Anteriormente já destacamos que o caráter unitário dos três livros do De docta
ignorancia se sustenta no conceito de “máximo”. Como sabemos o segundo livro é uma especulação sobre o universo ou máximo contraído e, portanto, poderíamos falar de uma ontologia da criação a partir da qual se busca pensar o universo desde a sua origem, ou seja, o
Máximo infinito290. De modo geral, além do Prólogo, poderíamos dividir esse segundo livro
em três momentos: um primeiro momento (capítulos I-VI) no qual Nicolau se preocuparia em determinar a unidade do universo; um segundo (capítulos VII-X) no qual discute sobre a trindade do universo e um terceiro e último momento (capítulos XI-XIII), no qual vamos encontrar a cosmologia cusana. Tendo em vista o objetivo da nossa pesquisa o segundo momento é fundamental. Buscaremos, então, especificar os termos segundo os quais o
290 Para este tema conferir: MACHETTA,Jorge M. La ontología de lo creado. In: NICOLÁS DE CUSA. Acerca de la docta ignorancia. Libro II: Lo máximo contracto o universo (edición bilíngüe). Introducción, traducción y notas de Jorge M. Machetta, Claudia D’Amico y Silvia Manzo. Buenos Aires: Biblos, 2004 (Notas complementarias n. 2): “A medida que se avanza en la lectura de estos primeros capítulos aparece con mayor nitidez cuál es el punto de vista que adopta el Cusano para abordar la estructura del universo: descubrir su esencia metafísica a partir de su origen desde Dios” (p. 121).
universo imita a trindade e, principalmente, especular sobre a noção de nexus agora também pensada a partir do universo. Todavia, será também necessário aclarar o sentido dos termos “universo” e contratio que aparecem nos primeiros capítulos do segundo livro do De docta
ignorantia já que em relação ao Máximo absoluto, o universo se mostraria como máximo contraído291.
No Prólogo do segundo livro, Nicolau afirma que “[...] é difícil atingir a natureza da contracção desconhecido o exemplar absoluto”. É essa uma conclusão estabelecida por Nicolau ao argumentar que como todo causado não tem nada a partir de si mesmo, mas da sua causa, então, o causado acompanharia “[...] a origem e a razão pela qual é o que é do modo
mais próximo e semelhante que pode”292. Isso não significa somente que o causado seja
semelhante à causa, mas também que não poderemos conhecer a natureza da “contracção”, tendo em vista não ser possível captar “a precisão da verdade” em relação ao “exemplar absoluto”. Porém, é preciso que essa ignorância nos ensine e que sejamos conduzidos a ver
que a verdade existe, embora agora não a possamos compreender293. No primeiro capítulo, o
Cardeal de Cusa retoma o princípio já estabelecido no primeiro livro do De docta ignorantia de que quando se dá excedente e excedido não se chega ao máximo simples. Daí que se a
291 Sobre a dialética da complicatio-explicatio que aparece nos capítulos iniciais desse segundo livro e a partir da qual Nicolau se propõe pensar a relação entre o criador e criatura já discutimos anteriormente. Entretanto, faltou- nos refletir sobre o conceito de contractio que no segundo livro do De docta ignorantia é utilizado para determinar a diferença entre o universo e o Máximo absoluto.
292 De docta ignorantia. w. L.II, Prologus, n.90, p. 2, linhas 8-12: Cum autem causatum sit penitus a causa et a
se nihil et originem atque rationem, qua est id quod est, quanto propinquius et similius potest, concomitetur: patet difficile contractionis naturam attingi exemplari absoluto incognito. (A douta ignorância. L. II, Prólogo, n. 90, p. 65). Cf. também: Idiota. De mente. h. V, cap. X, n. 127, p. 179-180, linhas 3-14: IDIOTA: Verum dicis.
