Todos os verbos do conjunto original (de 30 verbos) foram estudados. Porém, verbos acrescentados ao longo do estudo foram, em vários casos, retirados até que foi confirmado o conjunto definitivo, sendo uma das retiradas a palavra ‘love’. Razões para incluir os verbos
‘like’ e ‘love’ são vários. Por terem uma alta frequência de uso em construções simples e
cotidianas, o aprendiz de inglês é muito exposto aos usos destes verbos, com os dois tipos de complementos verbais. Eles foram os melhores candidatos para provar a hipótese que há construções com os dois tipos de complementos e sem uma diferença perceptível de sentido. Apesar destas razões, o 'like' pertence ao conjunto final, e o 'love' foi retirado. Eu gostaria de lembrar ao leitor que os corpora do inglês dos dois períodos mais antigos, especificamente, o enorme e abrangente U. Michigan Collection of Middle English Prose and Verse Middle
English necessitava da inserção de cada verbo na busca dos raros exemplos de ‘verbos +
complementos indefinidos’. Infelizmente, o verbo ‘amar’, quando não conjugado em terceira pessoa ou no tempo passado, é homógrafo ao o substantivo ‘amor’. Por esta razão e pelo fato de que ‘love’ sempre foi uma palavra com alta frequência de uso, a entrada do verbo ‘love’ retorna 2.758 exemplos desse corpus de Inglês Medieval. Ao começar a ler e decifrar estas frases, percebi que 100% dos objetos do verbo foram substantivos, ou seja, o sintagma nominal do verbo é quase sempre a pessoa amada. Portanto, o que me levou a abandonar a investigação deste verbo, que hoje é muito usado com complementos verbais dos dois tipos (em proporções iguais e com significados idênticos), foi a remota possibilidade de encontrá-lo com um complemento verbal nos períodos mais antigos. Destaque-se o fato de que o conjunto final dos verbos inclui um sinônimo de ‘love’ que compartilha sua alta frequência e seu estado atual de esvaziamento semântico qual seja: ‘like’, além de quatro outros sinônimos adore,
enjoy, prefer e appreciate, de média e baixa frequência. No que diz respeito à frequência na
língua em uso, as estatísticas que se seguem devem esclarecer a situação.
É importante abordar a questão da frequência, pois esta variável foi estudada buscando-se observar sua provável influência na escolha entre os dois tipos de complementos verbais. Como citado no último parágrafo, um sinônimo de ‘love’ de baixa frequência no meu
conjunto de verbos é ‘adore’, que aparece apenas 157 vezes entre as 100 milhões de palavras do British National Corpus. Em contraste, a palavra de alta frequência de uso ‘like’ é quase mil vezes mais frequente, exatamente 147.872 vezes no corpus (incluindo os substantivos e preposições homógrafos). Isto é, em cada mil palavras, uma é ‘like’, porque ela consta approximadamente 1,5 vezes em cada mil palavras do BNC. Para se ter uma base de comparação, compare estes dados com a palavra de máxima frequência em inglês, que é o artigo definitivo 'the’, que neste corpus aparece 6 vezes a cada 100 palavras (6% de todas as palavras do corpus) ou ainda com palavras muito comuns, como ‘to’, que aparece 2,5 vezes a cada 100 palavras e ‘if’, que aparece 2,3 vezes a cada mil palavras.
Como ‘love’, há outras palavras que, por serem homógrafas, dificultaram a pesquisa. Em alguns casos, tal como foi demonstrado com a palavra ‘promise’, a busca fornece muito mais substantivos do que verbos. Há dois casos em que num primeiro momento, optei por estudá-los, mas abandonei a tentativa, retirando-os do conjunto, devido ao mesmo problema descrito acima para os verbos ‘love’ e ‘promise’ e devido ao fato de terem homógrafos de frequência muito alta: ‘mind’, com o significado de mente, e não de ‘a ser incomodado por algo’; e ‘need’ com o significado ‘necessidade’ e não de ‘necessitar’. Ainda há muitos verbos homógrafos aos substantivos mantidos no conjunto dos verbos, especificamente: chance,
mention, miss, offer, practice (dos EUA, mas não o practise do Reino Unido), recall, regret, risk, start, stop e want.
