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4.3.1 A falta de sítios entre os rios Jamari e Candeias: uma buffer zone?

Figura 41: Balsa para travessia do rio Jamari, poucos quilômetros abaixo da represa de Samuel (foto:Manuel Arroyo Kalim, 2008).



Antes de embarcar nas escavações da UHE Santo Antônio, eu havia passado dez longos dias do inverno amazônico com o arqueólogo João Aires no meio de atoleiros, estradas cortadas por igarapés e muita chuva. Conseguimos uma rabeta para descer parte do rio Jamari e levantar sítios arqueológicos. Partimos na madrugada do dia 27 de fevereiro de 2008 em companhia do barqueiro Isaías, também conhecido como Soldado 20. Nosso objetivo era descer até a confluência com o rio Candeias, 45km rio abaixo. No caminho, fomos parando em áreas de fácil acesso, boa visibilidade do solo ou com moradores. No entanto, logo notamos que o rio corria muito encaixado, com grandes barrancos em ambas as margens e poucas drenagens secundárias. Isto é, havia poucos locais de fácil acesso e visibilidade. Notamos também que esse trecho do rio era pouco habitado. Uma variável que afeta a outra: a baixa ocupação humana gera poucos lugares com boa visibilidade (e.g. áreas de arado) e acessibilidade (e.g. escadas para subir os barrancos). Quando inquiridos sobre a presença de material arqueológico, os ribeirinhos pareciam (quase todos) ter uma resposta ensaiada:



Figura 42: Os barrancos do Jamari e a dificuldade de acesso a áreas com maior potencial arqueológico (fotos: Manuel Arroyo-Kalim e Claide Moraes, 2008).

Figura 43: Idem.



Em resumo, entre a cachoeira de Samuel e o encontro dos rios Candeias e Jamari não foi encontrado nenhum sítio arqueológico. No curto trecho levantado (nessa etapa) a jusante da foz do rio Candeias, foi identificado apenas o sítio Associação Calderita, o que justifica ele ter sido o sítio escolhido para ser escavado na etapa seguinte de campo.

4.3.2 Escavação do sítio Associação Calderita



Este sítio foi nomeado Associação Calderita em referência à designação dada pelos ribeirinhos ao local. Sua localização, 4km sudeste do rio Madeira (por terra), encontra-se em planície em topo de barranco (+-20m em julho), em área de roça abandonada77, com grande número de palmeiras, algumas centenas de metros a jusante do encontro dos rios Jamari (na margem direita deste) e Candeias. Além de cerâmica indígena, o sítio possuía indicações de ocupações mais recentes, como uma estrutura de forno (Fig. 43), provavelmente de grupos caboclos ligados à extração de borracha.



Figura 44: Vista do sítio Associação Calderita (foto: Fernando Ozorio de Almeida, 2008). Figura 45: Estrutura de forno encontrada (foto: Fernando Ozorio de Almeida, 2008).

O sítio foi delimitado por meio de 18 sondagens, escavadas em uma malha de 40 x 40m, e teve sua área estimada em 2,4ha. (Fig. 46). Um total de aproximado de 270 fragmentos foi obtido com a execução dessas sondagens. Foi observado que a camada de terra preta, de textura predominantemente argilo-arenosa, possuía em média de 20 a 30cm de profundidade. A homogeneidade da espessura da camada de terra preta, facilitada pela baixa variação topográfica dentro do sítio, só foi quebrada em um local onde foi identificado um montículo. Pertencendo essa elevação topográfica a um local que não seria interceptado pela malha de sondagens (40 x 40m) optou-se por diminuir o espaçamento da malha para interceptar o local. Essa sondagem (N1030 E1000) possibilitou identificar uma área onde a mancha de terra preta era mais espessa (+-50cm), com grande densidade cerâmica.