Nam non scitur pars nisi toto scito; totum enim mensurat partem. Quando enim coclear per partes ex ligno exscindo, partem adaptando ad totum respicio, ut coclear bene proportionatum eliciam. Sic totum coclear, quod mente concepi, est exemplar, ad quod respicio, dum partem fingo. Et tunc possum perfectum coclear efficere, quando quaelibet pars proportionem suam in ordine ad totum reservat. Similiter pars ad partem comparata suam integritatem debet observare. Unde necesse erit, ut ad scientiam unius praecedat scientia totius et partium eius. Quare deus, qui est exemplar universitatis, si ignoratur, nihil de universitate, et si universitas ignoratur, nihil de eius partibus sciri posse manifestum. Ita scientiam cuiuslibet praecedit scientia dei et omnium.
293 De docta ignorantia. w. L. II. Prologus, n. 90, p. 89, linhas 12-16: Supra igitur nostram apprehensionem in
quadam ignorantia nos doctos esse convenit, ut – praecisionem veritatis uti est non capientes – ad hoc saltim ducamur, ut ipsam esse videamus, quam nunc comprehendere non valemus. (A douta ignorância. L. II, Prólogo, n. 90, p. 65). Parece que esse seria o sentido dos termos inintelligibiliter no segundo e no terceiro capítulo desse segundo livro. Ou seja, sabemos que o ser da criatura é a partir do ser do criador e de que o máximo complica e explica todas as coisas, mas somente de modo ininteligível. De fato, não compreendemos ou compreendemos incompreensivelmente. Cf. também: D’AMICO, Claudia. Nicolás de Cusa, “De mente”: la profundización de la doctrina del hombre-imagen. In: Patristica et Mediaevalia. Volumen XII, Buenos Aires, 1991, p. 53-67: “[…] no podemos conocer lo múltiple si no preconocemos lo Uno pues Dios es el Máximo absoluto, Medida suprema del más y del menos en el que nos hallamos inmersos. Sin embargo, establecido ya que esta suprema Medida es incognoscible, cabe sostener que el conocimiento de lo mensurado, que se realiza en relación con un ejemplar por definición racionalmente inabordable, carece asimismo de precisión. Sólo podemos tener acerca de lo real una aprehensión progresiva, permanentemente perfectible, pues la Exactitud absoluta siempre nos resultará ajena. De modo que, al medir el cosmos, el hombre sólo realiza una coniectura, modo humano de conocer la verdad en la alteridad” (p. 56).
“igualdade precisa” convém somente a Deus, tudo o que se dá “para além dele, comporta
diferença” e assim a medida e o medido necessariamente diferem294. Esse princípio é
transferido ou adaptado para as disciplinas do quadrivium (astronomia, matemática, música e aritmética) e também para as artes (medicina, alquimia, magia) para mostrar que em nenhuma delas podemos alcançar a precisão no conhecimento de qualquer coisa e, por último, no
conhecimento do universo295. Merece também atenção a afirmação cusana de que o universo é
infinito. Para que possamos compreendê-la e em que sentido, mesmo sendo infinito, o universo não é Deus será necessário determinar a diferença entre o “infinito negativamente” e o “infinito privativamente”. Nicolau argumenta que enquanto a Deus convém ser “infinito negativamente”, pois “só ele é aquilo que pode ser com toda a potência”, ao universo corresponde ser “infinito privativamente”. O universo poderia ser maior tendo em vista a potência divina que não tem limites, mas não tendo em vista “a possibilidade ou a matéria” que “não se estende para além de si própria” ou “que não é extensível até ao infinito em acto”. Ser “infinito privativamente” significa que o universo “é sem termo”, pois não é possível que se dê em ato nada maior do que o universo. Claro que não absolutamente, mas contraidamente, pois esse é em ato, mas de modo contraído. Tudo isso significa apenas que o
universo é “[...] uma criatura, que é necessariamente pelo ser divino absoluto e simples”296.
