B- Göçler
II- ZİRAAT
A Sociedade do Folclore na Inglaterra foi fundada em Londres no ano de 1878 e determinou como sendo seu objeto de estudo as narrativas tradicionais, os costumes tradicionais, os sistemas populares de crenças e superstições e formas populares de linguagem. Mas em 1807 já se havia fundado na França a Sociedade dos Antiquários. A Sociedade do Folclore, na verdade, era um marco para um movimento que já estava acontecendo no início do século XIX e deixa profundos vestígios no modo de pensar a cultura popular26.
Quase oitenta anos depois foi publicada a Carta do Folclore Brasileiro, resultado do I Congresso de Folclore Brasileiro realizado em 1951, no qual o estudo do folclore foi reconhecido como integrante das ciências antropológicas e culturais classificando os fatos folclóricos a partir de sua antiguidade, persistência, oralidade e anonimato.
O estudo do folclore na Inglaterra sofreu forte influência do positivismo nascente na Europa. O fato é que, apesar de sempre contar com a contribuição de pesquisadores que atuaram fora da academia, o folclore muito cedo foi tomado como objeto de preocupação científica, na tentativa de sistematizá-lo como modo de conhecimento da cultura de determinados grupos sociais.
Desde o movimento marcadamente inglês, influenciado pelo evolucionismo e o positivismo, o folclore passou a ser reconhecido pelas dimensões que estão associadas à conservação, defesa e manutenção dos padrões culturais das populações camponesas e das práticas cotidianas dos pequenos grupos tradicionais que estariam à margem do progresso. Mais do que uma crítica à idéia de progresso, os estudos do folclore devem ser caracterizados pela busca dos costumes em vias de extinção. Nesse sentido, seria necessário
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aos pesquisadores coletarem um grande número de dados (objetos, música, contos, provérbios) que estariam fadados ao desaparecimento. Dentro dessa perspectiva usa-se muitas vezes o termo “sobrevivência” 27, como fragmentos de costumes e hábitos de uma tradição que teriam sobrevivido ao tempo28. Todavia, descartaremos a possibilidade de considerar as práticas culturais populares como sobrevivências, resquícios do passado, por tornar inviável seu enfoque como realidade social atual.
Renato Ortiz29 ressalta que desde a herança folclorista o campo foi o local privilegiado do folclore. Ayala e Ayala30 disseram que isto se deu devido à crença de que os homens do campo seriam conservadores e tradicionais. Essa questão associada à noção de cultura popular caracteriza as formas de saber do povo como rústicas e ingênuas. Somente com o Romantismo31 que se tomou uma preocupação maior com os costumes da vida popular e seus aspectos subjetivos. Até então, grande parte da literatura folclórica fora tratada por sacerdotes e posteriormente, por pensadores positivistas que a via como crendices e superstições. Somente na virada do século XVIII para o XIX, que o filósofo alemão Herder privilegia o relativismo histórico e as tradições específicas do povo alemão, que representariam, posteriormente, o valor particular deste povo.
Entre os intelectuais brasileiros a adoção do folclore como campo de estudo veio concomitante à necessidade de construção de uma identidade nacional. Fato este coligado à implementação das ciências sociais na universidade e a vontade de fazer frente à exploração colonial. É como se tivéssemos amalgamado o modelo cientificista-racionalista inglês, e o modelo artístico e cultural do romantismo alemão. Basta lembrarmos da idealização do
27
Influência do evolucionismo de Tylor.
28
“Estratégias de sobrevivência” é também uma expressão usada para se referir aos hábitos daqueles que enfrentam adversidades e por isso, teriam o hábito de reinventar sua vida a cada dia.
29
. Op. Cit.
30
AYALA, Maria Ignez Novais & AYALA. Marcos. Cultura Popular no Brasil. Perspectiva de Análise. São Paulo: Ática, 1987.
31
O pós-modernismo é considerado um movimento cultural da pós-modernidade, e o modernismo foi considerado uma reação artística à era da modernidade, assim também o Romantismo foi tido como uma resposta ao pensamento racionalista do Iluminismo. É o movimento Romântico Alemão que pela primeira vez faz uso do termo folclore no sentido de “cultura popular”, reapropriando-se de um dado científico e cultural para apresentar uma leitura mais mística e poética das práticas artísticas e culturais do povo.
Cancioneiro Popular por José de Alencar de um lado, e sua conseqüente problematização com Sílvio Romero, numa perspectiva mais cientificista. Ou ainda, podemos lembrar das farpas trocadas entre os folcloristas e Florestan Fernandes32 sobre os métodos adequados da pesquisa folclórica. De todo modo, é o folclore quem lança as bases de um terreno complexo de investigação científica e de cunho etnográfico, que viria a assumir posteriormente o caráter de cultura popular.
