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O guia, na edição do PNLD 1999, utilizou o critério de classificação direta dos livros didáticos, recomendando a sua aquisição de acordo com o grau de qualidade e falhas detectado. Nesse período de avaliação, os volumes foram aprovados separadamente, e deste

modo os livros poderiam ser adquiridos por série e não por coleção. Assim, no processo de seleção, o professor poderia optar por dois ou mais livros de editoras diferentes. Com isso, das 11 coleções aptas, apenas uma teve os quatro livros aprovados. As resenhas no guia foram agrupadas por série, facilitando a comparação entre as obras. Cada livro recebia uma classificação, dada pelas equipes de avaliadores, que lhes atribuíam “estrelas” para indicar sua recomendação: com ressalvas (uma estrela), recomendado (duas estrelas) e recomendando com distinção (três estrelas). Nenhum livro analisado nesta edição recebeu o grau máximo de classificação e apenas três livros foram classificados com duas estrelas.

Nesta seção, analisaremos as resenhas críticas, publicadas no guia do PNLD 1999, referentes aos livros da 5ª e 6ª série da coleção Geografia, do autor Melhem Adas, produzidos pela Editora Moderna, e em seguida, as resenhas dos livros, das mesmas séries, da coleção

Geografia crítica, escritos por José William Vesentini e Vânia Vlach, produzidos pela

Editora Ática. Como optamos por apresentar a análise das resenhas por autores, para facilitar a identificação e evitar a repetição dos nomes, utilizaremos a nomenclatura MA1 e MA2 para o primeiro grupo de resenhas e JV1 e JV2 para o segundo, com 1 se referindo aos livros da 5ª série e 2, aos da 6ª.

As resenhas apresentam sintaxes discursivas semelhantes. As ideias nestes textos encontram- se divididas em seis partes que abordam: 1) A estrutura do livro, em que é apresentada sua divisão em unidades e capítulos; 2) A linguagem utilizada; 3) Exemplos de imprecisões ou abordagem de destaque; 4) Sugestões; 5) Considerações sobre o manual dos professores; e 6) Parágrafo final, que traz a recomendação sobre o livro.

Dentro dessa estrutura de apresentação, fizemos uma seleção do léxico utilizado nos textos das resenhas que evidencie a avaliação feita pelos analistas do MEC. Deste modo, na resenha do livro MA1, destacamos o uso de termos para qualificar o livro, como: “linguagem clara e

simples”, “igualmente positiva é a abordagem”, “de muito boa qualidade os exercícios

propostos”, “fotos [...] de boa qualidade” (BRASIL, 1998b).

A resenha enfatiza que o livro possui elementos como fotos, exercícios e textos complementares que podem auxiliar os estudantes na compreensão da realidade em que vivem. No entanto, o enunciador tece críticas em relação à extensão de alguns textos, que julga serem de “difícil compreensão para os alunos de 5ª série” (BRASIL, 1998b, p. 410):

Com uma linguagem clara e simples, que dialoga com o aluno, o livro procura explicitar as relações existentes entre os diversos conteúdos,

abordando-os de maneira lógica, coerente e cumulativa. [...] Nota-se,

entretanto, que alguns desses textos são excessivamente

informativos, extensos e de difícil compreensão para alunos de 5ª série

(BRASIL, 1998b, p. 409-410, grifos nossos).

A interpelação dos professores é realizada de forma indireta. O trecho a seguir exemplifica esta observação: “Por fim, deve-se dizer que, apesar das observações, este livro é de boa qualidade e pode auxiliar o professor a realizar um trabalho significativo em torno de alguns dos conteúdos mais importantes da área da Geografia” (BRASIL, 1998b, p. 410).

A resenha do livro MA2, assim como a anterior, utiliza o padrão lexical que ressalta a qualidade das imagens e sua função para a compreensão das abordagens, a articulação entre os tópicos trabalhados e a utilização de “fontes especializadas”. Entretanto, o texto faz críticas à insuficiência de espaço no livro para discussão em torno dos conceitos de região, território, lugar e paisagem, assim como ao reforço dado apenas à capacidade de memorização dos alunos, nas propostas de exercícios:

É preciso mencionar, ainda, que os exercícios, atividades e práticas sugeridas não incentivam a discussão de pontos de vista diferentes sobre um mesmo assunto, prejudicando o desenvolvimento de habilidades fundamentais do aluno, especialmente a criatividade e as capacidades de análise, de crítica e de síntese. Na verdade, a maioria dos exercícios

propostos cuida apenas de reforçar a capacidade de memorização do aluno (BRASIL, 1998b, p. 424, grifos nossos).

