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Assadr procurou apresentar um modelo econômico para os muçulmanos, afastando-se assim do modelo capitalista e comunista naquele período. Seu modelo diferencia as necessidades básicas e as luxúrias, trazendo regras rígidas, considerando a questão dos escassos recursos na natureza. Para o autor, a implementação do Islã poderia eliminar paulatinamente o controle da elite, sendo que, aos poucos, iria se estabelecer a igualdade entre as classes, sempre sendo incentivado o trabalho árduo.

O pensamento islâmico acabou por desenvolver um sistema que procura eliminar a exploração através de regras rígidas e controle por parte do Estado. A Lei Islâmica define regras para regular as companhias, procurando prevenir o abuso e corrupção. O Islã proíbe o monopólio, proíbe a acumulação de riqueza, eliminando as leis de direitos naturais e patente que podem contribuir para potentes monopólios. O Islã também procura proteger a propriedade privada da pessoa e empresa, havendo algumas restrições.

Para o Islã, quando o rico sempre permanece rico e o pobre sempre pobre há opressão. Recentemente, este tema tem sido mais debatido por economistas e tem ganhado maior atenção, sendo que para o Islã a riba é uma das causas - talvez a principal - que leva uma grande massa à pobreza, levando também uma elite global, mais centralizada talvez no Ocidente, mas que se encontra por todo o mundo hoje a sugar constantemente a riqueza da humanidade. Esse sistema acaba por escravizar a humanidade de uma forma mais sofisticada, já que os sistemas político, legislativo, judicial etc são todos controlados por esse grupo opressor. Sua função é preservar o sistema econômico.

A visão comum sobre a riba entre os juristas da lei islâmica é que ela é proibida. A riba é vista como um ganho injustificado com o qual a pessoa poderia receber uma vantagem monetária em uma transação de negócios sem dar um retorno justo, sem

282 Neste ponto há diferenças entre alguns autores, já que Assadr oferece ênfase na crença de que

o homem precisa mudar, mas isso não é compartilhado por outros autores do período contemporâneo.

trabalho. Tecnicamente a riba é vista como um prêmio que é pago pelo tomador de empréstimo ao emprestador, junto com o montante principal como uma condição do empréstimo. Nesse sentido, a riba é um pecado pela lei islâmica. Essas regras funcionam como princípios que os juristas têm derivado do Corão e da Sunna. Essas regras são amplamente aceitas como relevantes para a vida econômica e expressam o espírito islâmico que tem guiado o homem durante os séculos.

O Corão adverte que os muçulmanos devem demonstrar consistência na fé, mostrando-a em palavras, mas também em ações283. Com essa ideia básica, formou-se a

lei islâmica, que determina a relação entre intenção e ato, e entre reinvindicações e ações. A primeira máxima legal é: “A base de cada ordem é a intenção, disso um julgamento baseado em uma ordem deveria seguir a intenção e o propósito desta ordem.”284

A regra inserida nesta máxima legal tem sido aplicada pelos primeiros juristas mais em atos de rituais, porém pode ser igualmente aplicada em outras esferas de atividades. A responsabilidade da pessoa que encontra a mercadoria de alguém e a devolve ao proprietário, será posicionada como administrador e não se exigirá identificar o dono em caso de que esta propriedade seja destruída. Enquanto o objeto está em sua posse, mas se tomar posse como um dono deverá ser tratado como tal285. Esses exemplos

citados são expostos na lei como base para fundamentação do relacionamento comercial. Algumas características devem ser levadas em conta nos negócios:

Intenção e Ato – a relação entre intenção e ato pode ser mais explorada como por exemplo, quando um homem faz um ganho, este pode ser para satisfação de impulsos egoístas, pode ser para consumo pessoal, para sua sobrevivência e manutenção da família, bem como para gastos com causas nobres. Em todos os casos o ato é o mesmo, porém a intenção/objeto é diferente. Citemos aqui também o exemplo da plantação de uva, que pode ser para o consumo da fruta em si, ou para a produção de vinho. O que deve se considerar é a intenção, esta determina a legalidade ou ilegalidade do ato de um individuo.

