• Sonuç bulunamadı

Chegamos, finalmente, a Além do princípio do prazer (1920) e à formulação da pulsão de morte. Na introdução do capítulo, anunciamos a tese em favor da qual nos propomos a argumentar, de que a concepção freudiana de cultura contribuiu decisivamente para o desenvolvimento do conceito psicanalítico de pulsão de morte. Sustentamos que a relevância que adquire para Freud a noção de destrutividade nas análises ditas culturais o influenciou na teorização da pulsão de morte. Centraremo-nos, a partir deste momento, na definição do conceito e nas elaborações acrescentadas a ele. Uma exposição detalhada de Além do princípio do prazer (1920) servirá de base para discutirmos as relações entre a pulsão de morte e algumas teses desenvolvidas em

Psicologia das massas e análise do ego (1921) e O mal-estar na civilização (1930) e

continuarmos insistindo na pertinência de nossa hipótese de trabalho.

O texto inicia-se com uma discussão dos fatores tópicos e dinâmicos do funcionamento do aparelho psíquico que, na opinião de Freud, haviam sido até então demasiadamente explorados, ao contrário das operações do aparelho mental a partir do ponto de vista econômico. “Exposição metapsicológica” designa uma exposição que aprecia o aspecto econômico do aparelho psíquico, baseada em suposições especulativas que descrevem e explicam os fatos da observação diária no campo psicanalítico. Como ponto de partida, Freud retoma a descrição do princípio do prazer, que postula a existência de uma tendência do aparelho psíquico em manter a excitação sempre no nível mais baixo possível ou, no mínimo, em nível constante. Esse princípio regularia todos os eventos mentais do psiquismo e sentiria o aumento das quantidades de excitação como desprazer e sua redução como prazer. As formas de produção de desprazer decorreriam da substituição do princípio de prazer pelo princípio de realidade, do processo de desenvolvimento das pulsões e conseqüente repressão pelo ego, e da percepção externa que indicaria perigo. Os dois princípios reguladores do aparelho, o princípio de prazer e o princípio de realidade, explicariam todas as formas de produção de desprazer, com exceção do desprazer gerado pela percepção externa.

O segundo capítulo tem na noção de repetição o seu foco. São considerados resultados de experiências repetitivas alguns aspectos das brincadeiras infantis, a recorrência dos sonhos na neurose traumática, que repetem momentos de dor, e a repetição de experiências na transferência que levam os pacientes a interromperem o tratamento. Elas sugerem a Freud a existência de experiências que não engendram prazer e a idéia de que a repetição se encontra em uma posição exatamente oposta à posição do princípio de prazer.256 Após a reunião de experiências que repetem situações desprazerosas, a compulsão à repetição, presente nestes fenômenos, é situada como mais elementar, mais originária e mais pulsional do que o princípio de prazer que ela destrona;257 uma conclusão que nos parece bastante enigmática, pois o texto não esclarece a passagem operada no raciocínio de Freud dos fenômenos clínicos repetitivos à conclusão da existência de um movimento repetitivo mais elementar que o princípio de prazer.

Monzani atenta para uma estratégia argumentativa, própria dos textos teóricos freudianos, que parece ter sido utilizada aqui:

O recurso utilizado por Freud em Além do princípio do prazer não é incomum em sua obra. [...] A estratégia parece ser a de que o argumento singular, por si só, nada prova, só adquirindo valor quando se insere em uma série. É a série enquanto tal que tem valor probatório. Em si mesmas as neuroses traumáticas e suas consequências nada provam. Nem as brincadeiras e os jogos infantis. Nem essas estranhas características do neurótico, que, no processo de análise, insistem em, no lugar de rememorar, repetir situações. Nem as pessoas acometidas pela neurose do destino, se consideradas isoladamente, provam coisa alguma. Nenhum desses fatos, tomados isoladamente, levam a ponto algum, mas a relação, ou melhor, seu arranjo, não deixa de ser

256

“Como explicar os fenômenos da neurose traumática ou a reprodução de situações essencialmente conflitivas na relação transferencial? Tais acontecimentos não engendram o prazer, e, no entanto, os homens se obstinam em recriá-los com requintes de precisão. O reprimido esforça-se por se expressar, apesar do desprazer experimentado a cada nova repressão, e daquele que adviria da realização desimpedida das exigências pulsionais. [...] Na terapia, se o paciente repete apesar das resistências, a repetição se encontra evidentemente numa posição oposta à do Princípio do Prazer. Mais precisamente, ele repete por causa das resistências: elas bloqueiam o acesso à linguagem e, portanto, à consciência do material reprimido”. Mezan, Freud: a trama dos conceitos, p. 254.

