4. Bulgular
4.1. Zihin Yetersizliği Olan Bireylerin Sayı Hissini Geliştirmede Doğrudan
João Fernandes apercebeu-se de que em Portugal a Censura era mais rigorosa do que em Angola quando a Not ícia lançou a edição metropolitana. As matrizes da revista em película que a TAP transportava para Lisboa eram alvo de uma segunda dose de censura antes de serem impressas. “ Em Portugal, a censura cortava textos que
em Angola eram publicados” . Edite Soeiro, responsável pela delegação de Lisboa da
Not ícia, sabia que “ lá [na Província] não saiam coisas sobre a Guerra do Vietname” e
que “ cá [na M etrópole] não saiam coisas sobre os estudantes71” . Rodrigues Vaz, citado
por José Filipe Pinto (2011:390), concorda com o facto de em Angola haver mais liberdade: “ a PIDE em Angola era mais tolerante, em relação à etnia branca, que na M etrópole e até mostrava alguma ‘consideração’ por alguns jornalistas” .
O jornalista João Fernandes considera ainda que na M etrópole se aceitava o lápis azul “ como uma Bíblia” e que, contrariamente, na Província, as decisões dos
censores eram alvo de reclamações72. “ Havia diálogo entre a redacção e o censor73” .
Contrariamente, Fernando Farinha74 assume que “ a certa altura, a Censura desistiu de
nós. Os censores ficaram convencidos de que éramos um caso perdido, que já não tínhamos emenda. Nós não levávamos nada a sério e a Censura também não nos
levava a sério” . Já em Portugal, diz Leston Bandeira75, “ as pessoas tinham muito
medo”76. No entanto, M ário Ventura mostra-nos que, na M etrópole, havia excepções:
“ (…) o vespertino República não se conformava, não evitava incómodos, procurava sempre dar essas notícias [greves], mandava-as à censura sabendo que haveria cortes, protestava contra estes, refazia a notícia em novos moldes, voltava a envia-la à censura e assim, se não sempre pelo menos muitas vezes, acabava por publicar
qualquer coisa77” . No Diário Popular, em 1962, o secretário de redacção Francisco
Pinto Balsemão, dava orientações aos jornalistas também no mesmo sentido: “ Escreva
em liberdade, a censura depois se quiser cortar, que corte78” . Em 1973, já no
semanário Expresso, Balsemão mostra alguma saturação em relação à censura, ao
71 Edite Soeiro entrevistada por Isabel Ventura in A emergência das Mulheres repórteres nas décadas de
60 e 70, Dissertação de Mestrado em Estudos sobre as Mulheres, Universidade Aberta, Lisboa, 2007, p. 89.
72 Segundo António Gonçalves, “nós podíamos reclamar porque, como se tratava de um semanário,
tínhamos algum tempo”.
73 Para Arthur Ligne, a relação entre censor e jornalista “funcionava mais ou menos como a Assembleia
da República nos tempos de hoje: nos plenários todos ralham com todos e dizem cobras e lagartos uns dos outros, mas ao almoço juntam-se em amena cavaqueira”.
74 Ver apêndice E. 75 Ver apêndice H.
76 Quando regressou a Portugal, Leston Bandeira ainda encontrou esse medo e “mentes fechadas” com
dificuldades em “recorrer à imaginação”. “Em Angola não existia a palavra impossível. Aprendi o significado cá”.
77 Mário Ventura citado por Cândido de Azevedo in A Censura de Salazar e Marcello Caetano, op. cit., p.
367.
78 Francisco Pinto Balsemão citado Carla Baptista e Fernando Correia in Anos 60: um período de viragem
admitir, anos mais tarde, aceitar as imposições do lápis azul: “ Os censores propriamente ditos, quase todos militares na reforma, eram entidades misteriosas mas desinteressantes. (…) cedo aprendemos que não valia a pena discut ir as decisões, porque não dispunham de poder nem de vontade para as alterar. A eles se aplicava, em pleno, a velha máxima praticada por todos os que detêm a possibilidade de
impedir a liberdade de expressão: ‘Na dúvida, corta.’79” . Não ter em atenção os
constrangimentos da censura enervava Acúrcio Pereira, chefe de redacção d’ O Século. Avelino Rodrigues lembra-se de o ouvir dizer “ Não me lixem, já sabem que isto não
passa, estamos a perder tempo80” . O mesmo acontecia no Diário Popular: “ aquilo que
normalmente era cortado pela censura, no Diário Popular, era cortado pelo chefe de redacção, por razões políticas. Quando os meus t extos chegavam ao censor já iam tão
retalhados que já havia nada que contar81” .
Para Leston Bandeira, este comportamento algemado às imposições da Censura tornou os jornais da M etrópole, que também eram lidos em Angola, “ desinteressantes” . “ Roby Amorim, ex-jornalista do Diário Ilust rado e d’ O Século, constata que “ os jornais tinham entrado num rame rame onde não havia criatividade, ninguém estava disposto a tentar fazer o que quer que fosse de novo. Não era preciso
penar, era tratar o dia-a-dia normal, sem qualquer interesse82” . Se para este jornalista
da M etrópole uma das vantagens da Censura era o facto de não ser “ necessário confirmar as notícias” – “ Se deixasse passar, a notícia estava confirmada. Não havia hipótese das empresas serem processadas porque a censura tinha achado que estava
muito bem83” -, para Adulcino Silva, que conheceu a realidade da Província, “ uma das
coisas boas da censura era obrigar-nos a puxar pela cabeça para dizermos o que queríamos sem cortes” . Para Edite Soeiro, que conheceu as duas realidades (M etrópole e Província), foi em Portugal, enquanto jornalista da Not ícia, que viveu “ um período de grande liberdade” , uma vez que podia escolher “ os temas sobre os
quais sentia ter algo a dizer84” . Quando a censura limitava a liberdade da jornalista,
79 José Pedro Castanheira, O que a Censura Cortou (Lisboa: Expresso, 2009), p. 9. 80 Revista Media & Jornalismo, op. cit., p. 31.
81 Testemunho de Alice Vieira sobre a censura interna, retirado da Dissertação de Mestrado de Isabel
Ventura, op. cit., p. 86.
82 Revista Media & Jornalismo, op. cit., p. 28. 83 Idem.
Edite Soeiro não cruzava os braços: “ nunca houve uma única peça que tivesse sido
cortada, da qual eu não fosse lá reclamar85” .