Ainda tendo em vista a relação entre a causa e o causado, Nicolau recorda no segundo capítulo que somente o Máximo simples é a partir de si mesmo e que o que não é a partir de si mesmo tem o ser “devido ao ser eterno”297. Entretanto, como o Máximo “está
294 De docta ignorantia. w. L. II, cap. I, n.91, p. 4, linhas 9-15: Habuimus in radice dictorum in excessis et
excedentibus ad maximum in esse et posse non deveniri. Hinc in prioribus ostendimus praecisam aequalitatem solum Deo convenire. Ex quo sequitur omnia dabilia praeter ipsum differre. Non potest igitur unus motus cum alio aequalis esse nec unus alterius mensura, cum mensura a mensurato necessario differat. (A douta ignorância. L. II, cap. I, n. 91, p. 66).
295 Cf. Ibid., w. L. II, cap. I, n.91-94, p. 4-8; (Ibid., L. II, cap. I, n. 91-94, p. 66-68).
296 Ibid., w. L. II, cap. I, n. 97, p. 12, linhas 1-8; 13-22: Solum igitur absolute maximum est negative infinitum;
quare solum illud est id, quod esse potest omni potentia. Universum vero cum omnia complectatur, quae Deus non sunt, non potest esse negative infinitum, licet sit sine termino et ita privative infinitum; et hac consideratione nec finitum nec infinitum est. Non enim potest esse maius quam est; hoc quidem ex defectu evenit; possibilitas enim sive materia ultra se non extendit. [...]. Quare, licet in respectu infinitae Dei potentiae, quae est interminabilis, universum posset esse maius: tamen resistente possibilitate essendi aut materia, quae in infinitum non est actu extendibilis, universum maius esse nequit; et ita interminatum, cum actu maius eo dabile non sit, ad quod terminetur; et sic privative infinitum. Ipsum autem non est actu nisi contracte, ut sit meliori quidem modo, quo suae naturae patitur conditio. Est enim creatura, quae necessario est ab esse divino simpliciter absoluto, [...]. (Ibid., L. II, cap. I, n. 97, p. 69-70).
297 Ibid., w. L. II, cap. II, n. 98, p. 14, linhas 4-9: Docuit nos sacra ignorantia in prioribus nihil a se esse nisi
maximum simpliciter, ubi a se, in se, per se et ad se idem sunt: ipsum scilicet absolutum esse; necesseque esse omne, quod est, id quod est – inquantum est –, ab ipso esse. Quomodo enim id, quod a se non est, aliter esse posset quam ab aeterno esse?. (Ibid., L. II, cap. II, n. 98, p. 70-71). Ao afirmar que o universo é criatura Nicolau evita fazer dele um outro perfeito, eterno e infinito que seria um princípio da pluralidade das coisas. Entretanto, em sua especulação não existe confusão entre uma coisa singular e o universo. Nesse sentido, então, Nicolau pode dizer que “a criatura tem de Deus o ser una, discreta e conexa com o universo” [cursivo nosso] e, por isso,
longe de qualquer inveja” não pode comunicar o ser de maneira diminuída, ou seja, Deus ao comunicar o seu próprio ser, comunica-o de maneira total. Mas, o problema coloca-se quanto àquele que recebe. Se algo recebesse de modo tão perfeito e total o ser de Deus como Ele o
comunica, aquele seria Deus298. Claro que isso seria impossível tendo em vista a
impossibilidade de se pensar dois ou mais infinitos, perfeitos e eternos. Assim, a criatura embora seja um “ser-dependente, não tem tudo aquilo que é” do máximo, pois a corruptibilidade, a divisibilidade, a imperfeição, a diversidade, a pluralidade que marcam o seu modo de ser não os têm “[...] do máximo, eterno, indivisível, perfeitíssimo, indistinto, uno
nem de alguma causa positiva”299.
