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Pode-se considerar que o interesse das pesquisas desenvolvidas sobre SRI e Ciências Cognitivas no âmbito da Ciência da Informação reside em compreender dois aspectos fundamentais: como ocorrem os processos cognitivos dos usuários de um sistema na dinâmica da busca da informação e como os sistemas são desenvolvidos e organizados considerando tais aspectos. Conforme afirma Neves (2006, p. 40):

A ciência da informação também se propõe a estabelecer uma abordagem científica consistente para o estudo dos vários fenômenos que cercam a noção de informação, sejam eles encontrados nos processos biológicos, na existência humana, ou nas máquinas. Essa busca compreende basicamente a instituição de conjuntos de princípios

que orientem o processo de comunicação interna e externa aos sistemas de recuperação da informação, levando em consideração a diversidade comportamental apresentada pelos sujeitos na busca da informação. [...] no que diz respeito à ciência da informação, a adoção da abordagem do processamento da informação vem ao encontro de estudos que envolvem a cognição na recuperação e no processamento técnico da informação.

Por outro lado, as pesquisas com o enfoque cognitivo na Ciência da Informação têm evidenciado estudos que convergem também para a organização e recuperação da informação (LIMA, 2004; BORGES, 2002; BORGES, 2003 e BORGES et al.,2003), como sustenta De Mey (1992, p. 4), ao mostrar que:

O ponto de vista cognitivo da ciência da informação implica que cada ato de processamento da informação, seja ele perceptivo ou simbólico, é mediado por um sistema de categorias e conceitos os quais, para o mecanismo de processamento da informação, constituem um modelo de mundo. Seja na recuperação ou no processamento técnico da informação, esse conceito agrega todas as ações realizadas pelos profissionais da informação envolvendo atividades cognitivas.

Nesse panorama, a história da relação entre cognição e SRI, no âmbito da Ciência da Informação, tem sido permeada por pesquisas de diversas origens (DE MEY, 1992; INGWERSEN, 1992a, 1992b, 1996). O que acontece é que as áreas de SRI e Ciências Cognitivas têm estágios diferentes de evolução, não ocorrendo necessariamente de forma simultânea. Mas, atualmente, ocorre um interesse renovado por ambos os temas (DIAS, 2006; 2007 e LÖBLER et al., 2008). Como descrevem Maimone & Silveira (2007, p. 56):

A Ciência da Informação definida como ciência interdisciplinar propõe diversos pontos de intersecção com outras áreas do conhecimento que lhe são correlatas. Neste sentido, aspectos informacionais tangenciam com processos da psicologia cognitiva a fim de desvendar os “mecanismos” da mente humana sob o ponto de vista social ao qual se apresentam. Os paradigmas da Ciência da Informação são descritos a partir das concepções teóricas de cada época.

Lima (2003) afirma que, nas últimas décadas, com o desenvolvimento dos estudos das Ciências Cognitivas, a maneira como são categorizadas as informações sofreu forte modificação, passando de um “processo cognitivo individual a um processo cultural e social de construção da realidade, que organiza conceitos baseando-se parcialmente na psicologia do pensamento” (LIMA, 2003, p.82). Ou seja, a informação que se percebe no primeiro momento é fundamental na definição de uma categoria, pois a categorização não é realizada de maneira artificial, mas levando-se em conta as informações do mundo a que pertencem aqueles que organizam a informação e aqueles que a buscam, conforme mostra a Figura 2:

Na etapa de indexação, ocorre um acoplamento do SRI aos aspectos cognitivos no momento da compreensão do texto e da composição da representação do documento. Nas três etapas pela qual o processo de indexação é realizado (análise do documento e assunto, identificação dos principais conceitos e tradução dos conceitos em linguagem de indexação), há uma interação com os aspectos cognitivos do profissional da informação. Como mostra Lima (2003, p.83): “As habilidades intelectuais poderiam ser harmonizadas de uma maneira mais eficiente, se as atividades pudessem simular processos cognitivos ou percepções sensoriais”. Nesse sentido, para Ingwersen (1996, p. 5): “The cognitive point of view in Information Sciences implies that each act of information processing – whether perceptual or symbolic – is mediated by a system of categories and concepts witch, for the information processing device, constituted a world model”.

De acordo com Ingwersen (1996), o modelo cognitivo dos usuários pode ser dinâmico, mas não contido em si mesmo, ou seja, independente de qualquer estrutura que envolva um SRI. Segundo o autor, o conhecimento do usuário sofre alterações diante da interação com a informação extraída do SRI, o que reflete na modificação no seu estado “anômalo” de conhecimento.

