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3.3 Esnek Emek Talebinden Anlık Emek Talebine: Saha Araştırması Bulguları

3.3.4 Anlık Emek Arzına Dair

3.3.4.2 Çalışma Şartları

Tanto Aires quanto Luiz Heitor construíram suas respectivas or ganizações do material a partir da subdivisão dos vissungos. No entanto, percebi, a partir das gr avações, que os cantores pouco se preocupam com nomeações, pois tratam o fenômeno musical mais como um cantar contínuo. As classificações for am, possivelmente, construídas a partir do diálogo entre o pesquisador e os intérpretes: o pesquisador argui o cantor sobre o nome e a função do canto, e este procur a prontamente uma r esposta que satisfaça o pesquisador. A ideia de canção com início, meio e fim, advinda da tradição da música da Europa Ocidental, parece distanciar-se dos vissungos. Ainda que os cantos sejam entoados em diferentes funções e contextos, percebemos, pela análise e pelo contato que tive com o Mestre Seu Ivo, que aquilo que mais importa é o cantar. Por esta r azão, parece que podemos distinguir a palavra canto da palavra canção, a fim de demonstrar que o canto, no caso dos vissungos, é uma ação que ocorre no fenômeno poético e em presença de seus participantes. Ao contrário, a canção, como sistema fechado, nem sempr e comporta a ação e o desejo de cantar,

55 apresentando-se com mais estaticidade. Portanto compreendo o canto como uma ação dinâmica do acontecimento e a canção como o resultado deste acontecimento, ou seja, a canção já foi canto, porém o canto é.

No caso dos vissungos, o canto parece estar para além da realização do som, habitando também os silêncios. Nas pausas, há canto, pois ao canto pertence a expectativa, reforçando a ideia de continuidade (CD faixa 1).

A princípio, pode-se pensar que o melhor mecanismo de registro para o canto é a gr avação, visto que, sob forma de notação musical, muitas singularidades desaparecem, tais como dinâmica, agógica, alterações de pitch e de métrica. Isto porque a notação em partitura é uma generalização que decorre de uma série de decisões quanto à melhor forma de grafar o fenômeno sonoro. Entretanto, mesmo na gravação, perde-se a contextualização e a dinâmica da ação dialógica do cantar. Luiz Heitor, por exemplo, registrou os vissungos levando os cantores para o centro de Diamantina: as gravações foram realizadas fora de seu contexto performático. Ainda assim, a ideia de contínuo transpar ece bastante nas gravações, e desaparece quando o pesquisador “pede par a cantar”. Da mesma forma, Ai res, quando pergunta pelo “fundamento”, e registra os cantos sob seu prisma, também r etir a da perfor mance dos vissungos a ação continuada.

Enfim, a classificação sugerida pelos dois pesquisadores não é tão óbvia assim. Por exemplo, num certo momento, quando solicitado por Luiz Heitor (CD faixa 2), o cantor parece entoar pelo menos 4 ideias musicais e temáticas diferentes, dentre elas o “Padre nosso” e o “Pedindo licença pra cantar ”, além de mais duas melodias as quais chamei de "Quimbamba" e “Segunda-feira”. O trabalho de Aires também evidencia essa fragmentação, pois os trechos são bastante curtos quando comparados aos cantos registrados por Luiz Heitor. Ainda que os intérpretes pareçam construir o canto como um contínuo – e não como canções –, proponho, de forma contr aditória, r eorganizar os cantos de Luiz Heitor a partir de uma superfr agmentação. Este procedimento deverá ser utilizado apenas no processo analítico, sem a intenção de subsumir o contínuo a uma fragmentação. Minha intenção não é propor uma r eclassificação de Luiz Heitor ou de Aires, nomeando ou quantificando os vissungos enquanto canções. Tiago Pinto nos auxilia quando diz:

Como em t oda investigação de est r ut ur as, a busca por el ement os musi cais const r uídos e cult ur alment e significant es vai l evar às menor es uni dades cl assificáveis do si st ema, que ser vem de r efer ência par a a per cepção do t odo, o

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“som or ganizado humanament e”. Dent r o da cult ur a musical est es element os menor es estar ão ligados uns aos out r os de maneir a r elat i vament e est ável, est abelecendo assim a or dem musi cal vigent e. Decifr ar a or ganização i nt er na dest es fat or es int er dependent es si gnifica r econhecer a estr ut ur a musical mai s ampla nos seus múlti pl os det al hes.102

A superfragmentação permite, por outro lado, a observação pormenorizada de microestruturas musicais, facilitando a compar ação dos diversos trechos do material de Luiz Heitor entr e si, e a compar ação destes com os trechos tr anscritos por Aires. Vale comentar que tal fragmentação ajudou a pensar , inclusive, a própria noção de contínuo.

