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1. SAÇ YIKAMA

1.7. Yumuşak Sular

A Constituição Federal estabelece, em seu artigo 205: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

O artigo 41116, da Lei de Execução Penal, também prioriza o estudo como direito.

115 BITENCOURT, Cezar Roberto. Falência da pena de prisão: causas e alternativas. 4ª ed. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 4ª ed. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 60.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, no mesmo sentido, preconiza, no artigo XXVI:

1. Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito. 2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.

Se assim é, o Estado também comete ilícito civil se não disponibiliza educação aos sentenciados, especialmente àqueles que, embora desejem prosseguir seus estudos, não obtêm êxito, uma vez que na unidade prisional em que estão custodiados, faltam meios para o exercício deste direito.

Por isso afirma-se que o Estado é o responsável por dizer o direito. É vedada a justiça privada, muito embora, em diversas situações, no âmbito da execução penal, ela ocorra, mas nunca em desfavor do Estado.

Vale a reflexão: em entrevista concedida ao Jornal A Tarde (17/02/2007), a Secretária da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Estado da Bahia, em Salvador, Marília Muricy Machado Pinto, afirma:

É inconveniente separar o preso, levando-o para um ambiente em que ele perde a conexão com a família e o meio social, porque ele vai criar vínculos afetivos com a população carcerária [...] Cabeça vazia é oficina do demônio. É preciso dar trabalho para eles, digno, remunerado, que garanta inclusive sua saída direta para o mercado de trabalho. No Brasil, esse tipo de ação ou é inexistente ou, quando ocorre, dificilmente está programada para preparar a saída do preso. Para que isso se efetive, é preciso, obviamente, que se tenha uma política carcerária que garanta a dignidade do preso em todos os sentidos, desde a prática de atividade física até o acesso ao trabalho profissionalizante. Tudo isso por uma questão fundamental: a necessidade de individualizar a pena. Sempre se diz isso. E nunca se faz. É preciso criar a consciência social de que o respeito à dignidade do preso e a preparação para o retorno à sociedade são de interesse de todos. Não se trata apenas de praticar um gesto humanitário – o que, por si só, já seria um treinamento importante, porque a questão ética não pode ser esquecida. Mas do ponto de vista pragmático, a sociedade está trabalhando contra si mesma quando joga o preso no presídio e o abandona.

A prisão é o único lugar em que o delinquente tem à sua inteira disposição fatores que podem ensejar-lhe o aumento gradativo da delinquência: ociosidade, cofre do ódio em face da violação dos seus direitos e pessoas envolvidas com o crime e que vivem do crime.

O isolamento, por si só, não recupera ninguém. Se o fizesse, a grande maioria dos encarcerados não voltaria para lá, jamais. É um tempo de pura expiação, sem quaisquer esperanças para se alcançar um meio de vida diferente do já conhecido.

Jeremy Bentham bem esclarece isso, ao afirmar que

Os presos saem dali para serem impelidos outra vez ao delito pelo aguilhão da miséria, submetidos ao despotismo subalterno de alguns homens geralmente depravados pelo espetáculo do delito e o uso da tirania. Esses desgraçados podem ser sujeitos a mil penas desconhecidas que os irritam contra a sociedade, que os endurecem e os fazem insensíveis às sanções. Em relação à moral, uma prisão é uma escola onde se ensina a maldade por meios mais eficazes que os que nunca poderiam empregar-se para ensinar a virtude: o tédio, a vingança e a necessidade presidem essa educação de perversidade.117

Os direitos fundamentais dos presos devem ser garantidos para se ter minimamente respeitada sua condição de ser humano no contexto prisional.

Faz-se imprescindível a adoção do conceito do direito constitucional para que se alcance, efetivamente, a garantia dos direitos fundamentais.

Ensina Maria Helena Diniz que o direito constitucional revela-se como o

Conjunto de normas jurídicas atinentes à organização político-estatal nos seus elementos essenciais, definindo o regime político e a forma de Estado e estabelecendo os órgãos estatais substanciais, suas funções e relações com os cidadãos, ao limitar suas ações mediante o reconhecimento e a garantia de direitos fundamentais dos indivíduos de per si considerados ou agrupados, formando comunidades.118

Se as autoridades constituídas pela própria Constituição Federal deixam de observar e fazer cumprir as leis e/ou eximem-se de sua responsabilidade quanto a fiscalizar aqueles que, igualmente e em suas instâncias, deveriam fazê-lo e se negam, porventura não seriam elas,

117 BENTHAM, Jeremy. Princípios de legislación y jurisprudencia; extractados de las obras del filósofo

inglés J. Bentham por Francisco Ferrer y Vall. Imprenta de Tomás Jordán, 1934, p. 51. (CIDADE E EDITORA)

118 DINIZ, Maria Helena. Dicionário jurídico. 2ª ed. re., atual. e aum. São Paulo. Saraiva, 2005, v. . Volume 2. 2ª ed. rev., atual. e aum. São Paulo: Sraiva, 2005, p. 170.

tanto quanto aqueles que se encontram encarcerados dentro do sistema prisional, tidas como condenáveis e sujeitas à aplicação da lei?

