A análise inicial dos cadernos de apresentação dos processos de escolha dos livros didáticos, enviados às escolas públicas no período considerado nesta pesquisa, revelou que a edição de 2005 foi a única que fez uso de fotografias de pessoas, tanto no caderno de geral, conforme imagem destacada a seguir, quanto nos dos guias de cada matéria.
FIGURA 1 – Capa do caderno de apresen- tação do Programa Nacional do Livro Didático – PNLD 2005.
Nesta edição pudemos perceber a utilização de signos que remetem à diversidade da sociedade, especialmente considerando a “composição da população”. Os quatro jovens da Figura 1 conformam exemplo desses signos,83 sendo que os três primeiros fazem referência
aos grupos que são base da constituição da população brasileira, o índio, o negro e o branco europeu. O último representa as pessoas com deficiência, no caso, uma jovem com síndrome de down. A disposição dos elementos na imagem representa a visão horizontal do programa, que tem como objetivo atender às diversas modalidades de ensino da educação básica, como a educação indígena e a educação especial.
A seção “Carta ao professor” traz elementos que justificam a escolha das imagens, por meio da estruturação de um discurso voltado para evidenciar os esforços governamentais para a melhoria da educação. Nesta perspectiva, elegemos como figuras (Fiorin, 2013) que se destacaram neste texto direcionado aos professores da educação básica: o Ministério da
Educação (MEC), o Guia de livros didáticos, o livro didático e o aluno.
Mas antes é preciso identificar a conjuntura na qual os percursos semânticos dessas figuras se desenvolvem. O primeiro parágrafo desta seção traz elementos importantes para caracterizar esse momento, na medida em que faz menção ao contexto de mudança nos rumos do processo educacional brasileiro:
O Guia de livros Didáticos/2005 chega às escolas em um momento em que se instala uma série de discussões e mudanças sobre os rumos do processo educacional brasileiro. São vários caminhos, várias
possibilidades, muitos programas novos. Mas o objetivo é único: lutar contra a desigualdade, promovendo uma educação digna e de qualidade para todos os brasileiros (BRASIL, 2004b, p. 5, grifos
nossos).
Essa ênfase na mudança reflete a conjuntura governamental da época, pois o Guia de livros
didáticos: PNLD 2005 foi o primeiro resultado de avaliação de obras didáticas que se
candidataram ao PNLD para o ensino fundamental II (5ª a 8ª séries) na gestão do governo Lula (2002-2010). Assim, o texto estabelece percursos que reforçam as mudanças de
83 Segundo Bakhtin (2009) signos são fragmentos materiais da realidade, que possuem diferentes representações
de acordo com a esfera ideológica em que se aplicam. “Ali onde o signo se encontra, encontra-se também o ideológico. Tudo que é ideológico, possui valor semiótico” (BAKHTIN, 2009, p. 32).
orientação e fortalecimento institucional decorrentes das medidas tomadas nesse governo relacionadas às políticas em torno do livro.
A figura do MEC é utilizada para enfatizar os programas e ações, voltados para a educação, em andamento na época, como a ampliação no atendimento aos alunos, investimentos na formação e valorização do professor, avaliação e distribuição de LDs e livros de literatura. A avaliação e seleção dos livros também é evidenciada, considerada um elemento importante para a efetivação de um projeto que tinha como objetivo a elevação dos índices de aproveitamento escolar, com os quais o ministério se mostrava descontente ao afirmar que o baixo aproveitamento escolar o “entristecia”. Nesse sentido, um órgão do Estado é alçado à categoria de “sujeito” e se estabelece certo sentido de familiaridade a partir da associação de sentimentos humanos ao órgão.
O Guia de livros didáticos apresenta um percurso semântico de instrumento resultante de um trabalho de avaliação “detalhado” e “criterioso”, que contribui para a reflexão sobre o processo de escolha das obras e o papel do livro didático no contexto educacional no qual ele irá se inserir. O guia é o meio de disponibilizar as informações que subsidiarão as escolhas a serem feitas de modo “coerente” e “consciente” por parte dos professores. Esse conjunto de adjetivos atribuídos à avaliação divulgada pelo guia (detalhada/criteriosa), produz uma construção argumentativa que qualifica a escolha realizada pelo professor, a partir de uma atitude dual (coerência/consciência), embora de sentido aproximado.
Quanto ao livro didático, o texto reconhece a existência de algumas insuficiências e destaca a necessidade de uso, pelos professores, de outros materiais de apoio no desenrolar do processo pedagógico. Por outro lado, diante do contexto de mudança de governo, o LD assume a posição de aliado, tanto do professor quanto do MEC, na promoção de uma educação de qualidade e na melhoria de indicadores de desempenho da educação básica, conforme o trecho reproduzido a seguir:
Mas o livro didático é um importante aliado para que, juntos – o Ministério da Educação, por meio da avaliação e distribuição, os professores, por meio de uma boa escolha e uso –, possamos lutar para
reduzir os índices de baixo aproveitamento escolar que ainda hoje nos entristecem (BRASIL, 2004b, p. 6, grifos nossos).
A referência feita à diversidade na capa de apresentação do guia, encontra um correspondente no parágrafo final da “Carta ao professor”. O aluno, enquanto figura, é relacionado a um percurso semântico apoiado na noção de diferença, demandando da escola – que também se insere em realidades distintas – e dos materiais didáticos um tratamento ajustado às suas necessidades e especificidades.
Entendemos que o texto de apresentação do PNLD 2005 oficializa um discurso pautado no reconhecimento das múltiplas realidades e necessidades da educação básica brasileira. A escolha dos ícones que integram a capa e a referência feita, no texto, à diferença e às realidades distintas da educação no país, engendram um efeito de sentido cujo correspondente material, seja textual ou icônico, nos livros didáticos, seria o mais coerente – em relação à proposta defendida pelo guia – uma vez que esse documento delineia esse quadro. Resta saber se existe, nos livros selecionados, esse mesmo cuidado com a vinculação de imagens que representem essa diversidade, mais especificamente as pessoas com deficiência.