O fato de ter em mãos todo o acervo dos vissungos de Luiz Heitor fez com que vários pesquisadores, inter essados neste campo, frequentemente me per guntassem a respeito do número de vissungos contidos na coleção. A minha dificuldade em responder o número exato acabou gerando justamente a ideia de que os vissungos não podem ser quantificados e/ ou classificados tão facilmente. Percebi que não seria possível seguir a orientação de Luiz Heitor, tendo em vista que seus recortes eram consequência das dificuldades técnicas de gr avação e de suas perguntas direcionadas aos cantores, que induziam classificações.103 A partir daí, realizei r epetidas audições e neste processo compr eendi que, ainda que os cantos sejam ininterruptos, algumas ideias musicais são r ecorrentes. Isto sugeriu que a identificação das microestrutur as poderia me levar a uma melhor percepção do funcionamento deste modo de cantar. Parti para a construção da superfr agmentação, que foi realizada com os seguintes critérios: 1) pausas; 2) fórmulas cadenciais; 3) temática do texto, inclusive com o auxílio dos temas já propostos por Aires e 4) ideias musicais semelhantes. Após essa subdivisão, passei par a a etapa de nomeação dos títulos, cujos critérios foram os seguintes:

1) existem momentos pr aticamente falados, mas que possuem gr ande musicalidade, que chamei de Canto/ Fala;

2) outros em que percebe-se um vocativo, uma interjeição bastante melismática, acompanhada de uma palavra que em geral se aproxima de gombê (‘boi’), que chamei de expressão vocativa;

3) há trechos que nomeei por proximidade com o que havia lido em Aires;

4) na maioria dos casos r estantes, procurei fazer uma tr anscrição a partir da minha percepção auditiva, destacando a palavra que mais me chamou a atenção, mesmo

102 PINTO. Som e música: questõs de uma antropologia sonora., p. 11.

57 sem verificar se esta realmente pertencia a alguma língua africana. A r elação som-letra foi aqui priorizada.

5) e houve alguns trechos onde a percepção de uma palavra que pudesse ser utilizada como título foi bastante difícil. Nesse caso nomeei segundo o critério som-letra e acrescentei em seguida um ponto de interrogação (?).

Cada trecho semelhante, seja por tipo de canto ou pela temática, recebeu uma numeração cr escente, com o objetivo de facilitar a compar ação posterior.

58 QUADRO 2

Vissungos: cantores e fragmentos

Intérprete Fonogramas

Manuel dos Santos104 1 A1 Expressão Vocativa 1 2 A1 Padre nosso 1

José Paulino de Assunção e Francisco Paulino105 3 A2 Expressão Vocativa 2 4 A2 Cum licenca 1 5 A2 Canto/ Fala 1 6 A2 Cua con goma ué 7 A2 Expressão Vocativa 3 8 A2 Ai nhanha tapera(?) 1 9 A2 Canto/ Fala 2 10 A2 Tingué canhama 11 A2 Calunga (?) 2 12 A2 Ti puru ê 13 A2 Expressão Vocativa 4 14 A2 Ai nhanha t apera (?) 3 15 A2 O tingué auê

Joaquim Caetano de Almeida106

16 A3 Expressão Vocativa 5 17 A3 Padre nosso 2 18 A3 Quimbamba 1 19 A3 Cum licenca 2 20 A3 Segunda-feira 1 21 A3 Quimbamba 2 22 A3 Segunda-feira 2 23 A3 Injara caburo munhá 24 A3 Cuimba 25 A3 Caburo canta 1 26 A3 Canto/ Fala 3 27 A3 Expressão Vocativa 6 28 A3 Caburo canta 2 29 A3 Mera anguiá 1 30 A4 Expressão Vocativa 7 31 A4 Tico-tico 1 32 A4 Nguenda auê 1 33 A4 Segunda-feira 3 34 A4 Expressão Vocativa 8 35 A4 Aua aua 36 A4 Expressão Vocativa 9 37 A4 Tico-tico 2 38 A4 Vamo mbora minero 1 39 A5 Expressão Vocativa 10

104 Manuel dos Santos er a natural de Pinheiro, município de Diamantina. Tinha 36 anos, era garimpeiro e

branco. In: Rel ação dos Di scos Gr avados no est ado de Minas Gerais, p. 47 .

105 Sobre Francisco Paulino, não há notas na publicação. José Paulino era minerador, br anco, tinha 50

anos, natural de Datas, município de Diamantina. Ibidem, p. 41.

106 Joaquim Caetano de Almeida “era branco, tinha 93 anos, natural de São João da Chapada, município de

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Intérprete Fonogramas

40 A5 Nguenda auê 2 41 A5 Expressão Vocativa 11

42 A5 Caburo canta 3 43 A5 Vamo mbora minero 2 44 A5 Expressão Vocativa 12 45 A5 Cuteca ia pungo (?) 4 46 A5 Mera anguiá 2 47 A5 Expressão Vocativa 13 48 A5 Tico-tico 3 49 A5 Tico-tico 4 50 A6 Dja ganhô 51 A6 Canto/ Fala 4

José Paulino de Assunção e Garcindo Paulino de Assunção.107

52 A7 Expressão Vocativa 14 53 A7 Cum licenca 3 54 A7 Gombera (?) 5 55 A7 Candamburo 56 A7 Canto/ Fala 5 57 A7 Ucumbi uatunda 58 A8 Canto/ Fala 6 59 A8 Turi mina 60 A8 Expressão Vocativa 15 61 A8 Cum licenca 4 62 A8 Canto/ Fala 7 63 A8 Congo ma auê 64 A9 Canto/ Fala 8 65 A9 Tu aiangá 66 A9 O mera iô 67 A10 Querumanha (?) 6

68 A10 Canto/ Fala 9 69 A10 Ei congá 70 A10 Canto/ Fala 10 71 A10 Ongombe damerá 72 A10 Lı́ngua de baranco 73 A10 Expressão Vocativa 16 74 A10 Ai nhanha tapera (?) 7

75 A10 Mera anguiá 3 76 A10 Canto/ Fala 11 77 A10 Viva - cum licença

78 A11 Já virô mar 79 A11 Agua qui mi mato

80 A11 Canto/ Fala 12 81 A11 Pangadjé 82 A11 Oenda puru uê

107 Garcindo Paulino era “Mulato, 16 anos, natural de Milho Verde, município de Diamantina. Tr abalhava

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