Qual a diferença entre um e outro grupo? Vale a reflexão: não é possível conceituar uma pessoa, de quem se avaliou os valores, como sendo meio ética. Ou se é ético, ou não se é ético. O mesmo raciocínio vale para as questões que versam sobre a observância da lei: todos os que não a observam, são indistintamente réus, mesmo que investidos do poder.

Aliás, a investidura do poder deveria ser uma das agravantes no momento do julgamento desses infratores, justiça que, obviamente, não se concretiza em nosso país.

3 – CONSIDERAÇÕES QUANTO À RESSOCIALIZAÇÃO E REINSERÇÃO DO SENTENCIADO NA SOCIEDADE

A prisão é uma lixeira humana, um lugar de horror, um lugar de aniquilamento do homem, de aprisionamento do ser, além da constatação óbvia de que a prisão não

ressocializa, não reeduca e contribui muito para a reincidência.

Vania Conselheiro Sequeira

A prisão é um mundo isolado da sociedade em que imperam regras próprias. Uma vez nesse lugar, rompem-se os vínculos familiares, profissionais, da vida como um todo; sozinho, o interno inicia uma jornada descendente que, dia a dia, saqueia-lhe o que resta de humanidade.

Alguns chamam esse processo de prisionização: os internos adquirem hábitos e valores condizentes com o ambiente prisional, cuja ética e moral diferem dos valores socialmente incentivados. O processo de institucionalização desenvolve-se em várias etapas, até alcançar desculturamento (Goffman, 1961), uma ruptura com a cultura de fora da prisão para melhor uso de estratégias para domesticação. No início, temos o processo de admissão, de enquadramento, rupturas com os papéis desempenhados lá fora, barreiras entre o interno e externo da prisão. A rotina exerce uma função de controle e domesticação, o controle do espaço que o sujeito pode ocupar, de seu tempo, de forma que haja disciplinarização do corpo pelo horário e pelas atividades impostas a ele, com uma vigilância contínua dos agentes de segurança e dos outros presos. A submissão à instituição aparece nas pequenas coisas: horário de acordar, dormir, comer, trabalhar, estudar. Os testes de obediência também são poderosos; são marcados, inicialmente, pelos funcionários que dão as boas vindas e transmitem as regras do local; sabemos que esses rituais incluem a nudez para inspeção e

higienização dos corpos, além de surras que demarcam quem manda e quem deve obedecer. Depois, temos as boas vindas dos presos entre si, diferenças entre grupos, acertos de contas vão dar o tom da vida do recém-chegado. A perda do nome é outra forma de domesticação do eu; a substituição do nome por um número de matrícula e por apelidos é uma estratégia eficaz de despersonalização, somada à perda de objetos particulares, que não são oficialmente permitidos dentro das prisões (com algumas exceções). A perda de controle da imagem pessoal pelo uso de uniformes, cortes de cabelos padronizados e marcas no corpo confirmam a submissão. A humilhação verbal e corporal também faz parte da situação cotidiana da

mortificação do eu. [...] Há uma avaliação do bom comportamento do preso, o que lhe dá o direito de sair da prisão antes do cumprimento integral de sua pena pelo regime progressivo de pena; com isso, temos uma reorganização do eu com respostas de ajustamentos à situação institucional. Surge um novo homem,

desenraizado, filho do sistema prisional.119

Para se considerarem quaisquer formas de ressocialização do Sentenciado, é necessário e fundamental pautar-se pela ética.

119 SEQUEIRA, Vania Conselheiro. Vidas abandonadas: crime, violência e prisão. São Paulo: EDUC: FAPESP, 2011, p. 44-45.

De acordo com a filosofia, entende-se como ética:

a) Estudo filosófico dos valores morais e dos princípios ideais do comportamento humano; b) deontologia; c) ciência dos costumes ou moral descritiva (Ampère); d) conjunto de prescrições admitidas por uma sociedade numa dada época; e) ciência que tem por objeto a conduta humana; etologia; etografia; f) ciência que toma por objeto imediato o juízo de apreciação de atos; juízo de valor relativo à conduta (Lalande); g) ciência do comportamento moral do ser humano no convívio social (Geraldo Magela Alves); teoria ou investigação de uma forma de comportamento humano.120

Embora os Sentenciados tenham praticado condutas típicas, consideradas desprezíveis pela sociedade, nem por isso a própria sociedade e, muito menos, o Estado podem se portar da mesma maneira.