Ingwersen (1996), entre as diversas referências sobre SRI e as Ciências Cognitivas, cita duas características fundamentais relativas à sua importância:

• A incerteza está presente na interação em um SRI associada com a interpretação tanto do usuário quanto do sistema;

FIGURA 2: Interseção Sistemas de Recuperação da Informação e Ciências Cognitivas. Fonte: Adaptado de Lima (2003, p. 82).

Categorização Indexação Recuperação da Informação Interação Homem-Máquina Sistema de Recuperação da Informação Ciências Cognitivas

• Pressuposições e intencionalidade entre as mensagens trocadas são vitais para a percepção e o entendimento de tais mensagens.

O modelo concebido pelo autor trata dos componentes cognitivos e transformações que ocorrem no SRI durante o processo de busca. O modelo, representado na Figura 3, mostra a recuperação e busca de informação de maneira mais abrangente, em uma perspectiva geral, pois vem desde a definição e construção de objetos computacionais até o ator cognitivo que possui uma necessidade informacional. Tal modelo concentra-se na identificação dos processos de cognição que podem ocorrer em todos os elementos, ou atores cognitivos, envolvidos no processamento da informação, mostrando como Ingwersen (1996) sugere o modelo de interação entre SRI e os processos cognitivos. Esses processos são sustentados pelo ambiente social e pelo espaço cognitivo que interagem. Com as interações entre as estruturas intermediárias e a informações organizadas pelo SRI, o ciclo de interação do usuário com o SRI é conectado pelos aspectos cognitivos. Neste sentido, há uma variedade de atores humanos com diversos aspectos cognitivos que variam no tempo e no espaço.

De acordo com Ingwersen (1996), os atores cognitivos são vistos em quatro formas de interação: com objetos de informação, com os mecanismos computacionais, com as interfaces e em contextos organizacionais, culturais e sociais. A seguir são descritos os atores humanos, ou atores cognitivos, como são citados no modelo:

• Atores que criam os tipos de objetos de informação.

• Atores responsáveis por analisar índices dos objetos de informação.

• Atores que desenvolvem as funcionalidades da interface e de recuperação.

• Atores responsáveis por estruturar uma base de dados, programar uma máquina de busca e algoritmos de indexação.

• Atores seletores, que decidem a disponibilidade pública ou comercial dos objetos de informação.

FIGURA 3: Modelo Cognitivo de Interação de um SRI de Ingwersen Fonte: Wilson (1999).

INFORMATION OBJECTS - Text/knowledge repersentaions - Full text, pictures.../Semantic entities Models Interface/ Intermediary Individual user´s COGNITIVE SPACE - Work task/Interest - Current Cognitive State

Social/Org. environment - Domains

Query Request Models Models

functions Models - Problem/Goal - Uncertainty - Information need - Information behavior - Strategies/Goals - Tasks & Preferences

IR SYSTEM/SETTING - Search language/IR thecniques - Database structure

- Indexing rules/computational logic Models

• Atores que são, na verdade, os usuários que identificaram uma necessidade e buscam por informação.

• Atores que formam comunidades de indivíduos organizados num contexto social, cultural ou organizacional.

O modelo enfatiza o contexto temporal em que os processos de informação são executados durante a busca da informação. Inicialmente, os processos de interação social estão diretamente relacionados com os atores cognitivos por meio de um contexto organizacional ou sociocultural. Em seguida, a interação com a informação também ocorre entre os atores cognitivos e a manifestação cognitiva mantida nos aparatos computacionais e nos objetos de informação por via da interface, ou seja, dos aspectos de usabilidade. Os dois componentes seguintes interagem em sentido vertical e fazem parte central de um SRI. Em seguida, transformações cognitivas e emocionais de potenciais informações podem ocorrer sejam elas requeridas pelo ator individual, seja sua ocorrência determinada pelos contextos social, cultural ou organizacional que dizem respeito aos componentes relacionados aos aparatos computacionais e objetos de informação ao longo do tempo.

Por fim, na recuperação da informação, o SRI “conecta-se” ao usuário, trazendo outra “visão de mundo” diferente daquela que categorizou e indexou a mesma informação. Portanto, o funcionamento de um SRI contém três imagens do mundo, ou três componentes cognitivos: do usuário, do intermediar e do gerador do sistema.