O conjunto final também inclui um verbo homógrafo ao substantivo antônimo de ‘like’, que é o verbo ‘dislike’, que possui um comportamento totalmente diferente quando comparado aos seus antônimos ‘like’ e ‘adore’, apesar de todos os três verbos possuírem uma baixa frequência. Um outro antônimo de ‘like’, ‘despise’, eventualmente foi retirado do conjunto, após extensivo estudo, que revelou não haver nenhum exemplo dele antes do período do Inglês Moderno. Os demais antônimos: hate, loathe, detest, abhor and abominate não foram incluídos no conjunto dos verbos e são discutidos como uma classe semântica no capítulo de Resultados114.
Logo no início da pesquisa, ao descobrir o artigo de Duffley (2003) sobre o gerúndio e infinitivo como sujeito, vários verbos, chamados por ele ‘verbos positivos e negativos do ato de lembrar’, foram acrescentados à lista: ‘recall’, ‘remember’ e ‘forget’. ‘Recollect’ foi incluído por um curto tempo, devido a seu uso extensivo com complementos verbais por Mark Twain (1867), mas foi retirado por não ser usado por outros autores. ‘Stop’ e ‘cease’
114
estiveram no conjunto original, sugerindo que seria interessante compará-los com begin, start,
commence e continue, à procura de uma classe semântica com comportamento semelhante.
No começo da pesquisa, eu estava particularmente interessada em investigar o verbo ‘regret’ que, pela minha intuição de falante nativa, hoje tem a mesma frequência de uso de ambos os complementos verbais, utilizados com o mesmo sentido, porém em distribuição diferente, sendo assim um excelente exemplo de construções paralelas usando o mesmo verbo e evoluindo com tempo. No entanto, deparei-me com a ausência deste verbo nas obras de Shakespeare. De fato, ‘regret’ aparece com os dois complementos apenas em Inglês Moderno (a partir do ano 1684). A razão deste fato é que embora ele tivesse sua entrada no inglês em 1350 com seu significado atual (arrepender ou lamentar) ‘regret’ começou a substituir o verbo ‘repent’, cognato do português ‘arrepender’, apenas quando ‘repent’ começou a se restringir ao seu uso atual, que é exclusivamente religioso, como, por exemplo, em “I repent my
sins”115 que significa ‘Estou arrependido dos meus pecados.’ Portanto, ‘repent’ foi
acrescentado ao conjunto de verbos e se provou valoroso com um objeto de estudo.
Hesitei em acrescentar o verbo ‘want’ ao conjunto, pelo fato de sua frequência ser muito alta e do verbo ser tão fortemente associado ao complemento verbal infinitivo. Isto pode ser comprovado pelas seguintes estatísticas: o corpus BNC tem 57.850 períodos com o verbo ‘want’, sendo que em 34.548, o verbo é seguido pelo complemento verbal infinitivo e em apenas 221, o verbo é seguido por gerúndio. Além disso, usando a minha intuição falível de falante nativa norte-americana reconheci apenas o sentido de ‘desejar’ para o verbo ‘want’, deixando de considerar a princípio a construção muito antiga e ainda comum com ‘want’, usado pelos ingleses com o significado de ‘falta, ou carecer de’, como no seguinte exemplo dos dados falados e gravados do BNC:
EXEMPLO 9: “...they haven't got parcels they want moving next Monday, they've got parcels that want moving today” (dbHB1115) 116
Além da necessidade de incluir esta segunda construção com ‘want’, li um estudo da aquisição da construção ‘want to + verbo’ por crianças (L1) descrito por Michael Tomasello no seu livro A Usage-Based Theory of Language Acquisition (2002, p. 245-249). Tomasello demonstra pelo estudo de corpus construído em experiências que a partícula ‘to’ do infinitivo
115
Exemplo retirado de http://letrasdemúsicas.clickgratis.com.br/s/still_life/angel.html no dia 26 de março, de 2009.
