A história da humanidade é marcada pelo ciclo governamental que constrói as relações sociais. A partir delas se produzem as resistências e deslocamentos que fazem os indivíduos governar e serem governados numa relação dialética que constitui a história do passado, do presente e repercutirá nas possíveis transformações do futuro.
Nesses diferentes regimes de governo, percebe-se um espaço que oportuniza o surgimento de microlutas, nas quais as relações de poder são afetadas e transformadas historicamente, fazendo surgir novas estratégias de dominação. O corpo é fabricado nas
malhas do poder que está presente nas formas de governo. Neste caso, a ação de governar pode acontecer sob duas formas, segundo Veiga-Neto, (2008, p. 23):
além de resultar de uma ação (de poder) de um/uns sobre o (os) outro (s), o governamento, enquanto condução, pode resultar também, de uma ação em que cada um se conduz a si mesmo [...]. Seja sobre os outros, seja sobre si mesmo, tais ações acontecem graças a determinadas técnicas, em geral muito específicas e refinadas. Quando se dão de uns sobre os outros Foucault diz que são de dominação e de poder. (grifos do autor).
Interessa, neste momento, discutir a forma de governo que incide sobre os outros, mediado por técnicas de dominação e de poder e que está também ligado ao Estado. A dominação é compreendida como a ação de comandar o outro com autoridade e resulta numa manifestação do poder em diferentes perspectivas. Dentre elas um poder mais centralizado ou mais descentralizado, conforme o regime de governo que predomina em cada época. Nesta ótica, é pertinente discutir a emergência da noção de governo que entra em cena nas sociedades ocidentais e mantem estreito diálogo com as relações de poder.
As discussões sobre o governo aparecem no século XVI ligadas a uma série de questões que investigam o modo de como governar, ser governado, governar os outros, com quais métodos, etc. (FOUCAULT, 2006b). Para responder a tais problemáticas surgem muitos tratados que vão do século XVI ao XVIII servir de referência sobre as artes de governar. Dentre esses, Foucault chama a atenção para os ditos de O príncipe, de Nicolau Maquiavel, por estar mais diretamente ligado ao governo do Estado.
Essa obra manteve diálogo com outras que o seguiram, sendo enaltecido e usado como referência. No entanto, a partir do século XIX, foi alvo de críticas, devido ao conteúdo apresentado que orienta sobre a forma de governar. Em seu conteúdo, a figura do príncipe aparece como transcendente, superior ao seu principado, o qual foi recebido por herança, aquisição ou conquista, fato que o caracteriza numa relação de exterioridade. “O exercício do poder será bem entendido, o de manter, reforçar e proteger esse principado” (FOUCAULT, 2006b, p. 285), caracterizado pelo que ele possui ou adquiriu: o território e os súditos que lhes são subordinados. A arte de governar, abordada por Maquiavel, apresenta-se como um tratado que enfatiza a capacidade do príncipe de manter seu principado.
Nota-se que esse é o ponto de discrepância entre os ditos de Maquiavel e outros teóricos que abordam as questões da arte de governar. Dentre eles podemos citar Guillaume de La Perrière (apud FOUCAULT, 2006b), que entende o governante como qualquer monarca, imperador, rei, príncipe, senhor, magistrado, prelado, juízes e semelhantes. La Perrière faz a defesa de que se governa não só um reino, mas uma casa, crianças, almas,
províncias, família. Dessa forma, percebe-se que essa atividade incorpora uma visão plural em que diferentes pessoas podem exercer o governo (pai de família, o diretor de uma escola, de um convento, o professor, etc.). Fato que reforça a ideia de que há várias maneiras de governo, das quais governar o Estado é apenas uma delas.
Diferentemente do que é discutido em O príncipe, essa perspectiva acontece no interior da sociedade ou do Estado e advêm de uma continuidade ascendente ou descendente que caracteriza a ação de governar. Há também, outra observação quanto à forma de governo, que se aplicará ao Estado e é defendida por François de la Mothe Le Vayer (apud FOUCAULT, 2006b). Ele aponta três formas de governo que se referem a uma ciência ou reflexão particular. São eles: o governo de si mesmo, referido à moral; a arte de governar uma família, referido à economia e a ciência de bem governar o Estado, relacionada à política.
