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2.6. İlgili Çalışmalar

2.6.1. Yurt İçinde Yapılan Çalışmalar

Paremos um instante para retomarmos o percurso traçado até aqui. Experiências oriundas da clínica psicanalítica sugerem a Freud que a compulsão à repetição pode entrar em atividade em determinadas situações, como no traumatismo e nas vivências de dor, a serviço de uma tendência do aparelho psíquico que seria anterior ao princípio do prazer: uma tendência à ligação das excitações sem a qual o aparelho não tem condições de funcionar no registro “prazer-desprazer”. Após assumir que a energia pulsional em

pulsões de autoconservação exerceriam pressão no sentido da morte; não reivindicariam a vida a qualquer custo, mas também não permitiriam o aniquilamento rápido da vida, movimento cego das pulsões de morte. Estariam, por assim dizer, de acordo com a idéia de que a tendência do organismo humano é o retorno ao inorgânico, mas desde que o organismo morresse de seu modo para, assim, alongar seu tempo de vida. Freud resgata a tese, revista a partir do conceito de narcisismo, de que as pulsões de autoconservação são de natureza libidinal. Retoma o desenvolvimento da teoria das pulsões e lembra que a observação analítica atentou para a regularidade com que a libido se retirava do objeto para o ego. O estudo do desenvolvimento libidinal das crianças, em sua primeira fase, teria revelado que o ego é o verdadeiro reservatório da libido. Disto ele conclui ser inapropriada a oposição original entre as pulsões do ego e pulsões sexuais. Agora iria falar em pulsões do ego versus pulsões de objeto, ambas de natureza libidinal.

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A incorporação das pulsões de autoconservação a Eros é feita com base na aplicação freudiana da teoria da libido à relação mútua entre as células. A libido, considerada a reserva para as atividades construtivas das células germinais, permitiria a Eros exercer sua função de ligação e de adesão das células somáticas. É da soma das quantidades de libido contidas na totalidade das células corporais que Freud deriva a libido narcisista − energia das pulsões de autoconservação − e, por meio do conceito de libido, aproxima as pulsões egóicas de Eros, atribuindo-lhe, ao lado das pulsões sexuais, seu caráter de ligação. Depois que o novo dualismo é introduzido, a expressão “pulsões do ego” apaga-se da terminologia freudiana.

estado livre habita o inconsciente e pressiona em direção à descarga, Freud supõe ser a pulsão repetitiva e a compulsão à repetição um dos traços mais arcaicos da natureza do pulsional. A introdução desta hipótese no domínio da biologia acaba por ampliá-la: tudo se passa como se a pulsão tendesse à repetição de um estado originário, visando sua própria extinção, como se ela visasse à inércia intrínseca da vida orgânica. Termos extraídos do campo da hereditariedade e da embriologia, como “pulsões orgânicas”, “compulsão orgânica a repetir”, aparecem no discurso freudiano. Existiria uma tendência da vida à regressar ao estado inorgânico por razões internas. Existiria, enfim, uma tendência da vida em direção à morte. A pulsão de morte agiria no interior do organismo, conduzindo-o para o estado inanimado e inorgânico, um estado de esvaziamento total de excitações, de a-tensão total.

Freud insiste no registro biológico como chave para a nova teoria. Mediante o estudo dos protozoários, o reconhecimento da pulsão de morte é buscado, juntamente com a validação da hipótese de que toda substância viva estaria fadada a morrer por causas internas. A retomada de trabalhos de alguns biólogos não permite, contudo, a extração de conclusões do problema da morte natural:271 ele descobre que as mesmas forças que conduzem à morte podem se ocultar nas forças que conduzem à vida. O autor tem em mãos uma hipótese, formulada com empréstimos da biologia, mas não passível de reconhecimento ou validação pelos estudos desta mesma disciplina. Como reconhecer a pulsão de morte e como validar a hipótese de que a substância viva estaria fadada a morrer por causas internas? Neste momento do texto, inicia-se um movimento para o qual gostaríamos de chamar atenção: a necessidade de encontrar argumentos que justifiquem e validem a hipótese das pulsões de morte. A insatisfação de ter diante de si uma teoria de difícil elucidação é expressa assim: “Dada a obscuridade que hoje envolve a teoria das pulsões, não seria bom rejeitar qualquer idéia que nos prometesse esclarecimento”.272 A teoria dualista é timidamente aproximada às formulações de E. Hering, para quem haveria dois processos na substância viva, um destrutivo e outro assimilatório. Mas Freud certamente não se contenta com esta aproximação.

No estudo do sadismo e do masoquismo ele busca um exemplo da atuação das pulsões de morte. É bem-sucedido, muito embora reconheça que nesses casos ela apareça deslocada. O estudo produz nele uma impressão mística com relação às pulsões

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Trabalhos de Wilhelm Fliess (1906), de Weismann (1882,1884, 1892), de Goethe (1883), de Hartmann (1906) e do biólogo americano Woodruff.

de morte.273 Então, continua em busca de argumentos que corroborem sua construção teórica a fim de fundamentar a idéia da dominação máxima e geral de tais pulsões. Retoma o princípio de constância como fundamento econômico do princípio do prazer, e reitera a hipótese do princípio de nirvana. É neste princípio, voltado para a eliminação da tensão da excitação interna, que ele encontra um dos mais fortes motivos para acreditar na existência das pulsões de morte.

