Segundo Tittoni (citado por Jacques, 2003) actualmente pode-se considerar a existência de dois eixos de análise em saúde mental e trabalho, constituídos por abordagens teórico-metodológicas diferentes. O primeiro eixo de análise diz respeito ao
diagnóstico de sintomas de natureza “psi”, bem como a sua ligação com as situações de
trabalho. Este primeiro eixo recebe fortes influências da Epidemiologia como referência metodológica. O segundo eixo de análise tem como foco de intervenção as situações vividas e experenciadas pelo trabalhador no seu contexto de trabalho, assim como as
situações de adoecimento decorrentes do mesmo. Este último eixo sofre influências das Ciências Sociais e da Psicanálise.
Neste contexto, e considerando os dois eixos de análise propostos por Tittoni, Jacques (2003) propõe a existência de quatro grandes abordagens teórico-metodológicas explicativas da relação saúde mental e trabalho, articuladas com diversas áreas, tais como a Psicologia e a Psicologia Social em particular. As abordagens teórico-
metodológicas a que a autora se refere são: primeiro, o stress; segundo, os estudos e
pesquisas em subjectividade e trabalho; terceiro, o modelo epidemiológico e/ou diagnóstico; e quarto, a Psicodinâmica do Trabalho. Importa acrescentar que os estudos referentes a esta área devem ser sempre considerados, tanto no seu contexto político, como no seu contexto socio-económico, dado que os mesmos têm fortes influências na relação saúde mental e trabalho.
Assim, quanto à primeira abordagem, o stress, importa considerar que a mesma
se baseia em estudos psicofisiológicos. O conceito de stress tem origem na Física para
descrever os estados de desgaste dos materiais submetidos a excesso de peso, calor ou
radiação. O conceito stress foi rebuscado pelo fisiologista Hans Selye, em 1936, para
definir um “síndrome geral de adaptação”, composto por três fases: reacção de alarme, fase de adaptação e fase de exaustação (Lazarus & Folkman, citado por Jacques, 2003).
Desta forma, o stress diz respeito a uma relação particular entre a pessoa e o ambiente
que é avaliada pela pessoa como um factor que sobrecarrega ou excede os seus recursos e ameaça o seu bem-estar.
Apesar dos diversos desenvolvimentos dentro dessa abordagem sobre o stress,
fundamentada no referencial cognitivo-comportamental, privilegiando metodologias quantitativas. Apesar do trabalho ser um dos factores desencadeantes de stress, este não está exclusivamente relacionado com a situação do trabalho, podendo, desta forma, acontecer no quotidiano da pessoa (Jacques, 2003).
O segundo tipo de abordagem, focada por Jacques (2003), diz respeito aos
estudos e pesquisas em subjectividade e trabalho, o qual privilegia a experiência e as
vivências, referentes ao quotidiano de vida e de trabalho, consideradas como expressões do indivíduo na sua intersecção com o mundo sócio-cultural e histórico. Como metodologia, esta abordagem privilegia os estudos qualitativos, através de técnicas como a entrevista individual e colectiva, a observação e análise documental.
O objectivo do terceiro tipo de abordagem, o modelo epidemiológico e/ou
diagnóstico, centra-se no reconhecimento de quadros psicopatológicos associados a
determinadas categorias profissionais, onde a Epidemiologia assume um papel importante. Isto porque a Epidemiologia tem uma grande trajectória no seio da Medicina, fundamentalmente ligada às doenças infecto-contagiosas. Um aspecto que contribui para a aplicação da Epidemiologia na área da saúde/doença mental foi o facto de, a partir da 2.ª Guerra Mundial, se aceitar que existiam várias causas para a doença e não apenas uma, como se concebia antes deste período histórico (Jacques, 2003). Este modelo epidemiológico e/ou diagnóstico dá o seu contributo na área da saúde mental e trabalho, pois considera que o trabalho assume um carácter fundamental na determinação do adoecimento mental e na aquisição de patologias originadas pela exposição do indivíduo a substâncias químicas, tóxicas e a agentes físicos, como por exemplo, o ruído. Como metodologia, esta abordagem, privilegia a utilização de
instrumentos de medida das condições de trabalho e saúde mental dos trabalhadores, um protocolo de observação do trabalho e análise de tarefas e, por último, as entrevistas qualitativas de aprofundamento, persistindo a utilização concomitante de abordagens qualitativas e quantitativas.
A quarta e última abordagem, a Psicodinâmica do Trabalho, é uma área tipicamente francófona e que, apesar de estudar vários aspectos relacionados com o Homem e o trabalho, a sua vertente mais importante consiste em explicar a dominação da vida mental do trabalhador pela organização do trabalho, ou seja, explica a ocupação dessa vida mental pelos actos impostos: movimentos, ritmos, regularidade e comportamentos produtivos e como surgem o sofrimento psíquico e o prazer nessa mesma organização de trabalho (Dejours, 1992).
Ao referir-se a outras abordagens teórico-metodológicas nesta área da saúde mental e trabalho, Dejours (1994) tece-lhes algumas críticas, considerando-as causalistas e solipsistas:
“Causalista, na medida em toma de empréstimo o modelo da toxicologia industrial que atribui ao ambiente de trabalho e ao próprio trabalho a responsabilidade das desordens causadas à saúde do homem e à integridade fisiológica do organismo. Ora, em matéria de saúde mental, este modelo verifica-se muito sumário: o trabalho, de facto, não é sempre patogénico; ele tem, ao contrário, um poder ´estruturante` em face tanto da saúde mental como da saúde-física. Este modelo, por outro lado, é muito mais solipsista, na medida em que não concebe o impacto do trabalho a não ser sobre sujeitos considerados individualmente, separados de outros sujeitos, enquanto certas regulações da relação saúde mental-trabalho passam também pelo colectivo de trabalho, que intervém aí, segundo modalidades não redutíveis àquelas usadas para os indivíduos” (p. 46).
Ainda num espírito de crítica a outras abordagens teórico-metodológicas na área da saúde mental e trabalho, Dejours (1994) volta a frisar que os mesmos estão calcados
sobre a toxicologia industrial, ou seja, nos comportamentos externos do Homem, veiculados a comportamentos mecanicistas, como seja a teoria neuroendócrinado do
stress, a teoria neurofisiológica de Pavlov e a teoria neuropsicológica do Behaviorismo.
O autor considera, no entanto, que existem outras abordagens na área da saúde mental e trabalho “menos mecanicistas”, como seja, a Psiquiatria Biológica, a Psicopatologia, Fenomenologia e a Psicanálise. Contudo, e apesar de “menos mecanicistas”, o autor critica-as, na medida em que estas mesmas abordagens atribuem, ao meio ambiente, apenas uma função de factor desencadeante ou de revelador, face a patologias, cujas origens não são mais atribuídas ao trabalho, mas antes a determinadas condições relacionadas com as debilidades do sujeito e pré-existentes ao surgimento da patologia. Ao concluir a sua crítica a estas abordagens, Dejours considera-as mais sedutoras, quando comparadas com aquelas que se encontram calcadas sobre a toxicologia industrial. No entanto, explica que as mesmas não conseguem transpor a barreira do
solipsismo, nem mesmo a Psicanálise, já que preconizam uma abordagem dual, a qual
fica aquém do colectivo, aspecto defendido pela Psicodinâmica do Trabalho.
Com efeito, a abordagem da Psicodinâmica do Trabalho constitui-se, assim, um
pilar fulcral para este trabalho de investigação, a qual passa a ser alvo de exposição.