No parágrafo seguinte, Nicolau utiliza a manuductio da linha infinita que é causa do ser linha. Se por um lado, a linha curva tem da linha infinita o fato de ser linha, por outro lado, tem o fato de ser curva da própria finitude já que “se fosse máxima não seria curva”. A partir deste exemplo Nicolau conclui que “[...] o mesmo acontece com as coisas, porque não podem ser o máximo, já que são diminuídas, outras, distintas etc.” Por fim, com uma linguagem “trinitária” Nicolau recorda que a criatura recebe de Deus o fato de ser “una,
discreta e conexa com o universo”300. Porém, a criatura não recebe d’Ele, nem de uma causa
positiva, mas de uma contingente o fato de que “[...] a sua unidade esteja na pluralidade, a
discreção301 na confusão, e a conexão na discordância”302. Quando buscamos pensar o ser da
distingue a criatura e o universo ao qual ela está “conectada”. Porém, não podemos esquecer que é a “conexão” que faz o universo uno, distinto e conexo mesmo que a unidade seja na pluralidade, a distinção da diversidade e a conexão na divisão. Assim, será preciso determinar de modo geral o ser da criatura e a sua relação com o criador; posteriormente, o ser do universo na sua relação com as coisas singulares, ou seja, em que sentido o universo é uma unidade de muitas coisas e, por último, a trindade do universo. Anteriormente já apresentamos a especulação cusana sobre a relação entre criador e criatura e a sua consequente “ininteligibilidade” ao discutirmos sobre a complicatio e a explicatio. Assim, no que segue caberá aprofundar o sentido da unidade e da trindade do universo.
298 Ibid., w. L. II, cap. II, n. 98, p. 14, linhas 9-12: Quoniam autem ipsum maximum procul est ab omni invidia,
non potest esse diminutum ut tale communicare. Non habet igitur creatura, quae ab esse est, omne id quod est:. (Ibid., L. II, Cap. II, n. 98, p. 71). Cf. ainda: Ibid., w. L. II, cap. II, n.104, p. 20-22, linhas 11-20: Communicat
enim piissimus Deus esse omnibus eo modo, quo percipi potest. Cum igitur Deus absque diversitate et invidia communicet et recipiatur, ita quod aliter et alterius contingentia recipi non sinat, quiescit omne esse creatum in sua perfectione, quam habet ab esse divino liberaliter, nullum aliud creatum esse appetens tamquam perfectius, sed ipsum, quod habet a maximo, praediligens quasi quoddam divinum munus, hoc incorruptibiliter perfici et conservari optans. (Ibid., L. II, Cap. II, n. 104, p. 75).
299 Ibid., w. L. II, cap. II, n.98, p. 14, linhas 11-15: Non habet igitur creatura, quae ab esse est, omne id quod est:
corruptibilitatem, divisibilitatem, imperfectionem, diversitatem, pluralitatem et cetera huiusmodi a maximo aeterno, indivisibili, perfectissimo, indistincto, uno, neque ab aliqua causa positiva. (Ibid., L. II, cap. II, n. 98, p. 71).
300 Ver anteriormente a nossa análise sobre o nexus no De venatione sapientiae. É o próprio nexus que penetra e atravessa todas as coisas garantindo que elas permaneçam firmes no que são e não se corrompam. Por outro lado, além de manter as coisas individualmente no que são conservando-as em si [intra se conservantur] esse espírito de conexão também as conecta a totalidade do mundo.
301 “discreta” e “discreção” (A douta ignorância, L. II, cap. II, n. 99, p. 71) traduz o termo latino discreta e
discretio. Esse adjetivo e substantivo derivam do verbo latino discern re: separar; distinguir, discernir; Machetta, D’Amico e Manzo traduzem por “separada” e “separación” (Acerca de la docta ignorância, L. II,
criatura descobrimos que ela é pelo ser do Máximo. Mas, embora saibamos que é assim, entretanto, é ininteligível o modo tendo em vista que a criatura é a partir da “necessidade
absoluta”, mas também não é sem a “contingência”303. Da mesma forma, a dialética da
complicatio-explicatio que busca responder ao problema da relação entre o criador e a criatura, entre a unidade e a pluralidade ou multiplicidade também recebe a marca do “ininteligível”. Como afirma Nicolau “o modo da complicação e da explicação excede a nossa mente”304.