Monzani (1989) salienta que a questão da morte atravessa de ponta a ponta o discurso freudiano como uma exigência que exprime uma de suas principais descobertas: a tendência à evacuação total. A emergência do tema da morte não é radicalmente nova no seu pensamento, e, nesse sentido, a introdução do conceito não promove uma verdadeira mudança na etapa final de seu pensamento. Ela não é fruto de pessimismo que eclodiu com os fatos dolorosos da grande guerra e de sofrimentos pessoais, continua o comentador. Se há pessimismo em Freud, então é preciso reconhecer que ele percorre toda a obra, porque o tema da morte também o percorre do início ao fim. As formulações são hesitantes e ambíguas e, apesar de serem colocadas às vezes claramente, não é possível extrair todas as consequências implícitas. “O essencial está em constatar que existe claramente uma exigência inquestionável (embora muitas vezes implícita) comandando a lógica do sistema, dadas as suas premissas e que implica o reconhecimento, como diz M. Shneider, de uma “finalidade essencialmente mortuária”, nesse primado radical da teoria”.274

Mesmo tendo resgatado o princípio de nirvana para justificar a pertinência de sua formulação, perto do final de Além do princípio do prazer, refletindo criticamente sobre as hipóteses apresentadas, Freud diz não se achar convencido da veracidade de suas teses e reitera a provisoriedade de sua teoria. Não reivindica o mesmo grau de certeza que reivindicou nos dois primeiros passos dados pela teoria das pulsões: a divisão entre pulsões sexuais e pulsões de autoconservação e a hipótese da libido narcísica e da libido de objeto. Ele explica que essas formulações resultaram da tradução direta da observação para a teoria. Diferentemente, a hipótese de Eros e das pulsões de morte, ainda que tenham se pautado na observação de fenômenos repetitivos, foi elaborada mediante a combinação de material concreto e material especulativo; combinação que, se feita repetidas vezes, tende a tornar os resultados de uma teoria cada

273 Ouçamos: “Esta concepção − de indicar um exemplo da pulsão de morte no sadismo e masoquismo –

está longe de ser evidenciada, e produz uma impressão francamente mística”. Além do princípio do

prazer, AE XVIII, p. 53. 274

vez menos fidedignos. É então que reconhece: “Podemos ter dado um golpe de sorte ou havermo-nos extraviado vergonhosamente”.275

A necessidade de trabalhar com uma linguagem figurativa, peculiar à psicologia profunda, teria exigido a descrição de processos aparentemente desnorteantes e obscuros, tal como uma pulsão ser expulsa por outra, etc. A substituição de termos psicológicos por expressões químicas ou fisiológicas não foi suficiente para diminuir as deficiências de sua exposição. O recurso à biologia contribuiu, do mesmo modo, para aumentar a incerteza da especulação, por esta ser, nas suas palavras, “uma terra de impossibilidades ilimitadas”. A biologia poderia tanto confirmar as hipóteses psicanalíticas como rejeitá-las. Reunidas, essas razões conduziram o fundador da psicanálise a olhar criticamente e a duvidar da validade de suas hipóteses. Não é por acaso que, no último escrito de teor sintético, ele reconhece: “Depois de muito hesitar e vacilar, decidimos presumir a existência de apenas duas pulsões básicas, Eros e a

pulsão destrutiva”.276

Hesitar, vacilar... Parece-nos que uma dificuldade significativa encontrada na validação da hipótese da pulsão de morte relaciona-se a um traço dessa pulsão sobre o qual nos centraremos a partir de agora. Esse traço nos conduzirá diretamente às contribuições de algumas formulações de Freud acerca da cultura para a elaboração deste conceito. Estamos falando de um aspecto da pulsão de morte que difere da pulsão de vida e que é parcialmente reconhecido em Além do princípio do prazer. Freud empenha-se em encontrar um exemplo da pulsão de morte nos fenômenos do sadismo e do masoquismo e encontra, no princípio de nirvana, o argumento mais forte para acreditar na existência dessa pulsão. Com exceção da referência às perversões e ao princípio regulador do aparelho psíquico, inexiste, no texto, outras tentativas de se buscarem exemplos de atuação da pulsão de morte, e, tampouco, uma justificativa das razões pelas quais ela precisaria ser exemplificada. Com relação a este aspecto da pulsão de morte que difere de Eros e que tanto nos interessa, Freud dirá o seguinte em o “Mal-estar...”: “Não era fácil, contudo, averiguar a atividade da pulsão de morte que havíamos suposto. As exteriorizações de Eros eram mais visíveis e ruidosas; poder-se-ia presumir que a pulsão de morte operava silenciosamente dentro do ser vivo no sentido de sua destruição”.277