257

O método criado para vencer a compulsão à repetição não cumpriu o objetivo da análise de tornar o inconsciente consciente, comenta Freud neste mesmo texto. Diante deste fenômeno, a pessoa não consegue recordar todo o reprimido e, muitas vezes, sua parte essencial. Assim, não adquire o sentimento de convicção com as construções e repete as experiências passadas ao invés de rememorá-las. A alusão a

Recordar, repetir e elaborar (1914) é clara. No entanto, Freud sintetiza algo novo sobre a repetição: o

fato de que a reprodução emerge com finalidade não desejada. Esta repetição, cujo conteúdo é sempre um fragmento da vida sexual infantil e, portanto do complexo de Édipo e de suas ramificações, se dá na transferência. Quando isso ocorre, a neurose é substituída pela neurose de transferência e o médico deve se esforçar ao máximo para reproduzir o que puder como recordação. Ele deixa o paciente repetir e o estimula a refletir sobre o passado esquecido. Isso conduziria à sensação de convencimento, ampliando as chances de êxito do tratamento.

ilustrativo. Em todos os casos apontados trata-se de uma atividade que não parece visar

diretamente o prazer.258

Esta conclusão não contradiz a hipótese do princípio do prazer. Freud presume a existência de um princípio mais fundamental, anterior e independente do princípio que regularia as experiências prazerosas. Da análise da estrutura e gênese do aparelho psíquico, da noção de traumatismo e de dor, resulta uma conclusão acerca de um mecanismo do trabalho mental que se instauraria no momento em que o princípio de prazer estivesse momentaneamente fora de ação. Este trabalho psíquico é, mais tarde, vinculado à noção de pulsão de morte.

A conclusão de que haveria uma atividade do aparelho psíquico que, sem ser contraditória com o princípio de prazer, seria independente dele é retirada de um raciocínio que tem início com a análise econômica das operações mentais conscientes e do impacto de um trauma no psiquismo. Em termos metapsicológicos, diz Freud, a consciência é uma função do aparelho que produz percepções de excitações provenientes do mundo externo e oriundas de sentimentos de prazer e desprazer.259 O contato da consciência com os estímulos externos a transforma, de modo que ela só se desenvolve para receber estímulos. Os traços permanentes de excitação passam a existir conforme a resistência contra a qual ela enfrenta diminui. Isso é uma facilitação, esclarece Freud, traços de memória permanentes. Para esclarecer como, geneticamente, uma organização pode sobreviver e se estruturar corretamente, e de que maneira a gênese biológica é um modelo para pensar a genealogia e a constituição do aparelho psíquico, Freud analisa a vesícula indiferenciada, que seria estimulada por fora e por dentro.260

A consciência, com seu próprio estoque de energia móvel, protegeria os sistemas mais profundos por meio de um escudo protetor contra os estímulos do mundo externo; sua superfície externa seria inorgânica e funcional e agiria como uma membrana especial resistente a estímulos. A dor e o traumatismo externo colocariam o sistema defensivo em ação, com a diferença de que a dor seria uma efração, de extensão

258

Monzani, Freud, o movimento de um pensamento, p. 155.

259

A consciência e o sistema perceptivo se localizam na linha fronteiriça entre o mundo interno e o mundo externo e entre outros sistemas. Tornar-se consciente e deixar traços de memória não pertencem ao mesmo sistema; na verdade as excitações se tornam conscientes no sistema Cs mas deixam seus traços nos sistemas que vem a seguir dele.

260

Laplanche mostrou à exaustão, segundo Monzani, a ambigüidade dessa montagem de Freud − acerca da vesícula indiferenciada − na qual não se sabe se está se falando de um organismo simples, do sistema nervoso, do aparelho psíquico ou do ego. De qualquer forma, o acento nessa discussão recai sobre o sistema de defesas que existiria nesta organização contra estímulos externos e internos.

limitada, do escudo protetor e o traumatismo teria uma quantidade de estímulos suficientemente grande para romper a barreira e ultrapassar o escudo. Nos dois casos, com magnitudes de energias distintas, o escudo liberaria energia em estado livre, as anticatexias, que bloqueiam e imobilizam a energia invasora. Haveria um encontro da energia livremente móvel, desligada, que tende a escoar pelo aparelho, com a energia mobilizada para bloqueá-la, fixá-la e ligá-la. Para se desvencilhar das quantidades, o aparelho vincularia a energia no sentido psíquico a fim de dominá-la; o que equivale a ligá-la aos demais focos energéticos existentes com a finalidade de expeli-la controladamente, obtendo o alívio da tensão acumulada. A dominação prévia deste volume de excitação é considerada a condição para que o princípio de prazer entre em atividade. Por meio da repetição, o organismo obteria o controle exigido.261 Frente a uma invasão energética, a preocupação do aparelho é a de vincular e imobilizar essa energia para poder realizar outras funções. Do mesmo modo que nos casos de dor e de traumatismo externo, o caso da neurose traumática exigiria do aparelho a tentativa de operar esta ligação, deixando o princípio de prazer de lado, momentaneamente.

