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O olhar sobre sexualidade mostrou-se constante entre os pesquisadores pioneiros da antropologia e continua até os dias atuais. A esta disciplina, tem-se incumbida a tarefa de pesquisar empiricamente e interpretar teoricamente a diversidade e a complexidade que abarca esta melindrosa especificidade do indivíduo, respondendo assim, pelas descrições detalhadas de valores e práticas sexuais de determinados grupos em nossa sociedade (HEILBORN, 1999).

Para Carole Vance (1995), os antropólogos gozam da reputação de serem investigadores destemidos dos costumes e práticas sexuais, ou seja, enquanto o meio acadêmico ainda permanecia em silêncio quanto às questões da sexualidade, os estudos antropológicos avançavam e passavam a olhar tais questões como objeto de investigação. O conceito de sexualidade só foi possível ser construído no momento em que, na idade moderna, o foco na individualidade se estruturou como constituinte da organização da sociedade capitalista, buscando saberes em torno da sexualidade e da identidade dos indivíduos. (FOUCAULT, 1984).

A separação entre sexualidade e procriação a partir do surgimento dos métodos contraceptivos – passando assim, a fecundidade a ser projeto pessoal –, o aparecimento de reflexões advindas da interseção entre a academia e os movimentos sociais formados pela sociedade civil e engendrados principalmente, pela pressão exercida dos movimentos feministas e gays, bem como o surgimento da AIDS na década de 1980, deram, segundo Heilborn (1999), um novo impulso às investigações sobre os sistemas de práticas e representações sociais ligados à sexualidade, abrindo assim, um novo campo de investigação para os antropólogos.

Neste momento, começa a se desenvolver entre as produções de cunho antropológico, um viés construtivista e menos essencialista sobre a sexualidade, que foi fortemente marcado entre os trabalhos produzidos entre 1920 e 1990 (LOYOLA, 1998) e que traziam principalmente, como objeto de estudo, a sexualidade reprodutiva, deixando pra segundo plano as relações sexuais sem intenção reprodutiva, bem como o erotismo. Sobre isto, Vance (1995) metaforicamente mostra que, nas primeiras “aventuras” antropológicas, a pesquisa da sexualidade reprodutiva parecia ser o “feijão com arroz do cardápio sexual”, enquanto outras formas de práticas sexuais, tanto heterossexuais como homossexuais, eram concebidas como “tira-gosto, legumes e sobremesas” (p. 19). A autora busca enfatizar a necessidade de se

delegar um olhar sobre a sexualidade através da teoria da construção social, deixando de lado o puro essencialismo.

De acordo com Heilborn; Brandão (1999), o debate teórico acerca dos estudos da sexualidade findou-se no enfretamento dos vieses do essencialismo e construtivismo social. No paradigma essencialista há uma crença em um instinto sexual, que justifica os diferentes comportamentos humanos. Nessa corrente de pensamento, a sexualidade ora restringe-se ao campo da fisiologia humana, a serviço da reprodução da espécie, ora à manifestação de uma pulsão, de ordem psíquica, que busca extravasar através do prazer sexual. Para essas autoras citadas acima, “a sexualidade não pode ser restringir a dimensão reprodutiva, tampouco à psíquica, estando impregnados de convenções culturais acerca do que consistem a excitação e a satisfação erótica, construtos simbólicos que modelam as próprias sensações físicas” (p.3).

Já para o construtivismo social, que problematiza e pressupõe a inexistência desse instinto sexual – reprodução e prazer – a argumentação funda-se de que existem formas culturalmente específicas, que o olhar ocidental chamaria de sexualidade, “que envolvem contatos corporais entre pessoas do mesmo sexo ou de sexos diferentes, ligados ou não à atividade reprodutiva, que podem ter significados radicalmente distintos entre as culturas, ou mesmo entre grupos populacionais de uma determinada cultura” (Heilborn; Brandão, 1999, p.3).

Gagnon e Parker (1995) mostram através do modelo script74 e da teoria construtivista

da conduta sexual, os aspectos culturais, interpessoais e mentais da sexualidade, pressupondo que a sexualidade não está ligada a instintos, mas, sobretudo, a circunstâncias históricas e sociais. Assim, o desenvolvimento do conceito sobre as condutas ou comportamentos sexuais, é, em sua maioria, dependente da socialização e da aprendizagem de determinadas regras, de roteiros e cenários culturais.

Leal (2003) ao discutir o modelo script e a teoria construtivista elaborado por Gagnon e Parker, destaca que os padrões de comportamento sexual são adquiridos individualmente e expressados culturalmente, ou seja, a definição do que seja uma atividade sexual varia a cada sociedade, a cada cultura. Para a autora, “os scripts para conduta sexual que são adquiridos nesse processo de aculturação informam as pessoas sobre com quem elas devem ter relações sexuais, quando e aonde devem ter estas relações, como devem agir sexualmente e porque devem ter qualquer tipo de atividade sexual (p.20).

74 Segundo estes autores, as teorias da sexualidade estão abarcadas em dois grandes grupos: o do instinto ou

Esse modelo construtivista, que põe a sexualidade como uma construção social, histórica e cultural, mostra ainda que as práticas sexuais são estruturadas e organizadas por diferentes regras culturais e por alguns elementos, como por exemplo, o gênero, a faixa etária, contexto espacial, relações de poder e dominação, expectativas e sentimentos pessoais daqueles envolvidos neste exercício.

Lhomond (1999) também discute a sexualidade como construção, logo, variável, culturalmente e socialmente. Para a autora, a sexualidade,

enquadrada por um costume de leis, costumes, regras e normas variáveis no tempo e no espaço, é um fenômeno socialmente construído, mas muitas vezes considerado uma “evidência natural”. Ora, leis mudam, as normas se modificam e as pesquisas sobre o comportamento sexual que vêm se desenvolvendo desde meados do século XX são conta dessas transformações (p.77).

Dessa forma, a antropologia vai “redescobrindo a sexualidade”, direcionando seu olhar para as mais distintas expressões e práticas sexuais e desenvolvendo estudos sobre temas que abarcam as questões feministas, da masculinidade, dos gays e lésbicas, de diferenças de gênero e de identidade. Aliás, Heilborn (1999), exclama que os estudos da sexualidade tiveram seu “boom” particularmente expressivo a partir dos estudos sobre gênero, cujo desenvolvimento está estreitamente ligado aos movimentos sociais, como o feminista e o de liberação sexual, como já supracitado.

Para o que pesquisadores da sexualidade, cabem perceber que não é apenas “estudar as mudanças na expressão do comportamento e atitudes sexuais, mas examinar as relações dessas mudanças com alterações de base mais profundas no modo como o gênero e a sexualidade se organizam e inter-relacionam no âmbito das relações sociais mais amplas” (VANCE, 1995, p.12).

Concordo com Loyola (1998), que a antropologia, devido sua tradição nesse domínio, na experiência adquirida no trato da diversidade social e cultural e o conhecimento desenvolvido no estudo dos sistemas cognitivos e simbólicos a partir das relações sociais, se mantém na vanguarda das disciplinas capazes de responder estas e outras questões que se colocam hoje em torno e a partir da sexualidade humana.

3.2 Quando a pesquisa é sobre sexualidade e os pesquisados são os adolescentes “mofis”: