Para Dejours (1994), a noção de “carga psíquica do trabalho”, abordada de forma articulada com o conceito de “carga de trabalho”, formulada pelos ergonomistas, está incorporada de subjectividade, o que permite perceber a impossibilidade de quantificar a carga psíquica.
A noção de “carga psíquica do trabalho” envolve os seguintes princípios: a) carga psíquica positiva e carga psíquica negativa; e b) um mecanismo denominado de “vias de descarga”.
Face à existência de carga positiva e carga negativa, e quando se está perante um trabalho que permite a diminuição da carga psíquica, considera-se esse mesmo trabalho “equilibrante”, e “fatigante” se esse trabalho se opõe à diminuição da carga psíquica. Neste contexto, quando a energia psíquica se acumula, torna-se uma fonte de tensão e desprazer que é a carga psíquica positiva. Desta situação, resulta uma carga psíquica aumentada, até que surge a fadiga, a astenia, podendo, mesmo, resultar em patologia. A realização de um trabalho livremente escolhido ou organizado torna-se um meio relaxante. O trabalho aí é uma fonte de homeostasia, o que define a carga psíquica
negativa. Assim, Dejours (1994) afirma que:
“O trabalho torna-se perigoso para o aparelho psíquico quando ele se opõe à sua livre actividade. O bem-estar, em matéria de carga psíquica, não advém só da ausência de
funcionamento, mas, pelo contrário, de um livre funcionamento, articulado dialecticamente com o conteúdo da tarefa, expresso, por sua vez, na própria tarefa e revigorado por ela. Em termos económicos, o prazer do trabalhador resulta da descarga de energia psíquica que a tarefa autoriza. O que corresponde a uma diminuição da carga psíquica do trabalho”(p. 24).
O que Dejours (1994) afirma é que o trabalho se pode tornar arriscado para o aparelho psíquico quando o mesmo se objecta à sua livre actividade, isto é, quando não permite a libertação da energia psíquica.
Para o esclarecimento do princípio da existência de “vias de descarga”, em primeiro lugar, há que considerar, de acordo com os relatos de Freud (citado por Dejours, 1994), a existência de excitações exteriores (de origem psico-sensorial) e interiores (excitações instintivas ou pulsionais). A excitação, quando se acumula, origina a vivência de uma tensão, tensão psíquica ou tensão ´nervosa`, na expressão popular. Perante tal situação, obrigatoriamente deve haver uma descarga de energia pulsional, caso contrário coloca-se em risco o funcionamento do aparelho psíquico. As vias de descarga possíveis dessas tensões são três: a via psíquica, a via motora e a via
visceral (Bourguignon, citado por Dejours, 1994).
Assim, as representações mentais, como seja a produção de fantasmas, por vezes são suficientes, enquanto via psíquica, para que se dê a descarga da tensão psíquica, “(…) pois a produção mesma de fantasmas é consumidora de energia pulsional” (Freud, citado por Dejours, 1994, p. 23). Quando esta via psíquica não permite a descarga da tensão, então recorre-se à via motora, através da musculatura, produzindo manifestações físicas, como a fuga, a crise de raiva motora e a violência. Efectivamente, se a via mental e a via motora não são eficazes, a energia pulsional tem de ser descarregada pela via do sistema nervoso autónomo, assim como pelo desajustamento das funções
somáticas, isto é, pela via visceral que decorre do processo de somatização das tensões internas, tal como, por exemplo, uma psicossomatização, típica de uma úlcera no estômago.
Na medida em que permite a diminuição da carga psíquica, através da canalização e consequente descarga, o trabalho é considerado um instrumento de equilíbrio psicológico para o trabalhador. Face a esta constatação, então, a questão passa a equacionar-se da seguinte forma:
“Na tarefa, qual é o componente do trabalho que se opõe à descarga da energia? Ou, em outros termos, o que faz o trabalho entravar o livre jogo ´motivação-satisfação` (ou desejo- prazer)?” (Dejours, 1994, p. 26).
O autor para responder a esta questão, vinca que:
“O conflito que opõe o desejo do trabalhador à realidade do trabalho, coloca, face a face, o projecto espontâneo do trabalhador e a organização do trabalho, que limita a realização desse projecto e prescreve um modo operatório preciso” (Dejours, 1994, p. 26).
Dejours (1994) acrescenta que, de uma forma genérica, a carga psíquica de trabalho tende a aumentar quando a liberdade da organização de trabalho diminui, referindo ainda que:
“A carga psíquica do trabalho é uma carga, isto é, o eco ao nível do trabalhador da pressão que constitui a organização do trabalho [e frisa que] “quando não há mais arranjo possível da organização do trabalho pelo trabalhador, a relação conflitual do aparelho psíquico à tarefa é bloqueada. Abre-se, então, o domínio do sofrimento (…)” (Dejours, 1994, p. 28).
Dejours (1994), considera que cada trabalhador possui uma história pessoal e estabelece uma relação única com o trabalho. Com tal afirmação, o autor está a declarar que o equilíbrio do aparelho psíquico, em parte, se deve à própria disposição pessoal das vias de descarga (a via psíquica, a via motora e a via visceral).
Após considerar a relação Homem e Trabalho e o conceito de “carga psíquica no trabalho”, referindo-se aos seus princípios, Dejours (1994) coloca a seguinte questão:
“A tarefa que afecta um trabalhador oferece uma canalização apropriada à sua energia psíquica? [Ou seja], ´a tarefa exige suficientes actividades psíquicas`, fantasmáticas e psicomotoras?”(p. 24).
Com esta interrogação, o autor procura saber se o conteúdo da tarefa que o trabalhador realiza, é adequado à libertação da energia pulsional, conforme o segundo princípio do conceito de “carga psíquica no trabalho” preconiza. Esta questão, para além de crucial, resume o núcleo da problemática da relação entre o aparelho psíquico e o trabalho, na medida em coloca a situação do trabalho como uma forma possível de descarga de energia psíquica.
Após a exploração das questões relacionadas com o conceito de “carga de psíquica no trabalho”, o momento é propício para se entrar na dimensão do papel da “organização do trabalho”, mais especificamente no conteúdo da tarefa, como contributo para aparecimento do sofrimento psíquico.
Antes de mais, importa definir e distinguir os conceitos de “organização de trabalho” e de “condições de trabalho”. A “organização de trabalho” designa, por um lado, a divisão do trabalho e a divisão das tarefas no seu modo operatório e, por outro, a divisão dos homens, onde se inclui o sistema hierárquico, as modalidades de comando, as relações de poder e as questões de responsabilidade. As “condições de trabalho” dizem respeito ao ambiente físico (temperatura, pressão, barulho, vibração, irradiação, altitude, etc.); ao ambiente químico (produtos manipulados, vapores e gases tóxicos, poeiras, fumaças etc.); ao ambiente biológico (vírus, bactérias, parasitas, fungos); às
condições de higiene, de segurança e às características antropométricas do posto de trabalho (Dejours, 1992).
As condições de trabalho dizem respeito aos factores físicos e ambientais, ou seja, são aquelas condições que interferem com a saúde física. Por sua vez, a organização de trabalho implica a divisão do trabalho, o sistema hierárquico e o
conteúdo das tarefas, ou seja, a vertente que interfere na dinâmica da saúde mental dos
trabalhadores (Dejours, 1992).
Assim, há que entender que a organização de trabalho é, de certa forma, a vontade do outro, a do patrão. A partir de então, a vontade e o desejo dos trabalhadores e a vontade do empregador, traduzindo-se pelo seu comando, confrontam-se e concretizam-se na organização de trabalho. Neste contexto, o trabalhador corre o risco de ser, então, desprovido dos seus projectos e é convidado para agir de acordo com a vontade de terceiros. Constata-se, neste caso que o aumento da carga psíquica do trabalhador é, então, resultante da confrontação do desejo do trabalhador, com a do empregador, desenvolvida na organização de trabalho.
Desta forma, o aparecimento do sofrimento psíquico, em contexto de trabalho, desencadeia-se quando a tarefa que o trabalhador desenvolve, não lhe permite a libertação da energia psíquica e, ainda, quando o trabalhador não consegue introduzir alteração nessa mesma tarefa, no sentido de lhe permitir uma libertação da referida energia.