I. BÖLÜM
1. İSİMLER
1.4. Zamirler
Quando em pesquisa de campo, uma questão que fazia para alguns de meus entrevistados ao final era se encaravam tais instâncias e implicações como “problema”, ou mais, sobre para o quê e onde tais pessoas alocavam a palavra “problema”. Obtive uma ampla variedade de respostas, mostrando assim que existe uma disputa em torno em torno de modelos ideais por instituições, associações e organizações não-lucrativas que poderia ser tida talvez como estritamente política, enevoando estratégias perfeitamente legítimas em outros contextos culturais.
Em setembro de 2010 fui convidado para participar do Debate em Português – A saúde mental dos brasileiros realizado em setembro de 2010 pela Shizuoka Bunka Geijutsu Daigaku, universidade pública de artes da província de Shizuoka cujo campus está localizado em Hamamatsu.
Inúmeras pessoas que conheci nestas entidades e eventos me diziam que seria de extrema importância visitar o Debate, o que tinha tido bastante repercussão no ano anterior,
este envolvendo a questão das famílias de brasileiros na cidade. Diziam que a universidade contava com a presença da profa. Ângela (que era motivo de bastante orgulho entre os meus entrevistados, talvez por ser brasileira e contratada de uma universidade japonesa, talvez por ser engajada nas atividades e estudos envolvendo a “comunidade”) e o prof. Akihito, sociólogo japonês que também há anos estudava a situação dos brasileiros na cidade.
Tadashi, um amigo antropólogo, japonês, também voluntário do grupo ARACE e concluindo o doutorado pela Universidade da Flórida, EUA, me pediu para prestar atenção neste Debate. Tadashi falava português e se mostrava bastante intrigado pela realização do evento sobre “os problemas da comunidade brasileira” e, em especial, por ser realizado em português. De fato a realização do evento em português restringia a participação de ouvintes e autoridades japonesas, apesar de ser sempre realizado em uma universidade nipônica.
Quando participei do encontro, notei também que não havia tradutores disponíveis e representava, de certa forma, uma congregação das pessoas engajadas nos “problemas” da “comunidade brasileira”, sendo a maioria membros de entidades assistenciais, escolas, associações, etc.
O debate tinha um grande suporte da universidade, com vários alunos de graduação encaminhando os visitantes para o grande auditório onde seria realizada a discussão. À frente sentou-se Eduardo, todo trajado em terno e gravata, enquanto os demais membros se sentavam ao fundo em grupos dispersos. Voluntários de NPOs com orientação comum se sentavam juntos, teciam comentários e brincadeiras e formavam panelas em um mapa bastante específico.
O tema daquela edição do Debate era voltado exclusivamente para as questões de ordem mental dos brasileiros na cidade, contando com entidades que prestam auxílio em outras cidades do Japão, notando uma série de distúrbios que variam desde a depressão ao caso extremo dos suicídios de brasileiros em cidades japonesas. Encontrei o informante Roberto que, mesmo engajado nos assuntos da “comunidade” e não afiliado a nenhuma NPO em específico, se sentou ao centro, enquanto outros visitantes se sentaram à esquerda.
Notei que estavam presentes vários destes informantes que conheci durante a minha estadia em Hamamatsu, demonstrando à primeira vista que o Debate em Português, já “tradicional” na cidade, era o fórum onde as entidades assistenciais discutiam os “problemas”
da “comunidade brasileira” no Japão, tomando ao final do debate uma série de posturas combativas para solucionar as questões apresentadas no evento.
Ao final do evento todos os participantes recebiam uma espécie de ata com o resumo dos temas apresentados, o que os convidados presentes guardavam e levavam para as
próximas edições do evento. Marca-se aqui um espaço institucionalizado55 do apontamento e
da discussão dos “problemas” dos brasileiros na cidade.
Estas entidades se esforçavam em certa medida em me mostrar casos quase sempre extremos, sempre repletos de um ou mais “problemas” envolvendo o cotidiano no Japão que eu “deveria ver”, apontar, relatar. Apesar de serem extremamente importantes para poder construir um relativo estrutural das famílias e do cotidiano em Hamamatsu, percebi que deveria colocar para segundo plano esta primeira entrada em campo.
Para além da existência ou não dos inúmeros “problemas” enfrentados pelos decasséguis no Japão (“problemas” entre aspas, particularmente porque alguns dos próprios entrevistados não encaram tais instâncias como “problema”, mas apenas como uma conseqüência ou dispositivo acionado pela migração), não se atentam os líderes da “comunidade nikkei” no Brasil para as diferentes contingências e preocupações dos brasileiros vivendo no exterior, muitas vezes gerando projetos alternativos de vida e de família que interferem, profundamente ou não, na educação dos filhos e gerações futuras. Como ouvi de um jornalista brasileiro durante o Mestrado, “os decasséguis estão em outra, outro tempo”.
Em outro aspecto, notamos a “criminalização do fenômeno migratório” (SASAKI, 2009) quando a família fica fora do modelo ou discurso hegemônico. O próprio modelo de estruturação familiar do ie, ainda respeitado por várias famílias nikkeis no Brasil, entra em choque com a plasticidade dos arranjos familiares praticados em Hamamatsu, fluidez que pode ter origem no próprio Brasil com as famílias artificiais antes de embarcarem para o Japão.
Quanto às famílias artificiais, as dissoluções e rearranjos familiares realizados no Japão que chegam aos representantes da esfera normativa em Hamamatsu, ignoram-se processos semelhantes quanto às famílias artificiais de imigrantes japoneses que chegaram ao
55Dentro de uma universidade pública japonesa, o que, ao meu ver, interfere drasticamente na percepção que os
Brasil 1908, pois, como apontado anteriormente, estas famílias também tinham seus dispositivos e estratégias quando chegaram ao país como a prática do divórcio/dissolução, etc (HANDA, 1987; MELLO, 1960).
Como disse em outra oportunidade (KEBBE; MACHADO, 2007), os brasileiros vivendo no Japão, descendentes de japoneses ou não, perfazem uma historicidade bastante diferente da “trajetória da comunidade nikkei”, tão amplamente difundida e reinventada com o Centenário da Imigração Japonesa no Brasil celebrado em 2008.
Por fim, percebemos aqui que os “problemas” dos brasileiros em Hamamatsu delimitam um campo político onde entidades assistenciais buscam em suas disputas os mais variados tipos de legitimação acerca de modelos mais ou menos ideais para o contexto da migração decasségui. Em um aspecto, existe o embate sobre a “japonização” e expectativa de um nikkei ideal (ADACHI, 2004) versus a resistência à “japonização”, ou então a afirmação e exacerbação de várias “brasilidades” (TSUDA, 2003), sustentada nas discussões oficiais, acadêmicas e do senso comum como “falta de integração”. Surge aqui uma questão fundamental: como conciliar o discurso da “diversidade” e da “integração” quando se tem o modelo de um japonês ideal no horizonte?