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Conforme já foi demonstrado por diversos pesquisadores, não existe um corpo conceitual próprio da Ciência da Informação, o que leva, portanto, à busca de soluções para os problemas da área em outras disciplinas, gerando uma migração de conceitos, nem sempre apropriados. Quer dizer, nem sempre os pesquisadores da Ciência da Informação incorporam os conceitos de outras áreas, dando-lhes um sentido próprio, como nem sempre a apropriação é adequada. Essa questão que gira em torno da Ciência da Informação ocorre, fundamentalmente, pela sua extensa fronteira disciplinar.

Le Coadic (1996) aponta as questões fundamentais existentes na fronteira disciplinar da Ciência da Informação. O questionamento sobre o objeto “informação”, sua definição, origem e evolução são descritos de maneira a mostrar o quanto a Ciência da Informação não tem seus limites e contornos bem estabelecidos, sendo, para muitos estudiosos da área, “uma quase-ciência, emergente, clamando para descobrir o seu real objeto de pesquisa”. Portanto, tem-se como inerente à sua intensa característica interdisciplinar uma grande circulação de conceitos entre as áreas limítrofes. Na realidade, a Ciência da Informação é permeada por ciências das mais diversas origens, desde a filosofia e a organização do conhecimento humano, até a matemática e a computação, conforme mostra a figura 1. O que se tem, então, é o papel da informação que transporta conceitos, desde a sua visão matemática, como a forma matemática de Brookes (1980, 1981), até o seu papel de transmissão na comunicação social. Assim sendo, investigar sobre as áreas disciplinares da Ciência da Informação é entrar em um campo complexo do conhecimento, sendo preciso perceber estes estudos no contexto de um mundo pós-moderno e em constante mutação (MORIN, 1999).

Analisando de forma mais precisa a fronteira disciplinar, Japiassu (1976, pg. 72) descreve que a melhor maneira de precisar a fronteira disciplinar é estabelecer um quadro de atividades. Para tanto, diferencia disciplinaridade e disciplina. Para o autor, "disciplina tem o mesmo sentido que ciência" e disciplinaridade é o "conjunto sistemático e organizado de conhecimentos que apresentam características próprias nos planos do ensino, da formação, dos métodos e das matérias". O autor concentra-se no termo interdisciplinar por achar que, dentre os conceitos vizinhos, como multidisciplinaridade, pluridisciplinaridede e transdisciplinaridade, apenas o interdisciplinar exprime o papel atual da epistemologia das ciências humanas. Porém, como outros autores, compara aqueles termos ao interdisciplinar, com vistas a uma melhor descrição e distinção. Para Japiassu (1976, p. 74), a interdisciplinaridade se diferencia pela intensidade das trocas entre os especialistas, pelo grau de integração disciplinar, pela integração conceitual e metodológica, ou seja, a migração conceitual. O interdisciplinar se destaca por estar além de um simples monólogo, ou de um diálogo paralelo, pois a interdisciplinaridade visa à união do conhecimento. O papel do interdisciplinar, segundo Japiassu (1976, p. 75), consiste, primordialmente, em lançar uma ponte para religar as fronteiras que haviam sido estabelecidas

FIGURA 1: As fronteiras disciplinares da Ciência da Informação.

anteriormente entre disciplinas com o objetivo de assegurar a cada uma seu caráter propriamente positivo, segundo modos particulares e com resultados específicos.

Portanto, segundo essa perspectiva, a Ciência da Informação está presente em um processo de mutação, ora interferindo nas mudanças científicas, ora adaptando-se a elas. Para França (2006), a interdisciplinaridade refere-se a determinados temas ou objetos da realidade que são apreendidos e tratados por diferentes ciências. Não acontece aí um deslocamento ou uma alteração no referencial teórico das disciplinas, ou seja, esse referencial não é “afetado” pelo objeto; é o objeto que “sofre” diferentes olhares. A transdisciplinaridade, por sua vez, compreende um movimento diferente. Uma determinada questão ou problema suscita a contribuição de diferentes disciplinas, mas essas contribuições são deslocadas de seu campo de origem e entrecruzam-se num outro lugar – em um novo lugar. São esses deslocamentos e entrecruzamentos – esses transportes teóricos e conceituais – que provocam uma iluminação e uma outra configuração da questão tratada. Portanto, conceitos também podem sofrer deslocamentos. E é esse tratamento híbrido que constitui o novo objeto. Compreende-se que as pesquisas em Ciência de Informação moldam-se ao “olhar” e ao “lugar” em que se encontra o investigador, integrando novas variáveis ou assumindo diferentes papéis ao migrarem os conceitos.

Portanto, a Ciência da Informação conta com diferentes enfoques conceituais de seu objeto de estudo, de seus métodos e limites de abrangência, não contando, ainda, com uma base teórica sólida sobre migrações conceituais. Acredita-se, portanto, que a dificuldade em compreender o limite da disciplina da Ciência da Informação não está ligada somente a esse fato. Como tem sido demonstrado em vários estudos, a informação é por si só base fundamental para se investigarem os diversos fenômenos humanos, sendo objeto de interesse de diversas áreas do conhecimento, conforme foi demonstrado pelos pesquisadores em Ciência da Informação, tais como Ingwersen (1982, 1992a, 1992b, 1996), Le Coadic (1996), Saracevic (1996), Orrico (1999), Hjorland (2000) e outros. Portanto, as pesquisas em Ciência da Informação advêm da evolução de diversas investigações, diversas abordagens e estudos realizados por áreas distintas, mas que se cruzam no interesse de se entender o fenômeno informacional. Como esclarece Orrico (1999):

Para realizar um trabalho interdisciplinar, é necessário estabelecer tanto uma definição comum dos conceitos teóricos afins, quanto uma metodologia que dê conta dessa situação particular. Essa redefinição conceitual e metodológica é necessária para que se

possam ultrapassar os limites impostos pela organização acadêmica que justapôs as disciplinas como entidades autônomas, distanciadas da vida real (ORRICO, 1999, p. 20).

Nesse sentido, os estudos acerca da Ciência da Informação fazem parte de um campo complexo do conhecimento que visa a “tornar mais acessível um acervo crescente de conhecimento” (SARACEVIC, 1996). Por isso, é preciso compreender esses estudos no contexto de uma realidade complexa e em constante mutação, conforme postula Morin (1999, 2007). A forte característica interdisciplinar da Ciência da Informação deve-se também ao fato de que, como explica Hjorland (2000), quase toda disciplina científica usa o conceito de informação dentro de seu próprio contexto e com relação a fenômenos específicos. Sem dúvida, um dos grandes problemas da atualidade é a informação, sua produção, armazenamento, organização, disseminação e uso. As áreas que circundam a Ciência da Informação surgem em um contexto de inter-relações e justaposições de olhares de diversas ciências, tornando complexo identificar os seus limites e um corpo teórico bem definido. Segundo Saracevic (1996), a Ciência da Informação forma um campo interdisciplinar por atuar em áreas de concentração de problemas altamente complexos que, como tais, são tratados de várias formas em muitos campos.