Usualmente, o termo folclore tem sido aplicado entre nós com sentido pejorativo, folclórico é aquilo que é anacrônico, cômico, pitoresco. Para muitos de nós, o folclore só existiria, por exemplo, nas cidades de interior. Não é à toa que ainda persiste a idéia de um folclore muito ligado ao interior do Nordeste, do Sudeste e do Rio Grande do Sul, zonas de produção agrária. Mas de modo geral percebemos que o folclore em sua forma mais arraigada está próximo da tradição. No sentido de tradição, o folclore preocupa-se em preservar as práticas culturais desaparecidas, lamentando pelo abandono de determinados elementos do passado.
A tradição compreendida pelo folclore é aquela que busca desvendar a gênese da cultura de populações rurais, e que faz jus à permanência e a repetição dos elementos da tradição, entendida como dado comprobatório da originalidade dos fatos culturais. Assim, a tradição seria legitimadora do folclore e o folclore o reduto da cultura popular. A apreensão do folclore como tradição torna: “o popular (...) resíduo elogiado: depósito da criatividade camponesa, da suposta transparência da comunicação cara a cara, da profundidade que se perderia com as mudanças ‘exteriores’ da modernidade” 33.
Até hoje, costuma-se definir a autenticidade do folclore a partir do nível de fidelidade que se mantém ao passado rural. Exemplo disso é a discussão calorosa entre os artistas e intelectuais regionalistas da descaracterização do repente pela admissão de temas
32
VILHENA, Luis Rodolfo. Projeto e Missão. O Movimento Folclórico Brasileiro, 1947-1964. Rio de Janeiro: Funarte/ Fundação Getulio Vargas. 1997.
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televisivos, notícias que são manchetes nos jornais ou até mesmo assuntos de novela. Esses versos além de prender o público derivam da necessidade de o poeta demonstrar seu conhecimento da atualidade. Porém, nota-se a negligência com os processos atuais e agentes sociais envolvidos e a sobrevalorização de antigas formas. Além disso, Canclini argumenta que:
Mesmo nas zonas rurais, o folclore não tem hoje o caráter fechado e estável do universo arcaico, pois se desenvolvem em meio às relações versáteis que as tradições tecem com a vida urbana, com as migrações, e as opções temáticas oferecidas (...) pelos meios eletrônicos (...)34.
O problema é exatamente quando folclore e tradição são tomados de modo conservador. A modernização do país iniciada nos anos 30 e intensificada nos anos 50, fez crescer um temor conservador de que o folclore iria desaparecer e junto com ele a memória nacional. Esse pensamento é conseqüência de uma postura que vê tudo que se relaciona com a modernidade ameaçando o folclore: “Um dos elementos caracterizadores do folclore, no entender de muitos estudiosos, é a tradição, isto é, a exigência de que um fato, para ser folclórico, deva ter sua existência comprovada há longo tempo” 35
Se pensarmos no sentido de tradição empregada à alta cultura, ou arte erudita, veremos que tradição diz respeito à relação de uma obra artística com outras de tendências semelhantes ou diferentes, que lhe antecederam ou que lhes são contemporâneas. Diante desta denominação, o sentido de tradição folclórica assume um caráter arcaico e isolador. Para isso já havia alertado Renato Ortiz: Poucas vezes pensamos como tradicional um conjunto de instituições e de valores que, mesmo sendo produtos de uma história recente, se impõem a nós como uma moderna tradição, um modo de ser36. Ortiz está falando da tradição enquanto norma e por isso, está falando de um sentido de tradição que é facilmente aplicado ao contexto racional da modernidade, mas abnegado à antigas culturas. E acrescenta que no Brasil
34 Ibdem, Idem, p. 218 35
ORTIZ, s/d. p.26
36
estamos acostumados a pensar que o novo é o moderno e o antigo é tradição, sem percebermos que o moderno também pode ser uma tradição37:
Habitualmente, nós a consideramos [ a tradição] como algo do passado, um conjunto de práticas preservadas na memória coletiva da sociedade. Tradição se associa a folclore, patrimônio, pretérito. Poucas vezes nos ocorre pensar o tradicional como um conjunto de instituições e valores, oriundos de uma história recente38.
Desse modo, o autor nos abre caminho para entendermos a tradição enquanto um conjunto específico de idéias, com elementos e características em comum, que o faz estabelecer ligação ou diferenciação com outros conjuntos de idéias. Semelhante ao que já havia indicado Florestan Fernandes no que diz respeito ao folclore subjetivo e Elias Xidhie com a aproximação entre folclore e cultura popular.