275Além do princípio do prazer, AE XVIII, p. 56. 276

S. Freud, Esboço de psicanálise (1940), AE XXIII, 1989, p. 146. 277O mal-estar na civilização, AE XXI, p. 115.

Uma diferença marcante entre as expressões de Eros e das pulsões de morte é reconhecida aí: as atividades do primeiro grupo são mais facilmente apreensíveis do que as do segundo grupo. Das pulsões de morte se apreende o silêncio apenas. Essa idéia é reiterada, uma vez mais, em O ego e o id (1923): “As pulsões sexuais ou Eros são as pulsões mais chamativas, mais fáceis de notar e de ter notícias. [...] Na segunda classe de pulsões encontramos dificuldades para pesquisá-la”.278 Finalmente, no “Esboço...” encontra-se uma explicação mais detalhada a respeito das manifestações das duas pulsões. O acompanhamento dos destinos da libido se daria mais facilmente do que o acompanhamento dos destinos da energia da pulsão de morte.

Isso − o acompanhamento − é mais difícil com a pulsão de destruição. Enquanto esta última produz efeitos no interior como pulsão de morte, permanece muda; só aparece ante nós quando se volta para fora como pulsão de destruição. Isso advém de uma necessidade objetiva para a conservação do indivíduo. O aparelho muscular serve a esse intuito. Com a instalação do superego quantidades consideráveis da pulsão de agressão são fixadas no interior do eu e ali operam autodestrutivamente. Este é um dos perigos para a saúde com que os seres humanos defrontam em seu caminho para o desenvolvimento cultural.279

A ação da pulsão de morte é descrita como silenciosa, uma atividade que não deixa vestígios. Trata-se de uma energia “muda”, que se encontra, nas palavras de Ricoeur, em franca oposição ao “clamor” da vida. Essa defasagem entre a pulsão de morte e suas expressões, “entre o desejo e a palavra − significado pelo epíteto ‘mudo’ − nos adverte de que a semântica do desejo já não tem aqui o mesmo sentido. Ou seja, o desejo de morte não fala como o desejo de vida. A morte trabalha em silêncio”.280 Com relação ao problema da representabilidade da pulsão de morte, Monzani sublinha que toda pulsão tem seu primeiro lugar de inscrição no inconsciente, e, no inconsciente − Freud teria sempre insistido nesse ponto −, não há negação. O operador não é, por definição, da ordem do pensamento e da linguagem, do sistema secundário.

Assim, a idéia de morte, sendo essencialmente negativa (não-vida, não-viver), não tem possibilidade de se inscrever no inconsciente. Nesse sentido, a pulsão de morte seria o irrepresentável por excelência. [...] Tudo parece indicar que algo muito mais radical está sendo expresso com o termo ‘pulsão de morte’. Se a pulsão de morte é aquilo que está na raiz de todo pulsional, se ela é o mais pulsional da pulsão, talvez seja preciso concordar que esse elemento escapa tanto à consciência quanto ao inconsciente, que desses dois sistemas apenas apreendemos

278O ego e o id, AE XIX, p. 41.

279Esboço de psicanálise, AE XXIII, p. 149. 280

os efeitos daquela raiz, efeitos de uma finalidade arcaica e cega, uma espécie de força bruta e mecânica que se instila através de seus derivados.281

A opinião de Laplanche (1992) vai na mesma direção: a pulsão de morte seria a pulsão em estado bruto, pulsão sem representação fixa de alvo nem de objetivo, uma espécie de força cega autodestruidora, sendo por isso mesmo mais um princípio, um modo de funcionamento da força psíquica, do que uma verdadeira pulsão com seus alvos e objetos específicos.282

É Mezan (1997) que afirma que se a pulsão de morte deve poder se afirmar como conceito é preciso que dê provas do seu valor heurístico, servindo como princípio para interpretar ao menos uma parte dos fenômenos sobre os quais a psicanálise se debruça. Freud se vê na contingência de buscar um exemplo − não uma confirmação − da atividade da pulsão de morte. A cultura será o espaço privilegiado na identificação de tais exemplos. Será fundamentalmente pela via de sua exteriorização que essa pulsão se insinuará. É como “pulsão destrutiva” que a pulsão de morte se fará mais visível e será no domínio da cultura e das relações intersubjetivas que ela aparecerá mais amplamente. Nela, Freud discriminará a maior parte dos fenômenos destrutivos e agressivos produzidos pelo homem. Psicologia das massas e análise do ego (1921), O futuro de

uma ilusão (1927), O mal-estar na civilização (1930) e O por quê da guerra (1933)

revelam uma imensa variedade de formas de expressão das pulsões de morte. Nesses textos, as duas pulsões assumem formas antes não vistas, dada a especificidade dos contextos. Eles apresentam a pulsão de morte operando na totalidade dos fenômenos sociais e da vida compartilhada e, por isso, favorecem a ampliação de seu sentido. A cultura parece ser o espaço privilegiado para Freud reunir elementos que lhe permitam reivindicar a universalidade desse conceito.