Guattari, como vimos, estende a questão ecológica para o que ele chamará de ecosofia, que seria a articulação ético-política das três ecologias: mental50, social e am- biental:
As formações políticas e as instâncias executivas parecem totalmente incapazes de apreender essa problemática no conjunto de suas implicações. Apesar de es- tarem começando a tomar uma consciência parcial dos perigos mais evidentes que ameaçam o meio ambiente natural de nossas sociedades, elas geralmente se contentam em abordar o campo dos danos industriais e, ainda assim, unicamen- te numa perspectiva tecnocrática, ao passo que só uma articulação ético- político – a que chamo ecosofia – entre os três registros ecológicos (o do meio ambiente, o das relações sociais e o da subjetividade humana) é que poderia es- clarecer conveniente tais questões. (GUATTARI, 1990, p. 8)
Podemos então nos perguntar: por que Guattari se utiliza da questão ecológica como motor transversal para promover as revoluções moleculares, as lutas sociais e os processos de singularização? Por que um crítico e ativista social e político de trajetória marxista se apropria do discurso ecológico? Poderíamos responder a essas indagações dizendo que Guattari se opõe aos reducionismos bipolares da realidade. As subjetivida- des, o inconsciente, as lutas sociais, as relações afetivas, políticas etc. devem ser abor- dados em sua complexidade polívoca e heterogênea. Os diferentes e heterogêneos agen- ciamentos, vozes e vetores que perpassam e constroem a realidade e a subjetividade devem ser sempre levados em consideração em qualquer análise ou crítica.
Os modelos ideológicos bipolares de fundamentação das lutas sociais – capita- lismo versus comunismo, esquerda versus direita – são inócuos diante das característi- cas inerentes da subjetividade tais como a sua heterogeneidade, polivocidade, molecula-
50 Ecologia Mental, também chamada por Guattari de Ecologia Psíquica ou Ecologia da Subjetividade.
65 ridade, fragmentaridade, multiplicidade etc. Essas características sempre estiveram pre- sentes nas subjetividades e na psique humana. Não é que elas passaram a existir apenas no capitalismo pós-industrial, mas é apenas neste momento histórico do capitalismo que essas características encontram maior correspondência com a realidade social, que se apresenta de maneira similarmente fragmentada, e podem ser potencializadas. É no ca- pitalismo pós-industrial que podemos observar uma maior autonomia das singularidades subjetivas em relação a outras fases tanto do capitalismo quanto da história em geral. Há o desaparecimento gradual das idéias unidimensionalizantes e dicotômicas dos modelos políticos e de produção das subjetividades. Diante da então iminente despolarização política do mundo, com a queda do muro de Berlim e o subseqüente desmoronamento das ideologias unidimensionais em ambos os lados, Guattari propõe-nos o que chama de uma re-polarização política molecular:
A redefinição das relações entre o espaço construído, os territórios existenciais da humanidade (mas também da animalidade, das espécies vegetais, dos valo- res incorporais e dos sistemas maquínicos) tornar-se-á uma das principais ques- tões da re-polarização política, que sucederá o desmoronamento do eixo es- querda-direita51 entre conservadores e progressistas. Não será mais apenas uma questão de qualidade de vida, mas do porvir da vida enquanto tal, em relação com a biosfera. (GUATTARI, 1990, p. 164-165)
Com o fim dessa bipolarização, as palavras de ordem, as grandes bandeiras e os líderes carismáticos acabam por saírem da cena da macropolítica mundial. Não há mais espaço para estes tipos de modelizações políticas e existenciais. Há que se buscar uma reinvenção dos territórios existenciais que passam a estar em constante deriva em meio às fraturas sociais e políticas. Guattari identifica nos movimentos constestatórios deste período um amplo movimento de revolução molecular. O terceiro setor – que, a propó- sito, foi um importante aspecto do ativismo de Guattari52 –, representado pelas diversas ONGs, em especial as que lutam diretamente pelos direitos e respeito às minorias, é um exemplo deste amplo movimento.
51 Lembremos que a publicação de As Três Ecologias data de 1989, ano que marcada pela queda do muro
de Berlim e do fim histórico da bipolaridade política e ideológica entre capitalismo e comunismo.
52 “Eu participo de um grupo de pesquisa que está tentando definir um novo modo de financiamento para
a investigação nas ciências sociais. Estamos tentando criar caminhos novos para o desenvolvimento do que chamamos de “3° setor”, o setor associativo (tudo o que não é nem Estado, nem capitalismo privado, nem cooperativas).” (GUATTARI, 2005, p. 365)
66 Os avanços do CMI promoveram um aumento no nível de perigo ao qual as lutas sociais devem se dirigir. Além da qualidade de vida, que constituía-se no centro das preocupações das lutas entre esquerda e direita, hoje há também, segundo o autor, o perigo do fim da própria vida no planeta.
