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2.5. Yugoslavya’yı Dağılmaya Sürükleyen Nedenler

2.5.1. Yugoslavya’nın Dağılması ve Bağımsız Devletlerin Oluşumu

Uma questão que ainda hoje gera controvérsia entre os juristas diz respeito à possibilidade de aplicação ou não dos direitos fundamentais nas relações entre

42 Lei nº 8009/90 Art. 3º A impenhorabilidade é oponível em qualquer processo de execução civil, fiscal,

previdenciária, trabalhista ou de outra natureza, salvo se movido: […] VII - por obrigação decorrente de

particulares. Importante designar o que se chama de eficácia dos direitos fundamentais e suas vertentes, quais sejam: eficácia vertical e eficácia horizontal.

Por eficácia vertical entende-se a que existe entre o poder público e o indivíduo. É chamada de vertical em razão da posição hierarquicamente superior na qual se encontra o Estado em relação ao indivíduo, pois detém os mecanismos de controle e, por isso, deve a relação Estado versus cidadão ser pautada por direitos fundamentais, exatamente para evitar que abusos outrora cometidos pelo poder estatal para com o cidadão sejam evitados. Já a eficácia horizontal diz respeito à relação indivíduo versus indivíduo, portanto, entre particulares. Também nas relações privadas os direitos fundamentais devessem estar presentes. Este é um pensamento surgido a partir da publicização do direito privado e que ainda não é unanimidade entre os juristas.

Paiva Júnior43, ao tratar do processo de constitucionalização do direito e sobre a irradiação dos efeitos dos direitos fundamentais para além da relação entre Estado e indivíduo, leciona que restou superada a arcaica ideia de que apenas o Estado poderia violar os direitos fundamentais. Ao contrário, também o particular, com a concentração de poder político e econômico, representaria uma ameaça aos outros cidadãos, devendo, por isso, também estar vinculado à eficácia dos direitos fundamentais, da mesma forma que o poder público.

A discussão gravita em saber se os direitos fundamentais devem ser, de fato, aplicados às relações entre particulares ou se tais direitos vinculam apenas o poder público.

Renata Paccola Mesquita44 aduz que a doutrina da inaplicabilidade dos direitos fundamentais às relações jurídicas privadas restou ultrapassada. Nas suas palavras:

[…] estando as relações do povo (relações entre particulares) inseridas na

abrangência da incidência do ordenamento constitucional, não poderiam os direitos fundamentais estar restritos às relações “Poder Público-particular”, devendo se estender, também, aos vínculos obrigacionais privados.

Devem, portanto, os direitos fundamentais ser aplicados também às relações entre particulares, visto que estão sob o alcance de uma ordem constitucional.

43 MARQUES JÚNIOR, William Paiva. Reflexos do neoconstitucionalismo na eficácia horizontal dos direitos nas relações jurídico-privadas. In: PAIVA JÚNIOR, William Marques (org.). Publicização do

Direito Privado e Privatização do Direito Público. Obra mimeografada.

44 MESQUITA, Renata Paccola. Penhora do Bem de Família do Fiador e Colisão dos Direitos

Se ao Estado são impostos limites na sua atuação, de maneira a preservar a dignidade do cidadão e evitando que o poder público cometa abusos e atrocidades como outrora, quanto mais aos particulares, que também devem agir guiados pelas normas constitucionais quando da celebração de negócio jurídico com outrem.

3 BEM DE FAMÍLIA

O bem de família está alocado no atual Código Civil, no Livro IV, que trata do Direito de Família, Título II, Do Direito Patrimonial, e, finalmente, Subtítulo IV, Do Bem de Família, bem como na Lei nº 8009/90. Sua topografia no texto cível pode ser questionada, alegando-se que seria melhor colocá-lo no livro referente ao direito das coisas. Todavia, a tutela desse instituto não é do bem em si, mas do bem enquanto elemento de proteção familiar, isto é, o bem como um dos meios pelos quais se protege a família.45

O surgimento do bem de família deu-se nos Estados Unidos da América em um contexto histórico e econômico um pouco conturbado. Durante um período após a independência dos Estados Unidos, o governo norte-americano tornou mais fácil a imigração para a exploração de suas terras. O comércio desenvolveu-se bastante nesse período, a partir do rápido, abundante e lucrativo crescimento da exploração agrícola. Com isso, a indústria bancária passou a financiar os agricultores por meio de contratos muito onerosos: valores, propriedades, construções, pedaços de terra, enfim, tudo servia de garantia para a solvência da dívida.46

Inegavelmente, as facilidades para adquirir empréstimos no banco foram fundamentais para o crescimento e desenvolvimento do mercado e da sociedade norte- americanos à época. Todavia, tal prática tornou-se um hábito pouco saudável, um costume cada vez mais corrente dos agricultores e dos comerciantes em geral. Os diretores dos bancos apenas almejavam o lucro e não perceberam que a quantia exagerada de empréstimos superior à emissão de notas acarretaria em um grande problema para a economia e para as próprias casas bancárias.47

Ocorreu então o previsível. Segundo João Franzen de Lima48:

[…] O câmbio desequilibrou, o preço das mercadorias decaiu; novecentos e

cinquenta e nove bancos fecharam as portas e, no período compreendido entre 1837 e 1839, houve 33.000 falências e um prejuízo de 440 milhões de dólares. Não somente os especuladores da bolsa foram atingidos pela crise terrível: também o pequeno trabalhador, o lavrador assíduo e perseverante,

45 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil. v. 5. 20. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2012, p. 606.