Distúrbios semelhantes à neurose traumática seriam igualmente causados pela passagem das pulsões pelo escudo protetor. As moções que partem das pulsões produzidas no interior do organismo são descritas como energias móveis que tendem à descarga e não obedecem ao tipo de processo nervoso ligado: afetam o sistema inconsciente e obedecem ao processo primário, que movimenta a energia livremente móvel. O processo secundário movimenta a energia ligada ou tônica. A tarefa dos estratos superiores do aparelho consistiria na ligação das excitações das pulsões que entram em operação no processo primário. O fracasso dessa ligação resulta em “[...] uma perturbação análoga à neurose traumática; só após uma ligação lograda se poderia estabelecer o império irrestrito do Princípio do Prazer (e sua modificação em Princípio de Realidade)”.262 As experiências da vida sexual infantil pertenceriam a um setor do aparelho psíquico que não estaria vinculado ou dominado e, por isso, sucumbiriam à compulsão à repetição. O fato de o paciente repetir momentos dolorosos do seu passado no contexto da terapia significaria que o conteúdo repetido não foi ligado, não foi acolhido pelo ego e escapou do processo secundário. Dos três exemplos que denotam a atividade da compulsão à repetição − as brincadeiras infantis, os sonhos na neurose

261

Os sonhos que reproduzem o trauma em pessoas com neurose traumática seriam tentativas de restaurar o controle dos estímulos pela liberação de angústia, que, devido à sua ausência, resultou na neurose.

traumática e a repetição transferencial −, é este último que engendraria uma atividade em franca oposição ao princípio do prazer.263 Na repetição transferencial operaria uma atividade autônoma, sem qualquer relação com este princípio. Disso Freud conclui que a compulsão à repetição seria, não apenas independente do princípio de prazer, mais primitiva e originária que este, como também estaria em oposição a ele. O princípio de prazer, para começar a operar, dependeria, então, de uma atividade de ligação e de vinculação da energia móvel, que precisaria ser descarregada pelo aparelho. A bindung, atividade que ligaria a energia invasora, estaria, desta maneira, além deste princípio, preparando o terreno para o domínio irrestrito deste último.

Freud atribui um estatuto universal às pulsões por meio da observação de como atuam na compulsão à repetição. A pulsão aparece, no domínio psíquico, como uma exigência de trabalho que pressiona no sentido da descarga através de um objeto apropriado.

Se a repetição é uma característica da mente inconsciente é porque a pulsão é nela mesma repetitiva. Ou: se uma representação assume a forma de uma compulsão à repetição é porque o representante pulsional ao qual ela se liga é repetitivo. De onde Freud postula que o regime normal da pulsão em estado livre é a repetição. E se a compulsão à repetição manifesta algo que pertence, que é um atributo inerente à própria pulsão, então devemos admitir que o automatismo de repetição revela uma característica fundamental da pulsão, muito mais arcaico e repetitivo, algo que a faz ser uma tentativa constante e incessante de repetir um estado originário (visando a sua própria extinção).264

Recorrendo à biologia para fundamentar seus pontos de vista, Freud, que antes via a pulsão como um fator que impele para a mudança e o desenvolvimento, reconhece agora sua natureza conservadora. Mostra que a compulsão orgânica a repetir está presente nos fenômenos da hereditariedade e nos fatos da embriologia, e elabora a hipótese segundo a qual o desenvolvimento orgânico foi causado por influências externas e perturbadoras.265 Supõe que as entidades vivas, desde seu início, não tinham o desejo de mudar, mas sempre o de repetir o mesmo curso da vida. A enganosa aparência de tendência à mudança e ao progresso não passaria do empenho das pulsões

263

Nas brincadeiras infantis, esta atividade trabalha em conjunto com o princípio do prazer. No caso do sonho na neurose traumática, ela prepara para a instauração desse princípio. “É desta forma que o quebra- cabeças pode ser ordenado: na neurose traumática, em que não houve repressão, a excitação tem que ser dominada pela repetição, que portanto atua a serviço do Princípio do Prazer; mas nas neuroses de transferência, cuja pré-condição é a repressão, o que se repete é a própria pulsão, impedida de se manifestar de outra forma pela barreira repressiva”. Mezan, Freud: a trama dos conceitos, p. 254.

264

Monzani, Freud, o movimento de um pensamento, p. 187.