77 A periferia sul do sítio já se encontrava em um terreno com roça limpa, e a periferia leste estava coberta por

Projeto Alto Madeira Legenda das Fotos

PN: Número de Procedência ArA: Areno Argiloso

C: Cerâmica AgA: Argilo Arenoso

L: Lítico N/E: Não Escavado

TS: Testura do solo Fo to s: M an ue lA rr oy o- Ka lin (2008) PN C L TS CS PN C L TS CS PN C L TS CS PN C L TS CS

0-20cm 2 7 0 Ag 3/1 4 12 0 S-Ag4/3 5 8 0 S-Ag3/1 7 5 0 S-Ag4/2

20-40 3 1 0 Ag 4/3 0 0 Ag 4/4 6 1 0 S-Ag4/2 0 0 Ar-Ag4/6

40-60 0 0 Ag 5/8 0 0 Ag 5/6 0 0 Ar 6/6 0 0 Ag 5/6

60-80 N/E N/E N/E N/E

80-100 N/E N/E N/E N/E

100-120 N/E 7,5 YR N/E 10 YR N/E 10 YR N/E 10 YR

PN C L TS CS PN C L TS CS PN C L TS CS PN C L TS CS

0-20cm 8 35 0 S-Ag4/2 10 2 0 Ar-Ag4/6 11 11 0 Ar-Ag/ 15 7 0 Ar-Ag/

20-40 9 2 0 S-Ag4/6 0 0 Ar-Ag5/6 12 63 0 Ar-Ag/ 16 1 0 Ar-Ag/

40-60 0 0 Ag 5/6 0 0 Ag / 13 63 0 Ag / 0 0 Ar-Ag/

60-80 N/E N/E 14 41 0 Ag / N/E

80-100 N/E N/E N/E N/E

100-120 N/E 10 YR N/E 10 YR N/E N/E

PN C L TS CS PN C L TS CS PN C L TS CS PN C L TS CS

0-20cm 17 21 0 Ag / 19 15 0 Ar-Ag/ Ag / 24 16 0 Ar-Ag/

20-40 18 4 0 Ag / 20 3 0 Ag / 22 10 0 Ag / 0 0 Ag /

40-60 0 0 Ag / Ag / 23 11 0 Ag / 0 0 Ag /

60-80 N/E N/E 0 0 Ag / N/E

80-100 N/E N/E N/E N/E

100-120 N/E N/E N/E N/E

PN C L TS CS PN C L TS CS PN C L TS CS

0-20cm 25 63 0 Ag / 27 8 0 Ag / ? 8 0 S-Ar 3/2 0-20cm

20-40 26 31 0 Ag / 0 0 Ag / Ar-Ag4/6 20-40

40-60 0 0 Ag / 0 0 Ag / Ag 5/6 40-60

60-80 N/E N/E N/E 60-80

80-100 N/E N/E N/E 80-100

100-120 N/E N/E N/E 10 YR 100-120

N1080 E1040 N1080 E960 N1120 E1040

Observações: Sondadagens N1040 E1080, N1040 E960, N1040 E985 e N1000 E1040 não foi tirada a cor do solo Observações: Sondadagens N1030 E1000 e N1040 E1040 não foi tirada a cor do solo

N1040 E1080 N1040 E960 N1040 E985

N1080 E1000

N1000 E1040 N1040 E1040

N1000 E10000 N1000 E960 N1040 E1000

N1120 E1000 N1160 E1000 N1030 E1000

Observações: Sondagens realizadas em área de rocá abandonada

Sítio Associação Calderita Escavado em: agosto/2008

Coord. UTM (N1000 E1000): 20L 442601/9045002 (SAD 69) Local: Vila do Jamari, Municípo de Porto Velho, RO Principais drenagens: Rio Jamari, rio Candeias, Rio Madeira Área do Sítio: 2,5 ha

Espaçamento da malha de sondagens: 40x40m Sondagens Positivas

A área do montículo foi considerada ideal para a abertura de uma unidade de 2 x 1m (N1030/N1031 E1002), escavada com colher de pedreiro até os 60cm de profundidade (Figs. 47 a 49). Foi realizada uma sondagem no centro das duas unidades que confirmou o fim da camada arqueológica. Foram obtidos aproximadamente 2.400 fragmentos cerâmicos a partir da escavação dessas unidades.





Figura 47: Vista geral da unidade N1030/N1031 E1002 (Foto Manuel Arroyo-Kalin, 2008).



Figura 48: Perfil oeste da unidade N1030/N1031 E1002 (foto: Manuel Arroyo-Kalim, 2008).

As datações da unidade N1030/N1031 E1002 permitiram identificar dois episódios de ocupação do sítio Associação Calderita. Duas datas (RO-AC-54-1/55-1), entre 30 e 50cm, parecem indicar um mesmo período de ocupação, por volta de 1100 d.C. A outra data (RO- AC-53-1), entre 20 e 30cm, indica uma ocupação mais recente, próxima a 1350 d.C.

