O verbo ‘intend’ foi o verbo mais estudado do presente projeto, sendo 54 exemplos deste verbo com o complemento verbal registrado no bdHB. Sua construção ‘intend + complemento verbal indefinido no infinitivo’ é argumentavelmente a mais entrincherada de todas as construções estudadas nesta pesquisa, sendo a sétima mais frequente entre as 88 construções em foco. Além das construções com variadas formas verbais, ele é frequentemente usado como adjetivo na forma do particípio passado, como no exemplo 10 a seguir.
EXEMPLO 10: The tool is intended to be an accessible reference source (BNC: 1990).
Também é comumente usado na forma do particípio presente: intending. O substantivo derivado do verbo intend, ‘intention’, muitas vezes, é seguido também por um complemento verbal infinitivo, como por exemplo, “Given an intention to make a business agreement enforceable in the courts” (BNC, 1987). Lembre-se, porém, que há outras construções com o verbo intend e seus derivados como o objeto simples (substantivo) e orações com preposição, como por exemplo, a construção negativa muito comum no exemplo 11 a seguir:
EXEMPLO 11: Williams maintained he has no intention of bowing to pressure from the French government (BNC, 1990).132
O uso muito frequente da construção ‘intend + to-infinitive’ é um constante na língua inglesa desde o século XIV. Proponho que sua própria frequência funciona simultaneamente de um sintoma e catalisador do uso gradativamente em mais contextos, como será elaborado no próximo capítulo: Discussão.
‘Intend’ já possuía complementos desde seu primeiro registro na língua inglesa, ao contrário da maioria dos 44 verbos, que começaram a aceitar complementos verbais apenas a partir da época de Inglês Moderna (começando cerca 1650). ‘Intend’ foi um empréstimo do francês como 2/3 dos verbos estudados. Sua origem é latina, como sinônimo de estender, porém este senso literal de extensão no espaço físico não consta nos primeiros registros da
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língua inglesa. Ao contrário, o verbo estava em uso metafórico no francês Medieval e foi emprestado com o significado do francês (ter um propósito fixo na mente)133 que é o único em vigor no inglês moderno. Enquanto 10 dos 44 verbos estudados mudaram radicalmente seus significados, possibilitando novas construções com complementos verbais, o verbo
‘intend’ tem como seu único significado ‘pretender’ entre os 54 exemplos do bdHB, tal como
pode ser visto nos exemplos de número 12 a 17 a seguir:
EXEMPLO 12: O mais antigo exemplo do verbo ‘intend’ pelo OED
c1385: Al the longe day they tweye Entendedyn to spekyn & to pleye. Chaucer L.G.W. (bdHB 11).
Modernizado: All the long day they two intended to speak and to play. Tradução: Durante todo o longo dia eles pretenderam falar e brincar.
Ainda no Inglês Medieval, o verbo ‘intend’ consta usado com todas as variações de forma do verbo que eram aceitas na época da construção básica ‘intend + complemento verbal infinitivo’. Os exemplos a seguir ilustram a variedade sintática em que se manifesta esta construção ao longo da história:
EXEMPLO 13: ‘intend’ no passado simples (1 de 14 tais exemplos no bdHB)
ano 1413: Flaterers...only entendedn to plese for the time. OED: Pilgr. Sowle (Caxton 1483)
iv xxx 78 (bdHB 756).
Modernizado: Flatterers...only intended to please for a time. Tradução: Bajuladores...apenas pretenderam agradar por um tempo.
EXEMPLO 14: ‘intend’ no presente simples (1 de 24 tais exemplos no bdHB)
ano 1478: Syr, I wold have written you som tidynges but I know none as yit þat be trew, save we intend here, with Godes grace, to begynne shippynge apon Monday next. (bdHB 58). Modernizado: Sir, I would have written you some tidings, but I know none as yet that be true, save we intend here, with God’s grace, to begin shipping upon Monday next.
Tradução: Senhor, eu teria lhe escrito algumas notícias, mas não conheço nenhuma que seja verdadeira, tirando que nós pretendemos aqui, com a graça do Deus, a começar a transportar na segunda-feira próxima.
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EXEMPLO 15: ‘intend’ no presente composto (com auxiliar modal ou auxiliar ‘do’ e verbo não conjugado = 1 de 8 tais exemplos no bdHB).
ano 1582: She could not intend to speake to them, being troubled with so many other suters.
Munday Eng. rom. Life in Harl. Misc. (Malh) II 195. (bdHB 753).
Modernizado: She could not intend to speak to them, being bothered by so many other suitors.
Tradução: Ela não podia ter a intenção de conversar com eles, sendo incomodada por tantos outros pretendentes.
EXEMPLO 16: ‘intend’ no passado composto (com o auxiliar no pretérito, e particípio também no pretérito = 1 de 3 tais exemplos no bdHB).
ano 1460: Now, thouȝ it so had be that this bischop hadde not intendid this to be done for him into this eende, that his greet benefeting whiche he dide to London...Recock, R. (bdHB 27).