Desses modelos, a introdução da economia é apresentada na gestão do Estado. Tem como base acoplar o modelo de governo do pai de família que faz prosperar riquezas, atende e gere diferentes indivíduos ao governo do Estado. Essa noção é desenvolvida a partir das ideias formuladas por Rosseau (1995), que descreve a economia originalmente ligada ao governo da casa para o bem comum de toda família. Posteriormente, a ideia é ampliada para a gestão da grande família que seria o Estado, respeitando as diferenças que há entre a administração geral do Estado, pela política e a administração doméstica. Desse modo, espera-se desenvolver uma gestão política do Estado que seja pautada no uso da economia como forma de administração de bens e pessoas.
Surge, então, o uso comum da palavra economia que nas palavras de Rousseau (1995, p.30) “significa antes a administração cuidadosa do que se tem do que às formas de conseguir o que não se possui”. Em decorrência disso, vê-se emergir um saber baseado na economia, que começa a tomar o sentido que a sociedade moderna dá ao termo. Para Foucault (2006b, p. 289) “a arte de governar é, precisamente, a arte de exercer o poder na forma e segundo o modelo da economia”.
A introdução da economia na forma de gerir o Estado traz repercussões que irão afetar o desenvolvimento das formas de governo. Se na soberania o governo se exercia mais sobre o território, nos regimes seguintes, vai interessar, principalmente, governar o conjunto formado pelo homem e as coisas, sendo constituídos:
pelos homens em suas relações, seus laços, seus emaranhamentos, com essas coisas que são as riquezas, os recursos, as substâncias, o território em suas fronteiras, qualidades, clima. São os homens em relação com os costumes, os hábitos, as maneiras de fazer ou pensar. São também os homens em relação
com outras coisas que podem ser os acidentes ou desgraças, como fome, epidemias, morte. (FOUCAULT, 2006b, p. 290).
Assim, começa-se a definir o que se espera da gestão do Estado. Vai-se delineando as transformações sofridas no interior dos regimes de governo, movido por relações de poder que repercutem na construção dos objetos, dentre eles, o corpo. É na ação de governar, nas formas de dominação que se pode traçar o percurso histórico pelo qual o corpo é fabricado, sendo, reconfigurado nas diferentes formas de governo que perpassam a história da humanidade. O corpo vai ser castigado, supliciado, corrigido, adestrado, disciplinado, adaptado ao trabalho, alvo do biopoder, porque ele é, essencialmente, guiado por uma tecnologia política que se faz e refaz através das diferentes relações de poder. Elas estão presentes em cada mecanismo de governo e tem por base os pilares da economia, tendo em vista que “[...] é na economia bem entendida da potência civil que consiste a grande arte do governo, não só para se manter a si mesmo mas para alcançar em todo Estado a atividade e a vida; para tornar o povo ativo e laborioso.” (ROUSSEAU, 1995, p. 220).
Dessa forma, do poder soberano, ao poder disciplinar e, ao biopoder, vimos emergir uma sociedade que produz a história do corpo, perpassada por diferentes olhares. As relações de poder são condicionantes para estabelecer os saberes que são construídos e solidificados nessas diferentes épocas, sendo, portanto, alicerces das verdades produzidas sobre o corpo. No entanto, não se quer reafirmar aqui uma sobreposição, dizer que um período substitui o outro. Pretendemos discutir as especificidades de cada regime de governo, para penetrar na dinâmica histórica das relações de poder e perceber os embates travados sobre o corpo para enfim, compreender como o discurso da inclusão ganha destaque nas discursividades contemporâneas.
Nos regimes de governo, o poder e o saber agem como propulsores das relações sociais, tendo em vista que o corpo, como produção política, articula os efeitos de um certo tipo de poder e favorece a emergência de um saber, que por sua vez reconduz e reforça os efeitos desse poder. Essa relação poder-saber atua na fabricação do sujeito, seja através de técnicas, manobras e dominações, seja por meio das resistências.
Os próximos tópicos enfatizarão com mais detalhes a gestão política do corpo, procurando mostrar de que maneira as relações de poder estão atreladas à produção das verdades. É preciso escavar o solo das formas de dominação, seja no regime soberano que castiga o corpo, até as formas de governo que se voltam para a valorização da vida, através da disciplinarização individual ou pela regulamentação da população.
Cada estratégia de poder contribui diferentemente para a construção da história do corpo com deficiência, pois não se poderia falar em inclusão, sem retomar os momentos da história em que a exclusão predominava. Assim, há uma visibilidade sobre o corpo no que concerne à época dos grandes suplícios, às técnicas disciplinares aplicadas aos sujeitos e aos procedimentos de biopolítica. Vamos traçar, um voo panorâmico que se inicia nas malhas do poder soberano.