Sob essa perspectiva, quais as medidas adequadas, jurídicas e moralmente corretas para se adotar em face do Sentenciado? É momento de lançarmos mão do conceito de ética que estivemos anteriormente nos dedicando a definir.

Pode-se afirmar que a ética tem por objetivo dar o contorno do que se entende por bom ou ruim para a sociedade e, em regra, de forma absoluta.

Dessa forma e sem embargo de entendimento contrário, a ética tem por escopo o saber agir com todos os integrantes da sociedade, inclusive com os Sentenciados. Sob seu primado, as pessoas devem se responsabilizar por eventuais danos que provoquem ao próximo. A ética transcende o apenas lidar com as questões de bem e mal, certo e errado. Antes, ocupa-se com o discernimento sobre que conduta adotar ao agir.

A nosso ver, data venia, a questão crucial que a envolve é saber o que se apreende com determinada prática considerada certa ou errada, justa ou injusta, boa ou má. Como cada indivíduo concebe valores diferentemente dos demais, esse é um problema que ocorre quando se estuda a ressocialização do sentenciado.

A experiência de cada um faz com que seu posicionamento diante da vida seja desta ou daquela forma, sendo certo que a ética liga-se ao subjetivismo.

Quando se trata do Sentenciado, vale relembrar o disposto nas Regras Mínimas de Tratamentos de Reclusos, que preceitua:

59. Nesta perspectiva, o regime penitenciário deve fazer apelo a todos os meios terapêuticos, educativos, morais, espirituais e outros e a todos os meios de assistência de que pode dispor, procurando aplicá-los segundo as necessidades do tratamento individual dos delinquentes.

60. 1) O regime do estabelecimento deve procurar reduzir as diferenças que podem existir entre a vida na prisão e a vida em liberdade na medida em que essas diferenças tendam a esbater o sentido de responsabilidade do detido ou o respeito pela dignidade da sua pessoa.

Em se tratando de seres humanos, mesmo que tenham cometido fatos típicos, em qualquer estágio de desenvolvimento, vale consignar as considerações de Fernando Savater, citado por Jorge Pinheiro Castelo: “Devemos manipular as coisas como coisas e tratar as pessoas como pessoas, deste modo as coisas nos ajudarão em muitos aspectos, e as pessoas em um aspecto fundamental, que nenhuma coisa pode suprir, o de sermos humanos.”121

Por mais difícil que possa parecer, não se pode admitir afastar o raciocício de questões éticas quando se fala em Sentenciados.

Nesse mesmo sentido, Fábio Konder Comparato expõe:

Ora, o princípio primeiro de toda a ética é o de que “o ser humano e, de modo geral, todo ser racional, existe como um fim em si mesmo, não simplesmente como meio do qual esta ou aquela vontade possa servir-se a seu talante. Os entes, cujo ser na verdade não depende de nossa vontade, mas da natureza, quando irracionais, têm unicamente um valor relativo, como meios, e chamam-se por isso coisas; os entes racionais, ao contrário, denominam-se pessoas, pois são marcados, pela sua própria natureza, como fins em si mesmos; ou seja, como algo que não pode servir simplesmente de meio, o que limita, em consequência, nosso livre arbítrio.122

Fácil seria ignorar a existência do Sentenciado, o que, na prática, efetivamente ocorre. A sociedade ignora a existência deles, mas se esquece de que o tempo de prisão um dia chega ao fim.

Se não forem tomadas medidas que, efetivamente, ressocializem e reinsiram estes Sentenciados no meio social, qual a perspectiva de melhora da violência, entre tantas outras questões que envolvem a criminalidade nos dias de hoje?

Embora sua população ignore a existência de Sentenciados,

121 CASTELO, Jorge Pinheiro. A prova do dano moral trabalhista. Revista do advogado, ano XXII, nº 66, junho 2002, p. 53.

122 COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 4ª ed. São Paulo: Saraiva, 2005, p. 21.

São Paulo, estado com a maior população carcerária do país (190.818 presos até junho de 2012), apresentou uma média de 234 presos em cada 1.000 que estão desenvolvendo atividades laborais dentro dos presídios nos últimos 5 anos. Em São Paulo, em 2012, do total da população carcerária, 22% estavam em atividades laborais, entre as mulheres esse número era de 31% e entre os homens 22%.123

Não é possível ignorar os fatos que, diariamente, ganham vulto na realidade cotidiana: os Sentenciados, ressocializados ou não, voltarão a integrar a nossa sociedade.

Dessa forma, salvo entendimento em contrário, é dever do Estado, por força dos dispositivos constantes na Lei de Execução Penal, bem como por meio da ratificação pelo Brasil de Tratados Internacionais, garantir condições mínimas para a ressocialização. Não é nada honroso, tampouco ético, continuar ignorando o horror que ainda vigora no sistema prisional brasileiro.

3.1 A ressocialização no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) e no Regime Disciplinar

Benzer Belgeler