265

Ele cita, por exemplo, um germe de animal vivo que recapitula as estruturas das formas das quais se originou ou regenera um órgão perdido fazendo outro exatamente igual.

orgânicas em alcançarem uma antiga meta através de velhos e novos caminhos. Ele indaga: Como pressupor que a meta da vida é um estado nunca alcançado antes tendo em vista a natureza conservadora das pulsões? Impossível: a meta da vida é alcançar um estado antigo, inicial, que o vivo abandonou e ao qual aspira regressar. Neste momento de seu raciocínio, ele finalmente anuncia a primazia da morte: “Se admitirmos que tudo o que é vivo morre, regressa ao inorgânico por razões internas, não podemos dizer outra coisa que isto: A meta de toda vida é a morte; e, retrospectivamente; O inanimado

existiu antes do vivo”.266

As pulsões tenderiam a conservar um estado anterior e a retornar a ele, restaurando um estado primitivo de coisas. Nesse sentido, o objetivo de toda a vida seria a morte, e seu prolongamento decorreria de influências externas que desviariam o curso vital do organismo rumo à morte. Na medida em que a regressão conduziria o ser vivo à condição inorgânica da qual partiu, a morte repetiria o estado anterior ao nascimento. Inferir a pulsão de morte como inerente a toda matéria viva não é mais que um passo, sublinha Mezan, “[...] e Freud o dá mediante a consideração de que, se todo organismo morre necessariamente por causas internas, a morte deve ser uma possibilidade inscrita na própria trama da existência, de modo que o clamor da vida se dirige inexoravelmente para a paz dos cemitérios”.267 Logo, é recorrendo à teoria do aparelho psíquico e às hipóteses biológicas que Freud fundamenta o conceito de pulsão de morte.268

A fim de explicitar as modificações que resultaram na segunda teoria das pulsões, o autor retoma a primeira teoria e refere ter encontrado, nas pulsões de autoconservação, elementos para caracterizar as pulsões de morte. Contudo, ele muda de direção em seguida e incorpora as pulsões de autoconservação às pulsões de vida.269

266Além do princípio do prazer, AE XVIII, p. 38. 267

Mezan, Freud: a trama dos conceitos, p. 260.

268

Em O problema econômico do masoquismo (1924), ele amplia sua hipótese e passa a se referir ao termo “pulsão de morte” como a parcela da pulsão que se dirige primariamente para o interior. A outra parcela, secundariamente voltada para o exterior, torna-se um derivado dela, e é denominada “pulsão de destruição”, “pulsão de dominação” ou “vontade de poder”. Esta idéia encontra-se apenas sugerida em

Além do princípio do prazer, e somente quatro anos depois é formulada dessa maneira. O masoquismo

deixa de ser uma reversão do sadismo para o próprio ego e se torna o resíduo da destrutividade da pulsão de morte que permaneceu no interior do ego. O sadismo, por sua vez, seria a parte da pulsão de morte lançada sobre os objetos exteriores.

269

Vejamos, rapidamente, como é feita esta manobra teórica: a hipótese de uma tendência natural do organismo vivo para a morte contradiz a idéia de que o organismo deve manter sua própria existência frente a qualquer obstáculo, base da hipótese das pulsões de autoconservação. Freud chega a um meio termo entre as duas formulações: ao invés de abandonar a hipótese da autoconservação, o que seria impossível tendo em vista sua relevância desde os primórdios da teoria na explicação da conservação do indivíduo, ele leva às últimas consequências a tese especulativa de que a pulsão tende a restabelecer o estado anorgânico, e redefine as pulsões de autoconservação como pulsões parciais, que garantiriam ao organismo seu próprio caminho para a morte. Sujeitando-se à função das pulsões em estado livre, as

As pulsões sexuais passam a ser vistas como expressão de um princípio mais profundo. O caminho de desenvolvimento para a morte natural não seria percorrido por todos os elementos que compõem o corpo dos organismos mais elevados. As células germinais, com suas disposições herdadas e adquiridas, passariam por ciclos de desenvolvimento e término e, ao final, uma parte de sua substância seria levada ao fim, ao passo que a outra parte seria revertida como germe residual novo. As pulsões sexuais estariam por detrás deste processo, fazendo que as células trabalhassem contra a morte da substância viva e a favor do alongamento do tempo de vida; elas são denominadas pulsões de vida, pulsões de natureza conservadora e que tendem à ligação, adiando o término da existência. A hipótese da libido narcisista é retomada e o conceito de libido é estendido às células individuais. As pulsões sexuais são transformadas em Eros, que procura reunir e manter unidas as partes da substancia viva. As duas pulsões se achariam lutando uma contra a outra, desde o início.270