Depois de determinarmos o sentido geral do termo criatura, na sua relação com o Máximo absoluto consideraremos, a partir do quarto capítulo do segundo livro a especulação cusana sobre a unidade do universo e sobre a sua relação de imagem com o absoluto. Comecemos, porém, por especular sobre o sentido do termo universo: do ponto de vista do
emprego do termo “universo significa universalidade, ou seja, unidade de muitas coisas”305 e
com relação ao Máximo absoluto o universo ou mundo é o “máximo contraído” e “contracção
significa, relativamente a uma coisa, o ser isto ou aquilo”306, ou seja, ser algo determinado,
concreto etc. Parece, então, que só poderíamos compreender o “universo” estando atentos à sua relação com o absoluto e à sua relação com as coisas singulares explicitadas por meio da
contratio. Se, por um lado, o universo não é Deus, mas é uma criatura, por outro lado, o universo não pode ser pensado como um “superente” dentro do qual caberiam todas as coisas. Por isso, se o universo não pode ser pensado sem as coisas singulares, também as coisas não perdem a sua singularidade em uma totalidade que as absorva. O universo é máximo, mas não é absoluto tendo em vista que a sua unidade não poderá ser pensada sem considerarmos a pluralidade, a diversidade e a alteridade das coisas. O universo é uno, mas não é absoluto, pois a sua unidade está contraída na pluralidade. Além disso, não podemos esquecer que pluralidade e diversidade implicam simultaneamente em divisão. Ora, pensar um mundo
Cap. II, n. 99, p. 29); tanto Santinello (La dotta ignoranza, L. II, Cap. II, n. 99, p. 132) quanto Vescovini (La dotta ignoranza, L. II, Cap. II, p. 114) traduzem por “distinta” e “distinzione”; Hopkins (On Learned Ignorance, L. II, Chapter Two, n. 99, p. 91): “distinct” e “distinctness”.
302 De docta ignorantia. w. L.II, cap. II, n.99, p. 14-16, linhas 9-13: Habet igitur creatura a Deo, ut sit una,
discreta et connexa universo et, quanto magis una, tanto Deo similior. Quod autem eius unitas est in pluralitate, discretio in confusione et connexio in discordantia, a Deo non habet neque ab aliqua causa positiva, sed contingenter. (A douta ignorância. L. II, cap. II, n. 99, p. 71).
303 Ibid., w. L. II, cap. II, n.100, p. 16, linhas 1-3: Quis igitur copulando simul in creatura necessitatem
absolutam, a qua est, et contingentiam, sine qua non est, potest intelligere esse eius?. (Ibid., L. II, cap. II, n. 100, p. 71).
304 Ibid., w. L. II, cap. III, n.109, p. 26, linhas 1-2: Excedit autem mentem nostram modus complicationis et
explicationis. (Ibid., L. II, cap. III, n. 109, p. 77).
305 Ibid., w. L. II, cap. IV, n.115, p. 34, linhas 16-17: Universum dicit universalitatem, hoc est unitatem plurium; (Ibid., L. II, cap. IV, n. 115, p. 82).
306 Ibid., w. L. II, cap. IV, n.116, p. 36, linhas 19-20: Contractio dicit ad aliquid, ut ad essendum hoc vel illud. (Ibid., L. II, cap. IV, n. 116, p. 83).
como uma unidade de muitos, e que por isso não exclui a pluralidade e a diversidade das coisas singulares, é tentar conceber um universo em que qualquer coisa está conectada e relacionada com qualquer coisa, ou seja, é ver um todo no qual a pluralidade, a confusão, a discordância ou divisão são superadas em uma totalidade ou unidade na qual qualquer coisa é, antes de tudo, relação. Quiçá somente assim poderemos ver no único universo a unidade absoluta da qual tudo tem o que é.