Modernizado: Now, though it so had been that this bishop had not intended this to be done for him toward that end, that his great benefiting which he did for London...
Tradução: Agora, embora tenha sido que este bispo não havia pretendido que isto fosse feito para ele com tal propósito, que o grande benefício que ele fez para Londres...
EXEMPLO 17: com o auxiliar ‘be’ em várias formas concordantes seguido pela forma –ing do verbo intend = intending, isto é com aspecto durativo (1 de 6 tais exemplos no bdHB); complementado pelo gerúndio.
ano 1992: This is—this was the, the cloakroom and what we were, what we
were intending doing originally is turn it into an office. BNC SPOKEN data recorded by
PS03W (bdHB 694).
Tradução: Isto é—isto foi o guarda-roupa e o que nós estávamos, o que nós
estávamos pretendendo fazer no início é transformá-la em um gabinete. Dados gravados
para BNC por PS03W.
Ao observar a rica variedade das formas da construção ‘intend + complemento indefinido’ ao longo da sua história, pode-se concluir, em primeiro lugar, que ela não se restringe a categorias sintáticas associadas com referência ao futuro. Portanto, a hipótese de que o complemento verbal infinitivo ‘refere-se a um ato no futuro’ se mostra comprovado somente no sentido limitado de que o ato expresso pelo complemento necessariamente ocorre
após o momento do verbo principal ‘intend’. Além disso, as construções com este verbo não são limitadas aos verbos no indicativo, nem aos verbos na voz passiva, como visto no exemplo 16 acima sobre o bispo para quem foi feito atos que ele não pretendia que fossem feitos. A variação sintática encontrada indica que a melhor definição dessas construções não deve especificar a forma do verbo principal, mas deve incluir o item lexical do verbo específico, e também o tipo de complemento que ele aceite, num esquema semi-abstrato do tipo sugerido por Goldberg (1995) ‘intend + complemento verbal infinitivo’.
A partir de meados do século XX, o verbo ‘intend’ com sua plena e longa história de uso com o complemento infinitivo começou a ser usado com o gerúndio. O último exemplo acima (17) demonstra o uso típico da nova construção ‘intend + gerúndio’. O gráfico abaixo ilustra o surgimento e uso desta construção tal como consta no bdHB.
Figura 8: Uso do verbo ‘intend’ com complementos verbais nos quatro períodos de tempo
Percebe-se acima que a nova construção não foi impedida pelo grande uso da construção existente de ‘intend + infinitivo’. Entretanto, pode-se dizer que seu primeiro uso na língua foi retardado, sendo que a maioria dos outros verbos (40 dos 44 estudados) já vem sendo usada com o gerúndio durante todo o século XIX. A figura (9) abaixo possibilita a
comparação do uso dos dois tipos de complementos com todos os 44 verbos com o uso do verbo ‘intend’.
Figura 9: Uso de todos os 44 verbos estudados com complementos verbais nos quatro períodos
O surgimento do uso de ‘intend’ com o gerúndio representa uma novidade na gramática de inglês, porém não uma novidade isolada. Destaque-se o último fato por sua importância para entender da mudança em questão. O complemento indefinido na forma do gerúndio existia desde século XV, e ganhava mais verbos principais gradativamente, um processo que continua hoje. O fato de ‘intend’ ser entre os novos verbos que aceitam o gerúndio indica dois fatos interessantes: Primeiro, a iconicidade não impediu o uso novo do gerúndio, contradizendo Givón (1993). Segundo que a ocorrência da nova construção não foi impedida pelo entrincheiramento da construção alternativa existente muito bem conhecida com o mesmo significado (do complemento infinitivo).
Os dois fatos proporcionam duas conclusões: de fato não há uma diferença de sentido entre as duas construções com os complementos indefinidos distintos. Ao contrário dos usos com verbos polissêmicos,‘try’ e‘want’ e os outros com significados distintos ‘remember, forget, chance, stop’, as construções com ‘intend’ representam apenas alternativas equivalentes. Na minha perspectiva, a existência das construções paralelas compromete
explicações da diferença entre os dois tipos dos complementos em si, principalmente, a posição defendida pela maioria dos sincronistas de que há uma diferença para todas as construções que incluem complementos indefinidos. Muitos sintaticistas (BOLINGER, 1968; DUFFLEY, 2003, 2006; HUDDLESTON e PULLUM, 2002), e particularmente Wierzbicka (1988) defendem o significado do infinitivo para referir ‘atos futuros, potenciais e não realizados’, e o gerúndio para referir situações opostas. Diferentemente, Egan (2008), propõe significados distintos para algumas construções com complementos indefinidos, enquanto sugere que outros pares das construções (como as usadas com ‘intend’) não expressem algo diferente. Os dados diacrônicos, portanto, apóiam as conclusões de Egan nesse assunto.