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2. Kavramsal Çerçeve

3.2. Katılımcılar

A proibição do consumo de droga tem origens “racistas e xenófobas" (Poiares, 2002, p. 31). Este consumo começou a ser visto como um problema global quando os asiáticos foram para os EUA construir os caminhos de ferro e levaram com eles o hábito do ópio no início do século XX. Em 1909, com a Conferência de Xangai, dá-se o ponto de partida para a criminalização das drogas (Poiares, 2002).

Quase trinta anos depois, em 1934, a American Psychiatric Association inclui pela primeira vez a toxicodependência na lista de doenças mentais e em 1971 na Convenção sobre as substâncias psicotrópicas de Viena começam a discutir-se modos de tratamento e reinserção dos consumidores (Poiares, 2002).

Em Portugal, o fenómeno da droga tornou-se um problema social a partir do período do pós-25 de Abril.

Foi com o regresso das populações das ex-colónias que se começou a registar um aumento do consumo, especialmente nas camadas mais jovens. Apesar de não haver nesta altura ainda quaisquer sinais de danos visíveis na saúde e gestão do quotidiano (condições prévias para a construção do fenómeno de droga como problema social), com estes primeiros sinais de alerta, criaram-se os primeiros dispositivos institucionais e respostas burocrático-repressivas (Quintas, 2000).

O Estado tinha de atuar e tinha três maneiras de o fazer: ou optava pelo caminho liberal de redução dos riscos do consumo; ou por medidas preventivas, através da educação e da informação; ou através de medidas repressivas, com uma política de criminalização.

Com o aparecimento do vírus da SIDA nos anos 90 e a inerente preocupação com a saúde pública, os media tornaram a discussão em torno da atuação do Estado face ao consumo de droga, coletiva e urgente. Através de debates, movimentos antiproibicionistas e tomadas de posição por vários políticos influentes, como Almeida Santos, Eurico Figueiredo, Paulo Mendo ou Jorge Sampaio, o assunto nunca deixou de ser pertinente.

Diz Quintas (2000, p. 32): “O consumo privado de drogas inscreve-se de forma inequívoca na cena pública” devido às “crenças socialmente difundidas em relação às drogas [que] se inserem no seio das determinações sociais, do que se convencionou chamar «o problema das drogas»” (Quintas, 2000, p. 30), dando por isso azo a muita discussão e debate.

A verdade é que o tema da droga e dos problemas a ela associados são temas polémicos, não só pela grande visibilidade política e social, como pelos fenómenos associados, pelos riscos e custos para a saúde pública, ou pela criminalidade que por vezes o acompanha.

E um dos primeiros argumentos a ter em conta é o de que o consumo de droga, especialmente quando é excessivo, resultando em toxicodependência, não deve ser tratado sob uma perspetiva jurídica (Poiares, 2002).

Poiares considera que sancionar os consumidores, “funciona como factor acrescido de perturbação” (2002, p. 29) e que o proibicionismo leva à estigmatização social e jurídica, o que muitas vezes acaba por causar mais danos para o consumidor do que o ato de consumir por si só.

No entanto, a lei nº 30/2000 merece o elogio de Poiares por não deixar “o consumo de drogas num plano de indiferença jurídica, que poderia ser entendido como ruptura com o convencionalismo internacional a que Portugal está vinculado” (2002, p. 33). Para além disso, o ato do consumo passa a merecer censura social mas não revê dignidade penal, respeitando o princípio da intervenção mínima do Direito Penal.

Mesmo assim, o autor refere algumas falhas à nova legislação que na sua opinião deveria prever formação em Psicologia ou Medicina para o pessoal técnico das CDTs, e mostra-se insatisfeito com a quantificação das doses permitidas, pois os indivíduos e os seus hábitos são diferentes uns dos outros e a quantidade necessária para um, não é para outro (2002).

De facto, após a aprovação do novo regime em Portugal, à exceção de alguns políticos de extrema-direita, muito poucas fações políticas pediram uma revisão da lei. E apesar de haver a perceção global de que há mudanças burocráticas que precisam de

ser feitas para aumentar a eficiência deste enquadramento legal, não houve nenhum debate sério sobre voltar a criminalizar o consumo, um consenso político pouco surpreendente, tendo em conta os dados empíricos registados, como alega Greenwald (2009).