A contribuição do livro para o exercício da cidadania foi mencionada nesta resenha, em que foi apontada pelo enunciador a intenção da obra de promovê-la a partir do estudo da realidade brasileira:

É nítido ainda, ao longo de toda obra, o intuito de despertar a atenção

do aluno para alguns problemas sociais existentes no Brasil e para a

importância do exercício da cidadania. Neste contexto se inserem

discussões sobre as reinvindicações que a população deve dirigir aos órgãos públicos quando estes não cumprem com suas responsabilidades, e sobre a relevância de movimentos sociais recentes, como a “Campanha Contra a Fome” e o movimento dos “sem-teto” (BRASIL,1998b, p. 423, grifos nossos).

De acordo com o texto, o exercício da cidadania no livro se relaciona à reivindicação de direitos não atendidos pelo poder público, associados a problemas sociais como a fome e a falta de moradia.

A resenha do livro JV1 ressalta aspectos positivos dessa obra, relativos à proposta metodológica, ao estimulo à criatividade, à reflexão e à formação de conceitos, e apresenta críticas, por exemplo, ao grau de aprofundamento dos assuntos, que de acordo com a avaliação extrapolaria a capacidade dos alunos de 5ª série:

É evidente também a preocupação em apresentar grande densidade de

informações, visando a um aprofundamento no trabalho em torno dos

conteúdos abordados. No entanto, muitas vezes tal aprofundamento

está além da capacidade dos alunos de 5ª série, como é o caso, por

exemplo, do estudo sobre noções de orientação e sobre as diferentes formas de representação do espaço (BRASIL, 1998b, p. 413 – grifos nossos).

No que diz respeito aos recursos gráficos, não é feita nenhuma menção às fotografias e ilustrações, mas a organização e apresentação cartográfica são apontadas. O professor recebe orientações no sentido de contornar as dificuldades apresentadas pelo livro. Ao final o livro é classificado com um “auxiliar adequado”, desde que o professor supra as falhas apontadas.

O tema principal da resenha sobre o livro JV2 é a inovação. Segundo o texto, o uso do instrumental da Geografia Crítica responde “por algumas de suas melhores qualidades” (BRASIL, 1998b, p. 421). A escolha metodológica contribui para que o livro estabeleça relações com a realidade vivenciada pelo aluno, a partir de matérias de jornais e revistas, desenvolvendo habilidades de comparação, análise, interpretação e síntese. Não é feita referência ao uso de imagens pelo livro. Por fim, aponta limitações no desenvolvimento da criatividade pelos estudantes, relacionadas aos tipos de exercícios propostos, mas, ainda assim, no parágrafo final, o livro é considerado um “bom instrumento” que torna o aprendizado mais concreto e que estimula a criatividade.

Diferentemente da resenha do livro JV1, somente no parágrafo final é que a figura do professor é explicitamente citada. A impressão que temos é de que o texto é direcionado a um sujeito intermediário, podendo ser o coordenador do processo de avaliação, o gestor, mas não o docente:

Desta forma, pode-se dizer que este livro trabalha os conteúdos da área de Geografia de maneira extremamente bem articulada, tornando o aprendizado mais concreto e estimulando a reflexão e a criatividade do aluno. Constitui-se, portanto, um bom instrumento para que o

professor possa realizar um trabalho didático de qualidade (BRASIL,

1998b, p. 422, grifos nossos).

No decorrer do texto são listados os benefícios para o aluno da adoção de uma proposta de trabalho desenvolvida a partir de temáticas ajustadas a sua realidade. Embora o texto faça menção ao incentivo dado pelo livro ao desenvolvimento de habilidades que permitam ao aluno refletir e motivar-se com o estudo da dinâmica social, contribuições diretas para a construção da cidadania não são mencionadas.

Benzer Belgeler