116
Nossa tradução do Exemplo 9 seria: “Eles não têm encomendas que precisam ser enviadas na próxima segunda-feira, não, elas precisam ser enviadas hoje”.
em inglês vem perdendo seu status como morfema independente, e está atualmente empregado como clítico no final das palavras 'want, ‘have’ e ’got' de tal forma que elas estão sendo realizadas fonologicamente como ‘wanna, hafta, gotta’ respectivamente, com a prosódia de uma só palavra. Esse processo pode ser identificado como uma reanálise da partícula ‘to’, ou então pode ser considerado como um estágio no processo de gramaticalização do novo clítico ‘na/ta’. Não cabe a presente trabalho decidir essa questão, mas esse fato me levou a reconsiderar a importância da palavra 'want' no seu uso altamente frequente com o ‘to + verbo raiz’ (i.e. o infinitivo como complemento verbal). Por esses motivos, acrescentei o verbo ‘want’ ao conjunto. Essa decisão mostrou-se profícua conforme consta no capítulo de Resultados.
Concluindo, é impossível estudar todos os verbos que são complementados por infinitivos. Por outro lado, acredito que o conjunto final de verbos inclui quase todos dos verbos normalmente complementados com o gerúndio, faltando muito poucos, como o ‘need’ acima mencionado. Com o propósito de comparar os dois tipos de construção, eu fiz questão de incluir verbos cujo comportamento contradizem minha intuição de falante nativa, como por exemplo, o verbo ‘intend’, cujo complemento tradicional era o infinitivo e recentemente passou a ser usado também com o complemento gerúndio.
Ao longo do processo de leitura da literatura específica sobre a alternância em questão, foram acrescentados mais três verbos ao conjunto final: adore, manage e resolve. A tabela 1 abaixo lista todos os verbos que compõem o banco de dados utilizado (bdHB), apresentando tanto o número total de ocorrências de cada complemento verbal, quanto o número total de ocorrências com dos dois tipos de complementos verbais para cada verbo. Percebe-se que o número total geral de exemplos com complementos não é igual ao número total de períodos inclusos no banco de dados. Isto é porque o total de períodos no banco de dados inclui exemplos dos 44 verbos com complementos definidos, com sintagmas nominais como objetos, e outras construções altamente frequentes e representativas de uma dada época histórica pelo propósito de comparação com as construções em foco. O próximo capítulo descreve os resultados da presente pesquisa.
Tabela 1: Os 44 verbos estudados em ordem alfabética demonstrando o número associado
dos exemplos constantes no bdHB de frases com complementos infinitivos e gerundivos, e o total dos complementos indefinidos.
Verbo com infinitivo com gerúndio Total de exemplos com complementos
verbais no bdHB admit 12 7 19 adore 3 5 8 advise 17 7 24 allow 13 5 18 appreciate 1 7 8 approve 8 8 16 avoid 3 14 17 begin 37 4 41 cease 29 12 41 chance 19 4 23 commence 10 10 20 consider 8 7 15 continue 19 12 31 decide 10 4 14 deny 9 7 16 dislike 0 9 9 enjoy 4 12 16 forget 26 5 31 imagine 12 7 19 intend 44 11 55 like 38 7 45 manage 16 6 22 mention 2 8 10 miss 11 15 26 offer 24 7 31 permit 23 5 28 practise 9 8 17 prefer 23 9 32 promise 35 3 38 recall 1 9 10 recommend 4 8 12 refuse 40 4 44 regret 5 3 8 remember 24 17 41 repent 1 6 7 resent 2 10 12 resolve 25 1 26 risk 2 10 12 start 14 18 32 stop 16 19 35 suggest 7 12 19 try 18 10 28 understand 13 10 23 want 32 12 44 Total Geral 673 374 1047
4 RESULTADOS
O presente capítulo inclui relatórios das tentativas de análise bem sucedidas e mal sucedidas. Todas as etapas da pesquisa são apresentadas sem preconceito contra hipóteses não comprovadas. Portanto, a primeira parte explica a busca para classes semânticas, a qual não resultou em categorias adequadas. A primeira análise dos dados detalhada a seguir buscou comprovação de propostas das classes semânticas dos verbos estudados à luz dos dados sincrônicos do British National Corpus. Em todos os casos, os dados revelam que não há uma manifestação de comportamento sintático igual entre todos os membros de uma dada classe de verbos. Por esta razão, concluí que, pelo menos no meu objeto de estudo, não existem evidências suficientes para sustentar o princípio básico aceito por muitos linguistas de que palavras com significados semelhantes também demonstram comportamento sintático semelhante. Ao contrário, percebi que o comportamento será muito melhor explicado em termos diacrônicos de uma mudança sintática em curso do que em termos semânticos e sincrônicos.