Como temos visto, o conceito de subjetividade maquínica é materialista. Baseia- se na práxis, na experiência direta do homem com o mundo, ou, como diz Guattari, com o cosmos63 que o cerca. É a experiência que determina a realidade subjetiva e não estru- turas ideais-universais.
A forma, a estrutura, o significante, o sistema não cessam de se revezar para tentar arbitrar a velha luta maniqueísta que opõe um puro sujeito a uma pura matéria amorfa, tornada, aliás, imaginária em relação à pesquisa científica con- temporânea. Os conceitos devem render-se às realidades e não o inverso. (GUATTARI, 1988, p. 145)
Partindo deste princípio, assim como da idéia da heterogênese de múltiplos e não-hierárquicos fatores que concorrem para a produção da subjetividade, a teoria guat- tariana considera os agenciamentos maquínicos materiais, tecnológicos como parte da subjetividade. As máquinas tecnológicas são agenciamentos maquínicos territorializa- dos, ou, dito de outra forma, corporificados em materiais diversos, que fazem parte do processo de subjetivação. As máquinas se agenciam com a subjetividade, passando a serem percebidas como parte do universo subjetivo.
63 A idéia de “cosmos” ou “cósmico” se refere a uma concepção ampliada da noção de mundo, onde esta-
ria incluso toda e qualquer espécie de coisas na materialidade do mundo quanto em termos de abstrações e produções incorporais, discursivas, simbólicas etc. Ao se referir ao cosmos Guattari procura englobar os mais heterogêneos fatores que produzem a subjetividade desde as relações sociais, as experiências estéti- cas até as relações páticas relativas às sensibilidades diante do mundo, tais como a influência da arquitetu- ra, do meio ambiente, da relação com as máquinas tecnológicas etc.
81 É bem verdade que isto pode ser observado mesmo quando nos remetemos ao passado pré-histórico do homem quando este ainda se utilizava de ferramentas rústicas. Mas a diferença está no grau de sofisticação das máquinas atuais que promovem um nível de interação ainda mais intenso. Com as máquinas de alta tecnologia podemos visualizar e conceber melhor esta idéia. Para ilustrar, Guattari nos diz o seguinte:
No ato de dirigir um carro, não é a pessoa enquanto indivíduo, enquanto totali- dade egóica que está dirigindo; a individuação desaparece no processo de arti- culação servo-mecânica com o carro. Quando a direção flui, ela é praticamente automática e a consciência do cogito cartesiano não intervém. E, de repente, há sinais que requisitam novamente a intervenção da pessoa inteira (é o caso de sinais de perigo). (GUATTARI, 2005, p. 40)
As máquinas são ferramentas que expandem os sentidos e a ação da subjetivida- de. Há, portanto, no contato com as máquinas, enquanto extensões do corpo e das ações humanas, uma relação de íntima ligação processual. Ao operar uma máquina a subjeti- vidade se imerge nesta relação, neste contato e não existe mais uma autopercepção indi- viduada. A subjetividade se articula em uma plataforma de servidão e de complementa- ridade com esta máquina. A máquina, no caso o carro, é percebida como extensão do corpo à proporção do grau de prática e “intimidade” que o condutor estabelece com ela. A subjetividade, em sua relação de automatismo com as máquinas, sente o carro como seu próprio corpo, um corpo-máquina. A auto-consciência é reduzida, ou mesmo anula- da, durante a concentração involuntária no manejo da máquina.
Esse tipo de imersão total da subjetividade na máquina é sentido e relatado prin- cipalmente por pessoas que se ocupam profissionalmente com a expressão ou ação cor- pórea, como é o caso de desportistas ou trabalhadores manuais. Isto ocorre em virtude de o domínio da máquina, neste casos, expressar diretamente e materialmente o resulta- do final da obra. Ou seja, o mesmo não poderia ser dito acerca da relação de um escritor com a máquina de escrever ou com o dispositivo caneta, uma vez que o que está em jogo como resultado, neste caso, é a máquina utilizada apenas como veículo de expres- são de algo incorporal, como as idéias e as sensações. No caso dos esportistas, músicos e artesãos, por exemplo, é comum ouvimo-los dizer que seu alto grau de domínio dos equipamentos usados surgiu a partir do momento em que, em virtude de uma prática e de uma dedicação cerebral intensa, suas máquinas ou dispositivos passaram a ser assi- milados e percebidos como um de seus membros. As raquetes dos tenistas, as pranchas
82 dos surfistas, a talhadeira do artesão, o pincel do artista plástico se ligam num conti-
nuum homem-máquina. São extensões de seus próprios membros.
