluxo, à luz desta interpretação. Neste sentido, as ações desenvolvidas a partir das acepções adquiridas elevam esse indivíduo às interações com outros meios sociais.
Portanto, a interação social potencializa os processos de pertencimento numa sociedade em constante construção pelos indivíduos. O comportamento humano é o resultado desse vasto processo de interpretação a que os indivíduos, de forma coletiva ou isolada, conduzem a definição de um objeto, situações, eventos, etc. O interacionismo possibilita compreender o significado desses processos para os indivíduos, não somente nas suas interações sociais, mas também através dos elementos envolvidos nas ações sociais.