Como princípio geral, Nicolau estabelece que o que convinha maximamente, no primeiro livro do De docta ignorantia, ao máximo absoluto convirá de modo contraído ao
mundo ou universo enquanto máximo contraído307. Esse princípio faz com que ele elabore um
quadro sinótico no qual estabelece, de um lado, o que convém ao máximo absoluto e, de outro
lado, o que conviria ao contraído308. No entanto, é preciso considerar “rectamente a
contracção” para que a linguagem paradoxal utilizada anteriormente possa ser aclarada. Por exemplo, como é possível que se dê “infinitude contraída”; que o universo ou mundo possa ser “de modo contraído o infinito” ou que no universo “todas as coisas sem pluralidade” sejam o próprio máximo contraído se o mesmo universo não está desligado da pluralidade? O modo como o mundo é contração da unidade infinita absoluta é denominado como uma
descida infinita ou como uma queda sem proporção309. Assim, o mundo que é uno, infinito,
simples, indistinto, eterno de forma contraída desce ou cai daquela unidade e eternidade absoluta. A descida marca uma diferença entre o universo e o seu princípio que aparece, em primeiro lugar, na referência à pluralidade. A contração atinge e determina o universo de modo que a sua unidade, infinitude, simplicidade, eternidade e necessidade são contraídas pela pluralidade, finitude, composição, sucessão e possibilidade. É “como se a necessidade absoluta se comunicasse sem mistura e terminasse de modo contraído no seu oposto”, conclui
Nicolau310. Logo, é nesse sentido que o universo contraído se determina “descendo” do
absoluto.
307 Ibid., w. L. II, cap. IV, n.112, p. 30, linhas 11-14: Igitur quae in primo libro de absoluto maximo nobis nota
facta sunt, illa, ut absoluto absolute maxime conveniunt, contracto contracte convenire affirmamus. (Ibid., L. II, cap. IV, n. 112, p. 80).
308 Cf. Ibid., w. L. II, cap. IV, n.113, p. 30-32 (Ibid., L. II, cap. IV, n. 113, p. 80-81).
309 Ibid., w. L. II, cap. IV, n.114, p. 32, linhas 1-6: Unde, quando recte consideratur de contractione, omnia sunt
clara. Nam infinitas contracta aut simplicitas seu indistinctio per infinitum descendit in contractione ab eo, quod est absolutum, ut infinitus et aeternus mundus cadat absque proportione ab absoluta infinitate et aeternitate et unum ab unitate. (Ibid., L. II, cap. IV, n. 114, p. 81). Cf. também: Ibid., w. L. II, cap. IV, n.116, p. 34, linhas 1-4:
Quoniam vero dictum est universum esse principium contractum tantum atque in hoc maximum, patet, quomodo per simplicem emanationem maximi contracti a maximo absoluto totum universum prodiit in esse. (Ibid., L. II, cap. IV, n. 116, p. 82).
310 Ibid., w. L. II, cap. IV, n.114, p. 32, linhas 6-15: Unde unitas absoluta ab omni pluralitate absoluta est. Sed
contracta unitas, quae est unum universum, licet sit unum maximum, cum sit contractum, non est a pluralitate absolutum, licet non sit nisi unum maximum contractum. Quare quamvis sit maxime unum, est tamen illa eius
A marca do universo é a contração e, como vimos, a “contracção significa, relativamente a uma coisa, o ser isto ou aquilo”. O que se pode deduzir da relação e da diferença entre o Máximo absoluto e o máximo contraído? Em que sentido o máximo contraído pode ser “isto ou aquilo”? Qual tipo de relação é possível entre qualquer coisa e o absoluto, qualquer coisa e o universo e, portanto, qualquer coisa e qualquer coisa? Mirando às coisas singulares será possível justificar a diferença entre os dois máximos e determinar o sentido de “universo” enquanto “unidade de muitas coisas”. Em primeiro lugar, parece que devemos evitar uma linguagem que não distinga Deus e as coisas e o universo e as coisas. Deve-se negar, portanto, que “Deus, sendo imenso” seja no sol e na lua. Da mesma forma, também se negará do universo. Considerando a infinitude de Deus e a do universo não se pode conceber que esses sejam como uma coisa em outra coisa. Qualquer coisa não pode conter ou delimitar o máximo absoluto e nada em ato pode definir o máximo contraído. Por isso, Deus e o universo devem ser considerados, pelo menos em um primeiro momento, como