Mediante esta breve apresentação de conceitos da cultura erudita e popular, nota-se que predomina a ideia de superioridade da primeira sobre a segunda, procedimento que não será estimulado neste estudo, embasado nas concepções de Chartier (1990), que tem criticado este tipo de abordagem; todavia, existem dificuldades em se analisar o campo da cultura sem procurar acentuar estas diferenças, que têm origem secular; contudo, é possível trabalhar a partir da conceituação da história cultural (Kulturgeschichte), que, de acordo com Burke (1989), já vem sendo praticada na Alemanha desde 1870. Distingue-se por estudar a história da cultura humana, de determinadas nações ou regiões, por meio das possíveis conexões entre os diversos segmentos, e não de forma isolada, como ocorria anteriormente com a literatura, a filosofia e a pintura, etc. “A história cultural, tal como a entendemos, tem por principal objeto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos, uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler” (CHARTIER, 1990, p. 16-17). Examina as produções culturais, analisando-as por meio das diferenças e
similaridades, tendo como maior preocupação o simbólico e suas interpretações. A história cultural valoriza as diferentes formas de manifestação da produção artística, independentemente de como e onde é realizada. Além disso, busca estimular a interação com outros segmentos da arte, procedimento que tem proporcionado grande avanço no campo dos estudos da cultura e, na atualidade, com as novas concepções de arte, por exemplo.
A diferença entre esses acadêmicos e os historiadores especializados em arte ou literatura era que os historiadores culturais estavam particularmente preocupados com as conexões entre as diferentes artes. Eles discutiam essas conexões em termos da relação entre as diferentes artes e o que muitas vezes era chamado, seguindo Hegel e outros filósofos, de “o espírito da época” ou Zeitgeist (BURKE, 2005, p. 17).
A história cultural ampliou o campo de análise ao realizar “o estudo no sentido antropológico, incluindo visões do mundo e mentalidades coletivas” (CHARTIER, 1990, p. 30). A partir deste entendimento, passou-se a observar não somente o objeto em si, mas o seu significado no contexto no qual é examinado. Ideia partilhada por Burke (2005, p. 33), ao afirmar que “estamos a caminho da história cultural de tudo: dos sonhos, da comida, das emoções, da viagem, da memória, dos gestos, do humor, dos exames e assim por diante”.
A amplitude do conjunto de objetos de estudo proporcionou o surgimento de outra denominação: “nova história cultural”. De acordo com Burke (2005), a expressão entrou em uso no final da década de 1980. A nova abordagem ampliou o leque do que seria considerado cultura e também o território de atuação do historiador. Foram incluídos “novos objetos de estudo, como cheiro e ruído, leituras e coleções, espaços e corpos” (ibidem, p. 148). A inclusão de novos elementos, além de enriquecer o campo de estudo, tornou a nova história cultural mais eclética, tanto no plano coletivo quanto no individual.
Uma característica considerada relevante da nova história cultural é a preocupação com a construção da identidade. “Há um interesse cada vez maior em documentos pessoais ou, como dizem os holandeses – documentos-ego” (BURKE, 2005, p. 116). A valorização e o interesse pelo indivíduo comum tem crescido nos últimos anos, no campo da pesquisa acadêmica; é o que se tem observado com o crescente número de trabalhos voltados para as histórias de vida.
de que não existe lugar somente para as inovações, que deve haver lugar para todas as manifestações, mesmo para aquelas consideradas como “atrasadas” por alguns segmentos da sociedade. O importante é que elas tenham o merecido espaço para ser realizadas e apreciadas; devem ser criticadas sim, contudo percebidas e respeitadas dentro da real importância do seu papel no contexto no qual se desenvolvem e como ocorre em outros campos da História.
Como os seus colegas de história política ou econômica, os historiadores culturais têm de praticar a critica das fontes, perguntar por que um dado texto ou uma imagem veio a existir, e se, por exemplo, seu propósito era convencer o público a realizar alguma ação (BURKE, 1989, p. 33).
Esta consciência crítica é importante para que não ocorra que “a aparente inovação possa mascarar a persistência da tradição” (BURKE, 2005, p. 161). Não é raro ser encontrados os que defendem a predominância, e, às vezes, a total supremacia da produção contemporânea, alegando sua superioridade sobre manifestações consideradas tradicionais. Para Duarte (2006, p. 477): “uma produção artística não substitui a que lhe antecedeu por ser melhor, ou sua forma mais avançada, do mesmo modo que uma teoria da hereditariedade ou um teorema matemático.” Ele amplia o seu pensamento sobre o tema, afirmando que: “a presença da verdade na obra de arte não está sujeita à evidência da demonstração, à prova de testes empíricos, nem comprometida com o real” (ibidem, p. 478).
No mundo atual, existe lugar para toda expressão, inclusive para as reencenações, ou seja, a releitura de manifestações, às vezes esquecidas ou consideradas como objeto ou fonte de estudos históricos, pertencente ao passado. O que pode motivar uma produção artística também pode ser referência atemporal; exemplo maior pode ser encontrado nos valores estéticos da Renascença, fundamentados na cultura grega; contudo, por se apresentar desprovida de preconceitos de origem econômica, social, histórica e estética, a nova história cultural se apresenta como a mais adequada para ser praticada como fonte de estudo nos dias de hoje.
No mundo dito globalizado, não se pode admitir discriminação a nenhum tipo de manifestação artística, mesmo porque “a fronteira entre as várias culturas do povo e das elites (e estas tão variadas quanto aquelas) é vaga, e, por isso, a atenção dos estudiosos do assunto deveria concentrar-se na interação e não na divisão entre elas” (BURKE, 1989, p. 20-21). É nessa interação que este estudo se concentra, fundamentado nas concepções da história cultural.
Ao final desta gama de conceituações, ratifica-se o porquê da escolha da história cultural como o principal instrumento de estudo neste trabalho. Entre as suas características, considera-se a principal trazer relevância a temas considerados de menor importância por determinados segmentos da sociedade. Mediante este aspecto, a sua abordagem é inclusiva, pois trata dos diferentes segmentos culturais com o mesmo grau de importância, sem levar em consideração a classe ou a região onde foram desenvolvidos. Vale lembrar que ao longo da sua trajetória a xilogravura tem sido colocada à margem da história oficial das Artes Visuais, independentemente de ser erudita ou popular. Na atualidade, percebe-se que este quadro vem passando por pequenas alterações, principalmente no Ceará.