Sítio Nível Amostra NºBeta Forma

de Datação Material Datado Idade Convenci onal Calibragem2sigma Associação Calderita 2030cm RO-AC- 53-1 258150 AMS material orgânicode cerâmica 620 +/- 40 AP Cal AD 1280 to 1410 (Cal BP 670 to 540)  Associação Calderita 3040cm RO-AC- 54-1 258149 AMS material orgânicode cerâmica 980 +/- 40 AP Cal AD 990 to 1160 (Cal BP 960 to 790)  Associação Calderita 4050cm RO-AC- 55-1 258151 AMS material orgânicode cerâmica 940 +/- 40 AP Cal AD 1020 to 1200 (Cal BP 930 to 750)  

Tabela 21: Datações do sítio Associação Calderita.



Os mapas de densidade e cor do sedimento do sítio, feitos no programa Surfer, indicaramaexistênciadeumagrandeconcentraçãocerâmica(Fig.50).Asreocupaçõesdo sítio, no entanto, dificultam a interpretação desses mapas78. Uma hipótese indicaria uma única casa situada sobre a grande área de densidade do sítio. A outra, que parece mais coerente com o mapa, indicaria uma casa na frente da área com maior densidade, e os vestígiosmateriaisestariamnoentornodacasa(cf.SCHMIDTeHECKENBERGER,2009).



 





78 A solução para esse problema deveria ser a produção de gráficos Surfer referentes aos diferentes níveis de

ocupação (vide sítio Jacarezinho, abaixo). No entanto, falta nitidez para distinguir as diferentes ocupações. Além disso, como a unidade foi realizada em um montículo, mesmo que a unidade informasse de forma precisa os níveis artificiais para a comparação espacial, dificilmente esses níveis seriam espelhados no restante do sítio, fora do montículo.

4.3.3 Comentários

Chega-se a mais uma problemática que pode ser testada em estudos futuros: compreender o porquê da não identificação de sítios arqueológicos nas margens do rio Jamari entre a cachoeira de Samuel e o encontro desse rio com o Candeias79. Há três alternativas que

poderiam explicar essa ausência80: (I) o trecho do rio Jamari entre a barragem de Samuel e o encontro com o rio Candeias possui poucos moradores, i.e., baixo potencial para um levantamento extensivo como o proposto por esse projeto; (II) nesse mesmo trecho o rio Jamari segue encaixado no relevo, com grandes barrancos que dificultam ou impossibilitam a verificação de áreas potenciais, e (III) fatores culturais ou naturais desestimularam a presença densa de grupos pré-coloniais.

Uma possível resposta, congruente com a terceira alternativa, seria que o trecho do baixo Jamari entre a cachoeira de Samuel e a foz do rio Candeias representa uma espécie de

buffer zone entre os grupos do médio Jamari (Tradição Jamari) e os grupos do alto Madeira

(Subtradição Jatuarana). Segundo DeBoer (1981: 365), uma buffer zone é uma área desabitada que separa dois ou mais grupos. O autor deixa claro que a área é desabitada por pertencer a um contexto de terra de ninguém, um espaço que poderia ser utilizado por qualquer um dos grupos em questão, mas que não o é para que não haja uma competição direta pelo espaço. Uma buffer zone pode ser uma área para reduzir a interação e o conflito entre dois grupos competitivos e antagônicos por meio do simples distanciamento espacial. DeBoer (1981: 367) aponta que tal fenômeno teria ocorrido no rio Ucayali (alto Amazonas) durante o período pré-colonial, quando havia áreas separando os grupos da Tradição Cumancaya e os grupos da Tradição Caimito (TPA), e teria se repetido no período colonial, entre os grupos Kokama-Omágua (Tupi-Guarani?) e Shipibo-Conibo (Pano) (cf. TAMANAHA, 2012). Antes de explorar essa possibilidade, é vital apresentar os demais sítios amostrados.





79 Em duas outras oportunidades prospectamos esse segmento do rio (vide abaixo).

80 Sem perder de vista as palavras de Lathrap: “I would hold that negative evidence from rapid site surveys,

along routes which are presently more accessible, is not reliable. The failure of such initial surveys to find remains of a particular culture is not good evidence that people of that culture did not migrate through or occupy the region in question” (1968: 77, grifo do autor).