O autor percebe as transformações inerentes ao capitalismo pós-industrial que desarticularam esses dois blocos como os únicos modelos referenciais de lutas sociais e existenciais. No momento atual do capitalismo, a fundamentação das lutas sociais atre- lada à luta de classes sociais perde toda a força. Os questionamentos contra o CMI não se operam mais apenas em nível macro, através de grandes formações políticas ou de organizações militantes revolucionárias de alcance mundial. No lugar do dois pólos he- gemônicos, molares, surge um processo intenso de “molecularização” tanto em nível político quanto subjetivo. As lutas sociais e subjetivas se operam então através do que Guattari chamou de “revoluções moleculares” (GUATTARI, 1987). Tais revoluções não dizem respeito apenas às minorias, mas englobam “... todos os movimentos de indi- víduos, grupos, etc. que questionam o sistema em sua produção de subjetividade.” (GUATTARI, 2005, p. 162)
Guattari acredita nas revoluções moleculares das singularidades, surgidas no pe- ríodo pós segunda guerra, que ganham força e visibilidade nunca antes vista na história. Diante dessa descentralização, desse fim das ideologias - que são modelos reducionistas e laminadores das singularidades - da fragmentação das lutas sociais e das reivindica- ções das singularidades, qual seria então o ponto em comum, qual discurso, que poderia transitar por todas essas fraturas e fragmentações de forma a dar uma certa coesão ou força às lutas em favor das singularidades, às reformas sociais e contra os perigos que o CMI trás para a vida humana? É nesse impasse, é nessa busca por um discurso transver- sal que Guattari se apropria da ecologia ampliando-a para uma ecosofia.
Somente uma abordagem ecosófica da realidade humana seria capaz de respon- der aos problemas multifacetários pelos quais passa a sociedade e as subjetividades da era pós-industrial. Uma amostra da crítica e abordagem transversal da realidade empre- endida por Guattari pode ser observada no trecho a seguir, do capítulo “Espaço e Corpo- reidade”, da obra Caosmose, quando, ao falar de arquitetura e urbanismo, o autor é ca- paz de vincular todas as outras questões ético-estético-políticas em jogo nas crises atu- ais:
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Muitos fatores da evolução atual tendem a fazer com que a arquitetura perca sua especificidade estética... Essa mesma questão de uma re-finalização ético- estética será encontrada em todos os níveis da atividade humana. Na falta de uma consideração suficiente das dimensões de ecologia ambiental, de ecologia social e de ecologia mental – que reagrupei sob a rubrica geral de uma ecosofia –, é a humanidade e mesmo o conjunto da biosfera que se encontrariam amea- çados... A valorização das atividades humanas não pode mais ser fundada no lucro, no valor de troca, no sistema dos preços, nos conflitos e lutas de interes- ses. (GUATTARI, 1990, p. 164)
A chamada de Guattari para um redirecionamento, uma re-finalização ou, o que podemos chamar de um “re-finamento” das atividades humanas, se daria através de uma mudança de paradigma. O paradigma científico-racional do CMI baseia-se no lucro, no valor de troca na exploração e destruição do meio ambiente e das relações sociais. A ecosofia propõe-se a direcionar a humanidade para um paradigma ético-estético que levaria em consideração as dimensões propriamente humanas da subjetividade e das relações sociais. Essa dimensão estética diz respeito à sensibilização, ao desejo, o res- peito à alteridade e às singularidades humanas valorizando mais as necessidades exis- tenciais do que o valor de troca.
A ecosofia é, portanto, da ordem de um paradigma ético-estético, em oposição ao paradigma técnico-cientificista do CMI. Esse paradigma técnico-cientificista esteve sempre presente na bipolarização do mundo em capitalismo e comunismo. Ambos se mostraram niveladores, produtores de uma subjetividade unidimensional, opressores das singularidades, laminadores de qualquer aspereza diferencial no tecido social e nos mo- dos de existência subjetivos. Guattari pretende que essa referência ecosófica seja norte- adora de uma mudança crítica das formas de existência e das lutas sociais. Ela propor- ciona através de um paradigma ético-estético, uma atenção especial para a polivocidade das subjetividades e para a consideração de seus aspectos heterogêneos. O paradigma ético-estético nos convida a um processo de resingularização tanto nas esferas da subje- tividade individual quanto da subjetividade coletiva, em oposição ao caráter assujeitado da subjetividade capitalística difundida principalmente pela mídia capitalística.