Um dos argumentos mais populares entre investigadores e politólogos contra a descriminalização e a legalização do consumo de droga é o de que, sem um regime repressivo e proibicionista, armado de penas criminais, o consumo aumentaria, levando a uma “epidemia de drogas ilícitas comparável aos níveis de consumo de álcool e tabaco” (Jelsma, 2008, p. 17). Contudo, a maioria destes argumentos é baseada em especulação e não em dados concretos sobre os efeitos efetivos desta política (Hughes & Stevens, 2010). Tanto é assim que o modelo repressivo não fez parar a produção, consumo, nem venda, de substâncias, resultando apenas numa crise prisional em vários países, como nos Estados Unidos da América, com prisões sobrelotadas e violações dos direitos humanos (Jelsma, 2008). Já em 1986, Ramos escrevera que ”o Direito penal demonstrou a sua impotência para lutar contra a droga, até ao extremo de ter sido um factor muito importante na expansão da mesma, ao convertê-la em bem escasso por ser um género proibido” (p. 293).

Outro argumento utilizado pelos críticos da descriminalização, referia-se ao perigo de que com a descriminalização Lisboa se transformasse num destino de “turismo de droga” (Greenwald, 2009, Trigueiros, 2010), tornando a cidade mais insegura e até perigosa.

Com a aprovação da lei, chegaram os primeiros resultados e a controvérsia regressou, pois nos primeiros anos do novo regime foi consensual que teria havido um aumento moderado do consumo de drogas entre a população adulta, particularmente de canábis. A controvérsia voltou a colocar os apoiantes da lei nº 30/2000 contra os que apregoavam uma política proibicionista, questionando se o aumento registado seria real, se seria significativo e preocupante e sequer se se podia atribuir à nova reforma. Os críticos argumentavam que a descriminalização levara a uma perceção de aceitabilidade do consumo de drogas ilícitas, resultando num aumento do consumo. Já os apoiantes afirmavam que estes aumentos são muitas vezes falsos e podiam resultar de um aumento do registo devido à redução do estigma anteriormente associado ao

consumo de droga, ou refletir uma tendência regional ou internacional no consumo e por isso não poderem ser atribuídos especificamente à reforma portuguesa (Hughes & Stevens, 2010)40.

Já depois do período de implementação da lei, começou a registar-se um maior número de consumidores em tratamento, uma consequência do novo regime, visto como alguns dos seus críticos como uma prova tangível de que o problema tinha piorado (Greenwald, 2009).

E há ainda outros fatores a ter em conta para além dos números referentes ao consumo e problemas a ele associados, como a estigmatização do consumidor de droga. Ambos Poiares (2002) e Greenwald (2009) sugeriram a descriminalização como forma de evitar e solucionar o estigma.

Poiares (2002, p. 29) afirma que seria “em nome das conveniências políticas” que os consumidores eram vistos como delinquentes, mas que o novo regime jurídico mudou a sua imagem de delinquente ou doente, para sujeito com estilo de vida pouco saudável e que carece de apoio psicossocial. Para além disso, antes da descriminalização os consumidores tinham medo de serem punidos, o que fazia com que evitassem procurar tratamento, levando que o consumo e as doenças relacionadas fossem vistos como problemas incontroláveis.

É conveniente notar ainda que a guerra contra as drogas e todo o aparato policial, terapêutico e preventivo implantou a droga como problema social de forma definitiva, fazendo dos consumidores e traficantes de droga “fonte de todos os males sociais” (Quintas, 2000, p. 32). O autor diz ainda que a mediatização do problema e dos acontecimentos relacionados ajudaram na venda de jornais e nos números das audiências televisivas (Quintas, 2000).

Por último, pode argumentar-se que foi o pragmatismo, apoiado no conhecimento científico, que guiou a decisão do Governo de aprovar o novo regime de descriminalização, pois Portugal, devido à sua localização geográfica e ligações a países e regiões produtoras dessas substâncias como a América do Sul, África do Norte e

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Passados alguns anos desde a aprovação da lei, Hughes e Stevens argumentam que Portugal fez bem em mantê-la apesar das dificuldades de implementação e dos resultados das avaliações dos primeiros anos da reforma (2007).

Oeste, irá sempre ter um problema de droga, irá sempre ser um sítio ideal de entrada de droga para a Europa. Como diz Jelsma (2008, p. 5) “não vai existir mundo sem drogas”, por isso mais vale optar por uma política de redução de danos.