283 “A resposta dos fiéis, ao serem convocados ante Deus e Seu Mensageiro, para que julguem

entre eles, será: Escutamos e obedecemos! E serão venturosos.” (Corão 24:51); “Volta o teu rosto para a religião monoteísta. É a obra de Deus, sob cuja qualidade inata Deus criou a humanidade. A criação feita por Deus é imutável . Esta é a verdadeira religião; porém, a maioria dos humanos a ignora.” (Corão 30:30)”Ó Senhor nosso, redobra-lhes o castigo e amaldiçoa-os reiteradamente!”( Corão 33:70)

284 Islamic Trade, Export-Import Laws and Regulations Handbook. Volume 1, Strategic

Informations and Laws for Selected Countries. Washington DC, USA: 2012. p.40.

O Professor Hadawinia explica isso em sua entrevista, buscando mostrar que o sistema se adapta, ou seja, não é pragmático:

"Então, nesse ponto, não haja nenhum problema, isso é possível. Mas, em nossa opinião, porque, você sabe, é algo que vem desde a origem dos países em que são contra as sharias islâmicas. Isso não significa que nós não exportamos nossos uvas para a França para fazer vinho. Se sabemos que o vinho é criado ... vamos enviá-los para uma fábrica de vinho, por isso não é nossa escolha para fazer isso. Este é o ponto mais importante ... mas em geral ... no caso de um negócio internacional, ou em alguns casos especiais que, tem alguma barreira cultural, barreira cultural, ah ... Mesmo que haja um negócio entre dois muçulmanos, eles têm ... eles deveriam seguir os princípios islâmicos do negócio, comércio, mas, então temos essa relação com os países não islâmicos, que nós podemos ter mais liberdade com o não-islamicos.”

O Islã apresenta opções para análise de seus casos, dando espaço para a atuação do Estado e certa liberdade do indivíduo.

Dúvida e certeza: a regra básica que resolve a questão do conflito entre a dúvida e a certeza está contida no princípio: “Uma crença no valor de condenação não pode desaparecer por uma dúvida”.286 Essa crença é baseada em versos corânicos que descartam os efeitos da dúvida que desorientam uma posição original. A questão é providenciar um guia no qual reserva, julgamento pessoal e evidência subjetiva são invocados. Essa regra tem grande significância no evento de controvérsia a respeito de direitos e obrigações no contencioso entre partes na falta de prova por cada lado da demanda.

O benefício da dúvida decorrente de uma posição controversa nunca pode ir para uma pessoa a quem o ônus da prova recai. Assim, a posição de uma pessoa em débito, mesmo após sua morte, não será afetada por dúvida quanto a uma provável quitação de dívida. Similarmente, uma requisição de pagamento de um débito não será rejeitada com base na presunção do contrário. Um contrato entre duas partes será tratado como obrigatório mesmo que haja razões para dúvidas. No caso de uma firma declarar um montante particular como receita durante o ano, isto deve ser aceito pelo fisco na falta de evidência do contrário.

Eliminação do detrimento: a regra mais importante da lei islâmica que regula todo o sistema econômico e financeiro “proíbe a imposição do dano e desencoraja a

retaliação”. Esta regra básica é tratada como um pilar da lei islâmica e forma a base das leis de opções, restrição, devolução de mercadorias com defeitos, preempção287,

retribuição, hudud, compensação e indenização etc. Esta regra também permite a indivíduos agirem unilateralmente para protegerem a si mesmos e outros do dano.

É necessário que o estado legisle e gerencie de forma que proteja as pessoas de fontes que possam causar dano. Por exemplo, com a intenção de proteger os seres humanos, permite que o governo mantenha uma lista negra dos comerciantes que agem de forma ilegal e estão ligados a atividades antissociais, tais como contrabando e adulteração288. Pode-se também tomar ações sobre pessoas ou empresas que dão suporte

a práticas contra a lei.