Florestan Fernandes inclui no folclore o tema da subjetividade a partir das canções, dos conhecimentos, das crenças como elementos que permitiriam investigar os alicerces intelectuais que orientam o comportamento social-humano. Neste caso o folclore envolveria os elementos materiais e não-materiais. Já Xidhie respeita que alguns aspectos do folclore podem desaparecer, enquanto outros podem ser reelaborados a partir das mudanças dos aspectos da vida. Ambas as perspectivas nos concedem a continuidade que necessitamos para desenvolvermos o tema.
Florestan Fernandes pensa as tradições como “(...) elaboração formal dos temas folclóricos e às implicações literárias dos padrões práticos, estéticos ou filosóficos, inerentes à produção cultural de cunho folclórico (...)39”. Xidhie acredita que a tradição e os fatos folclóricos estão sujeitos a adaptações e transformações que garantem “(...)uma reaglutinação de elementos, antes difusos, em determinadas manifestações culturais, que passam a se configurar como formas de resistência à imposição de padrões culturais
37
Anthony Giddens é também um autor que nos oferece uma boa imagem da modernidade enquanto tradição. GIDDENS, Anthony. As Conseqüências da Modernidade. São Paulo: Ed. Da Unesp, 1991.
38
ORTIZ, Renato. Mundialização e Cultura .2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.p.19.
39
dominantes40”. Neste caso, os artistas que atuam como mediadores simbólicos estariam inseridos numa grande tradição literária e cultural, na qual os elementos do folclore estão sendo constantemente reatulizados, visto que acompanham as próprias transformações culturais.
Entendemos que o folclore fornece a base através da qual a cultura popular é reconstituída a partir da tradição contextual41. Dito de outro modo, o folclore serve como substrato através do qual o popular é visto como tradição e cultura. Mas não queremos com isso subtrair a relação entre folclore e cultura de massa, pois acreditamos que as formas artesanais de comunicação das culturas autóctones e da tradição oral se atualizam frente à reorganização massiva da cultura. Diante dos textos literários que serão posteriormente analisados, constataremos, por exemplo, como a forma tradicional-popular da narrativa oral oferece subsídios para alimentar o mercado simbólico da comunicação de massa.
Numa perspectiva inversa, nota-se também que a música folclórica, o artesanato, a poesia, as danças dramáticas, têm atraído atualmente grandes massas de moradores urbanos, de migrantes indígenas e camponeses, bem como artistas, cientistas, estudantes, jornalistas, movidos por destacados movimentos realizados por feiras culturais, exposições de artesanato, festas populares, festivais de música, dança e poesia. Ainda aí, é possível considerar a parcela de contribuição e divulgação dos meios massivos para a realimentação eufórica como estes fenômenos têm sido experimentados. Logo, gostaríamos de comentar a constatação de que mesmo o impulso modernizador e as tendências massificantes não conseguiram suprimir o folclore e as culturas tradicionais. Muitos estudos etnográficos têm revelado como as culturas tradicionais têm-se mantido apesar das transformações. Em todo caso, não podemos deixar de apontar que a temática folclórica veiculada pela mídia, em
40
XIDHIE, Oswaldo Elias. Narrativas Pias Populares. São Paulo, Instituto de Estudos Brasileiros/USP, 1967, p.40.
41 Tradição contextual é um termo cunhado por Giddens (2002) para explicar os fenômenos da tradição que
tem por base o ritual, a continuidade através das gerações, o respeito às iniciações e às autoridades, bem como às normas estabelecidas de comportamento.
grande parte, apresenta-se pela caracterização estereotipada de determinados traços culturais e pelo acentuado sotaque regional.
Portanto, o problema da manutenção do folclore não deve ser questionado em sua relação com tradições inalteradas. E sim, como as culturas tradicionais estão se transformando em sua interação com as forças da modernidade (e pós-modernidade) e as formas atuais de comunicação eletrônica e multimídia.
Consideramos ainda que o folclore não tenha o caráter cultural fechado e coerente que se imaginou na antropologia etnográfica e na sociologia dos pequenos grupos. Está claro que o folclore tem um pé na continuidade de determinadas práticas e produções simbólicas de poetas populares, de artesão, de grupos de dança como maracatu e reisado. Mas ele também se expande a partir das relações da tradição com a vida urbana, os processos de migração e a comunicação de massa. Nesse sentido, não existe um folclore exclusivo de determinadas regiões, classes ou grupos minoritários. Alguns comunicólogos já identificam o folclore como processos comunicacionais e comportamento folk.
Apesar do caráter contraditório com que a cultura de mídia estimula o folclore, temos que admitir que as novas tendências massivas não obnubilaram a força das culturas tradicionais. No meio termo entre folclore e cultura de massa, encontramos aí a intermediação da cultura popular.