46 AZEVEDO, Álvaro Villaça. Bem de Família: Com Comentários à Lei 8.009/90. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2010, p. 12.

47 AZEVEDO, 2010, p. 13.

48 LIMA, João Franzen de. Curso de Direito Civil Brasileiro. 4. ed. v. 1. Rio de Janeiro: Forense, 1960, p. 260.

sofreu os efeitos da debacle, pois a baixa do preço de seus produtos impediu- lhe a satisfação de seus compromissos e os credores renitentes e desalmados exigiam o pagamento, sob pena de penhora de todos os bens, deixando-lhe a família sem teto. […]

Os credores começaram então a cobrar as dívidas não pagas e penhoravam as garantias que lhe haviam sido dadas no ato do empréstimo. A própria casa que servia de lar para as famílias era hipotecada para solver a dívida. Surgiu, assim, a necessidade de manifestação do poder público, adotando medidas para a proteção do cidadão.49

Algumas leis foram elaboradas, mas especialmente no Texas, República independente à época, um instituto foi criado com o fim de combater os abusos que os contratos de empréstimos bancários acarretavam aos cidadãos, principalmente no que tange ao pequeno agricultor e a sua família. A solução encontrada foi a edição do Homestead Exemption Act, em 26 de janeiro de 1839, que consistia no impedimento da penhora de alguns bens do agricultor para que ele e sua família ficassem resguardos de credores e de uma possível crise econômica. De acordo com João Franzen de Lima50, essa medida legislativa não tinha condão apenas social, mas também econômico e político.

Caio Mário da Silva Pereira51 aborda a origem do bem família nas seguintes palavras:

Nos Estados Unidos, em consequencia de grave crise econômica que o atingiu no começo do século XIX, o Estado do Texas promulgou a primeira lei relativa ao instituto em 1839, permitindo que ficasse isenta de penhora a pequena propriedade, sob a condição de sua destinação à residência do devedor. Uma lei federal de maio de 1862 tratou da matéria, inicialmente como uma concessão gratuita de terras de domínio público, isentando de penhora e execução por dívidas anteriores à concessão do título de propriedade. Outros Estados daquela federação adotaram a norma, e, assim, implantou-se no território americano o instituto do homestead.

Assim, surgido no Texas, o homestead se difundiu por todo o território estadunidense, onde cada região o adotou em suas leis internas e posteriormente, foi criado o homestead federal pelo Homestead Act, de 26 de maio de 186252. Em seguida, esse instituto atravessou as fronteiras nacionais e foi adotado por outros países.

No Brasil, o homestead foi introduzido no ordenamento jurídico brasileiro sob a

alcunha de “bem de família”, que não chega a ser a tradução exata do instituto norte-

49 AZEVEDO, 2010, p. 14. 50 LIMA, 1960, p. 260. 51 PEREIRA, 2012, p. 599.

americano, mas a sua essência foi preservada. Ainda em meados do século XIX, antes, do bem de família, fora editado um regulamento que não permitia que alguns bens fossem penhorados. Informa Álvaro Villaça de Azevedo53 que o “[…] Regulamento 737, de 25/11/1850, isentava de penhora alguns bens de devedor executado, sem,

entretanto, excluir da execução sua morada”. Não se pode, contudo, afirmar que esse

regulamento foi um embrião do bem de família, em vista de o objeto principal do instituto não ser o mesmo do citado regulamento, isto é, a moradia.

Durante a tramitação do projeto do Código Civil de 1916, muitos juristas e comissões de direito opinaram pela inserção de um elemento semelhante ao homestead no texto cível, o que se deu através dos arts. 70 a 73. Ensina Azevedo54 que essa introdução só se deu após inúmeras tentativas de emenda ao projeto do Código Civil e somente quando este estava no Senado Federal foi que o instituto foi introduzido ao seu texto. Posteriormente, em 1941, o Decreto-Lei nº 3200, de 19 de abril, tratou com mais detalhes do bem de família, estabelecendo as condições para a sua instituição. Também o Código de Processo Civil de 1939, nos arts. 647 a 651, discorre sobre o tema, exigindo escritura pública para a instituição do bem de família.55

A Lei nº 6015/73, Lei dos Registros Públicos, nos arts. 260 a 265, também tratou do instituto em seu texto, uma vez que a constituição do bem de família exige a sua inscrição em órgão competente. Os dispositivos da Lei dos Registros Públicos são bem semelhantes ao do CPC de 1939, mas por ser legislação específica e mesmo mais recente, prevalece o disposto na Lei nº 6015/73.

Em 1990, contudo, diante da necessidade de uma maior proteção ao direito à moradia, foi promulgada uma lei específica sobre o assunto, a Lei nº 8009/90, que traz tanto suas condições quanto suas exceções e instituiu o bem de família processual. Da mesma forma, a Lei nº 10406/02, que instituiu o novo Código Civil, também abordou o assunto.

53 AZEVEDO, 2010, p. 65.

54 AZEVEDO, 2010, p. 67.

55 CPC/1939 Art. 647. A instituição do bem de família far-se-á por escritura pública, declarando o instituidor que determinado prédio se destina a domicílio de sua família e ficará isento de execução por dívidas.

Portanto, atualmente, no Brasil, há dois diplomas legais que tratam do bem de família: o Código Civil, nos arts. 1711 a 1722 e a Lei nº 8009/90, legislação específica do assunto.