De acordo com a lei islâmica, negociar itens contra a lei e adquirir ganhos fora das normas islâmicas pode gerar empregos a um grande número de pessoas e trazer impostos substanciais ao governo, porém devem ser removidos por parte do governo289.

Regras do relaxamento: as restrições muitas vezes podem levar a pessoa a morrer de fome por conta de um ganho que é contra a lei ou não está viável de forma permissível. Nessas circunstâncias, a lei islâmica permite o que é contra a lei, pois a lei é para a própria proteção do muçulmano e pode ser aliviada e promover um relaxamento de si mesma, com o intuito de proteger os fiéis290.

Sobre a área econômica Hasanuzzaman (2007, p.23-24) cita o seguinte exemplo:

“É proibida a venda de frutas na árvore antes de chegarem à maturidade. Também é proibida a venda de grãos pela mesma quantidade e espécie para entrega futura. Além disso, a quantidade vendida deveria ser determinável e não conjectural. O hadith relaxa esse princípio para a extensão de 5 wasqs no caso de tâmara e uva, para aqueles cultivadores que precisam deles; porém eles devem esperar muito tempo para sua própria produção. Tais cultivadores são permitidos a vender conjecturalmente a quantidade fresca que esperam produzir por uma quantidade de produtos secos disponíveis prontamente [...] Similarmente, um contrato para vender uma commoditie que uma pessoa não possui no momento é contra a lei. Bay' Salam, que tecnicamente significa pronto pagamento por uma commoditie que o vendedor não possui, é permitido no caso de produtores que precisam de financiamento para as entradas.”

287 A compra de mercadorias ou ações, por uma pessoa ou grupo, antes da oportunidade ser

oferecida a outros.

288 HASANUZZAMAN, S. M. The Economic Relevance of Sharia Maxims. 2007, p.14. 289 Islamic Trade, Export-Import Laws and Regulations Handbook, 2012, p. 16.

Para garantir a produtividade do sistema não é dificultado para o cultivador vender sua produção esperada contra pagamento antecipado. No contrato devem ser especificadas a contratação e comissão do produto que ainda não existe.

Dificuldades podem ser enfrentadas devido à compulsão, miséria, problemas físicos, ignorância ou doença, dentre outros fatores, o que permite relaxar as regras para garantir o atendimento das necessidades dos fiéis.

Dar e tomar: da regra de dar e tomar no Islã, o princípio que a governa é: “O que é haram para tomar é haram para dar”, ou “O que é haram fazer também é haram para demandar”. Essa regra é relevante não somente nas transações financeiras, gratificações ilegais etc, mas também por gratificações não financeiras como adotar profissões que são rejeitadas na lei islâmica. Essas regras de fato são claras para os indivíduos, porém requerem alguma elaboração referente às ações e políticas para o governo. O Estado tem o papel de estabelecer instituições para conduzir a vida dos muçulmanos, cumprir as normas religiosas e manter os valores islâmicos agindo na vida do homem.

Regras sobre beneficio/responsabilidade: a relação entre o direito de aproveitar um benefício de uma propriedade e a responsabilidade de incorrer em perda devido a posse ser ordenada por um número de regras que carregam grande significância em transações de natureza comercial.

Neste caso, diversas ilustrações são utilizadas para exemplificar a questão da responsabilidade do governo com a população. Por exemplo: uma pessoa cava uma fossa em suas terras, o animal de um vizinho adentra estas terras e cai neste fosso e falece, o dono das terras não precisa indenizar o dono no animal, já que ele tinha o direito de fazer a fossa em suas terras. Similarmente se presume que o governo islâmico deve fornecer os melhores serviços públicos para seus cidadãos e caso não ocorra isso, o governo não deverá ser responsável por compensar uma perda.

Há casos em que o governo deverá indenizar, sendo que é necessário comprovar, por exemplo, a usurpação dos direitos, o crime, a negligência entre outros. A máxima legal discutida é “se uma pessoa obtém os benefícios de algo, caso haja uma perda deverá se responsabilizar por isso.”

Benzer Belgeler