Quanto a esta questão vale destacar os avanços dos estudos de neurociência que conseguiram mostrar como as máquinas ou dispositivos, como no caso dos desportistas, passam a fazer parte da constituição cerebral. Assim como o cérebro tem a capacidade de reconhecer um braço como a extensão de corpo, em toda a sua complexidade e fun- ções, o mesmo ocorre quando se domina um instrumento musical.
Esta concepção materialista da subjetividade procura aproximar o corpo, e a re- lação corporal, do conceito de subjetividade. A matéria não é algo que se soma a uma “essência do sujeito”. A subjetividade é a união de diferentes agenciamentos heterogê- neos parciais. Um desses agenciamentos, ou conteúdos de subjetivação, são as máqui- nas, tão presentes na vida cotidiana no capitalismo pós-industrial.
A subjetividade estabelece, até um certo ponto, uma dependência em relação às maquinas. Principalmente hoje em dia quando pensamos em máquinas como o compu- tador que conglomera em um único dispositivo múltiplas e heterogêneas funções como digitação, leitura, criação artística, organização burocrática, lazer através de jogos, transmissão de sons e imagens, auxílio e criações científicas etc.
O pensamento clássico mantinha a alma afastada da matéria e a essência do su- jeito afastada das engrenagens corporais. Os marxistas, por sua vez, opunham as superestruturas subjetivas às relações de produção infra-estruturais. Como falar da produção de subjetividade, hoje? Uma primeira constatação nos leva a reconhecer que os conteúdos da subjetividade dependem, cada vez mais, de uma infinidade de sistemas maquínicos. Nenhum campo de opinião, de pensa- mento, de imagem, de afectos, de narratividade pode, daqui para a frente, ter a pretensão de escapar à influência invasiva da “assistência por computador”, dos bancos de dados, da telemática etc... Com isso chegamos até a nos indagar se a própria essência do sujeito – essa famosa essência atrás da qual a filosofia ocidental corre há séculos – não estaria ameaçada por essa nova “máquinode- pendência” da subjetividade. (GUATTARI, 1993a, p. 177)
Guattari, apesar de conferir um certo grau de valorização dos agenciamentos maquínicos tecnológicos, está bem ciente do papel de alienação e do descompasso des- tes avanços em relação ao campo moral e ético64. Há, portanto, uma valorização dos aspectos enriquecedores para a subjetividade advindos da relação homem/máquina.
Há uma tendência, baseada neste discurso crítico às tecnologias, de se criticar as máquinas como um corpo estranho à essência natural do homem. Um certo medo pro-
64 Esta vertente da análise será abordada a seguir, sendo suficiente por enquanto dizer que a idéia de revo-
lução molecular e de ecosofia procuram difundir uma apropriação responsável e criativa destes dispositi- vos.
83 veniente de uma visão reducionista e denegridora da técnica, comum na filosofia do pós segunda guerra, vista apenas como veículo de instrumentalização da vida, como coloni- zadora do “mundo da vida”, como diriam os frankfurtianos. Guattari tem uma visão da máquina mais como instrumento da subjetividade do que como instrumentalizadora da vida. As máquinas são expressões de aspectos da subjetividade:
Que as máquinas sejam capazes de articular enunciados e registrar estados de fato ao ritmo do nano-segundo, e talvez amanhã do pico-segundo, ou de produ- zir imagens que não remetem a nenhum real representado, isso não faz delas potências diabólicas que estariam ameaçando dominar o homem. Na verdade, não tem sentido o homem querer desviar-se das máquinas já que, afinal das contas, elas não são nada mais do que formas hiperdesenvolvidas e hipercon- centradas de certos aspectos de sua própria subjetividade – e estes aspectos, di- ga-se de passagem, justamente não são daqueles que o polarizam em relações de dominação e de poder. (GUATTARI, 1993a, p. 177)
A partir disto, vemos como os agenciamentos maquínicos territorializados, ou as máquinas tecnológicas, são um dos fatores no processo de subjetivação. Elas fazem par- te da subjetividade assim como os registros sociais e as relações afetivas. Estas consta- tações vêm a reforçar o conceito de subjetividade enquanto produção, enquanto fabrica- ção junto à materialidade do mundo e as experiências concretas no mundo.
Estas máquinas se organizam como sistemas maquínicos, como processos ma- quínicos, explícitos que concorrem para a produção de subjetividade. São explícitos por fazerem parte da materialidade do mundo e por exprimirem diretamente a idéia que se tem de máquina como, por exemplo, o computador, um tocador de mp3, uma raquete de tênis ou uma prancha de surfe ou ainda um gravador.
Procuraremos agora, sucintamente passar por dois níveis que podemos apontar na relação da subjetividade com as máquinas tecnológicas para posteriormente, no tópi- co seguinte, entrarmos no conceito de máquina desterritorializada ou imaterial.