Se não se trata mais – como nos períodos anteriores de luta de classe ou de de- fesa da “pátria do socialismo” - de fazer funcionar uma ideologia de maneira unívoca, é concebível em compensação que a nova referência ecosófica indi- que linhas de recomposição das práxis humanas nos mais variados domínios. Em todas as escalas individuais e coletivas, naquilo que concerne tanto à vida cotidiana quanto à reinvenção da democracia - no registro do urbanismo, da criação artística, do esporte etc. - trata-se, a cada vez, de se debruçar sobre o que poderiam ser os dispositivos de produção de subjetividade, indo no sentido de uma re-singularização individual e/ou coletiva, ao invés de ir no sentido de
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uma usinagem pela mídia, sinônimo de desolação e desespero. (GUATTARI, 1990, p. 15)
Diante do enaltecimento das singularidades, das revoluções moleculares, tanto em níveis subjetivos quanto sociais, podemos nos perguntar: será que haveria lutas uni- ficadoras entre todas essas variedades de contestações frente ao CMI? Haveria, por exemplo, alguma reivindicação fundamental, alguma luta inadiável que devesse fazer parte de todas essas fraturas políticas e subjetivas, de todas as manifestações dessas re- voluções moleculares? Há problemáticas localizadas, ocasionadas pelo CMI, que devem estar em primeiro plano? Há objetivos unificadores entre todas essas fragmentações? Quanto a isso, Guattari nos diz:
Perspectiva que não exclui totalmente a definição de objetivos unificadores tais como a luta contra a fome no mundo, o fim do desflorestamento ou da prolife- ração cega das indústrias nucleares. Só que não mais tratar-se-ia de palavras de ordem estereotipadas, reducionistas, expropriadoras de outras problemáticas mais singulares resultando na promoção de líderes carismáticos. (GUATTARI, 1990, p. 15)
Para Guattari, portanto, há algumas lutas sociais que devem sempre estar presen- tes em todos os focos de revolução molecular, em todas as variadas vertentes das rei- vindicações das singularidades que se apresentam no atual período do capitalismo. Questões urgentes como a fome, a hiperinflação no terceiro mundo53, o desflorestamen- to e as indústrias nucleares deveriam estar presentes em todas as contestações ao CMI por serem seus efeitos mais danosos e inadiáveis. Percebemos então que a idéia ecosófi- ca não se alia a um subjetivismo esfacelante das questões políticas e da produção de subjetividade. Não se pode esquecer que há algumas questões que dizem respeito aos laços de solidariedade social e que afetam catastroficamente qualquer condição de pro- dução de subjetividade que escape à serialidade e homogeneização do sistema capitalís- tico.
Para além da função poética, coloca-se a questão dos dispositivos de subjetiva- ção. E, mais precisamente, o que deve caracterizá-los para que saiam da seria- lidade – no sentido de Sartre – e entrem em processos de singularização, que restituem à existência o que se poderia chamar de sua auto-essencialização. Abordamos uma época em que, esfumando-se os antagonismos da guerra fria, aparecem mais distintamente as ameaças principais que nossas sociedades pro- dutivistas fazem pairar sobre a espécie humana, cuja sobrevivência nesse pla- neta está ameaçada, não apenas pelas degradações ambientais mas também pe- la degenerescência do tecido das solidariedades sociais e dos modos de vida
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psíquicos que convêm literalmente reinventar. A refundação do político deverá passar pelas dimensões estéticas e analíticas que estão implicadas nas três eco- logias do meio ambiente, do socius e da psique.” (GUATTARI, 1992b, p. 32- 33)
A ecosofia proposta por Guattari propõe-se, portanto, a uma refundação do polí- tico que se daria através de uma re-polarização molecular. Não haveria mais uma dico- tomia das mentalidades, mas todas as fraturas moleculares seriam pólos de lutas. Ou seja, diferentemente da dupla polarização anterior, ambas baseadas num modelo aplai- nador das subjetividades, urge se lutar em prol das revoluções moleculares sempre se buscando um direcionamento ético-estético e analíticos sob pena de assistirmos a uma degradação sem precedentes tanto do meio ambiente quanto dos modos de produção das subjetividades. É a vida humana mesma, e a relação solidária entre os humanos que está em jogo se não houver uma mudança para um paradigma ético-estético, como aborda- remos a seguir.