3. BULGULAR VE TARTIŞMA
3.4. YILLIK GÜRÜLTÜ HARİTALARININ OLUŞTURULMASI
Sabemos que a concepção de trajeto temático se formula na terceira época da AD, momento em que o campo empreende deslocamentos importantes. Como já mencionamos neste capítulo, são turbulentas as agitações históricas que sacodem o cenário político da França nos anos oitenta. A compreensão dessa conjuntura é imprescindível para entender as reformulações engendradas pela AD, como a ampliação do seu objeto de análise, através da necessidade de entender o estatuto da circulação dos discursos na sociedade midiatizada.
As mudanças realizadas incidem no plano da disposição do corpus, uma vez que as formações discursivas deixam de ser pensadas como blocos homogêneos fechados em si e em relação a um exterior ideológico. Sucumbe a noção de formação ideológica que orientou as primeiras formulações, afetadas por um contexto intelectual de leituras althusserianas. Cada vez mais, confirma-se uma concepção heterogênea das formações discursivas, muito mais próxima da ideia de uma rede de enunciados do que de uma ideologia dominante. Isto é, como elucida Gregolin (2005), torna-se mais complexa a noção de “condições de produção” do discurso, que passa a ser pensada como a articulação de um feixe de enunciações. Não se trata mais de formação ideológica de classe, mas de dispersão de lugares enunciativos.
Esse ponto de viragem implica na convocação de novas reflexões conceituais, alimentadas, é certo, pela aproximação da AD com a Nova História e pelos diálogos com os historiadores do discurso. A sondagem da memória discursiva se impõe e se sofistica na AD. Não é a esmo que Courtine (1994 apud SARGENTINI, 2008a, p. 131) afirma que “a linguagem é, por excelência, o tecido da memória”. É o trabalho da linguagem na memória que faz lembrar ou esquecer o que foi dito; ecoar, repetir ou silenciar enunciados. Certamente, como bem pontua Courtine (2009a), a noção de memória discursiva se distingue da memorização psicológica, uma vez que diz respeito à existência histórica dos enunciados no interior de práticas
discursivas. Trata-se da memória coletiva que se alimenta a partir de suas formações discursivas. Os efeitos de memória se regularizam, pois, nos movimentos de lembrança, repetição, refutação e também esquecimento dos elementos de saber enunciados. A memória se materializa no discurso, na relação entre intradiscurso e interdiscurso, quando uma formulação retorna à atualidade a partir de outra conjuntura discursiva. Essa dimensão temporal (mas não cronologista) do processo discursivo, Courtine divide nos domínios de memória, atualização e antecipação. Em linhas bem gerais, o domínio da memória representa o interdiscurso; o domínio da atualidade inscreve a instância do acontecimento; o domínio de antecipação é o que garante a abertura do processo discursivo, que contempla formulações que sucedem a sequência discursiva em questão como efeitos de antecipação.
Conforme Guilhaumou e Maldidier (1994), a problematização do conceito de arquivo é ponto de partida para as configurações metodológicas que a AD propõe na sua relação com a História. Em sua primeira etapa, a AD se prendeu ao gênero do discurso político e não sentiu necessidade de diversificar o arquivo. Com o avanço das pesquisas e a instalação do social no político, torna-se indispensável abranger a multiplicidade de dispositivos textuais disponíveis e, desse modo, considerar a complexidade do fato arquivista. Destarte, os analistas do discurso reiteram as preocupações dos historiadores de mentalidades que, ao se debruçarem sobre seus objetos de estudo, confrontam séries arquivistas, considerando os múltiplos regimes de produção, circulação e leitura de textos. Dessa maneira, trabalham tanto a longa duração quanto o acontecimento. Assim sendo, cabe ao analista partir de outro lugar que não o funcionamento institucional do arquivo, visto que ele não é mero espelho da instituição que lhe chancela. “O arquivo não é um simples documento no qual se encontram referências; ele permite uma leitura que traz à tona dispositivos e configuração significantes” (GUILHAUMOU; MALDIDIER, 1994, p.164).
As considerações levantadas por Michel Foucault em A arqueologia do Saber acerca do arquivo são decisivas nesse momento da AD. Para Foucault (2005a), o que define o arquivo não é o agrupamento de documentos sob a guarda institucional, e sim o conjunto de enunciados produzidos em determinada época, sob certas condições e práticas de funcionamento, que se prolongam no tempo através da memória.
Evidentemente, a sofisticação da noção de arquivo requer métodos de tratamento, ou seja, problematiza-se a leitura do arquivo pela AD. Nessa perspectiva, o conceito de trajeto
temático é bastante elucidativo. Com efeito, o arquivo contempla um recorte histórico, e o acontecimento discursivo cumpre algumas de suas possibilidades. Assim, a noção de trajeto temático vem justamente permitir a análise da emergência dos acontecimentos discursivos na dispersão do arquivo. Isto é, se o acontecimento discursivo “é apreendido na consistência de enunciados que se entrecruzam em um momento dado” (GUILHAUMOU; MALDIDIER, 1994, p.166), o trajeto temático é o que articula os temas em um agrupamento de textos e instala o “novo na repetição” (GUILHAUMOU; MALDIDIER, 1994, p.166).
Enquanto exercício analítico,
A noção-método de trajeto temático desenvolve-se a partir da seleção de um tema, uma palavra ou expressão que será analisada no interior de um arquivo, permitindo acompanhar os sentidos advindos de uma memória discursiva, sujeitos ao domínio da atualidade e da antecipação (SARGENTINI, 2008a, p.133).
De acordo com essa perspectiva, propomos perscrutar o trajeto temático do sintagma “inclusão digital”; tema que tem sua circulação acelerada a partir do exame cartográfico dos setores excluídos do processo de informatização da sociedade brasileira, cuja visibilidade se efetiva a partir da publicação do Mapa da Exclusão Digital e, seguidamente, da implementação de políticas públicas na esfera federal que visam reparar o problema.
Como mencionamos anteriormente, a produção de novas formas de exclusão na ordem global excita a implosão de movimentos sociais que reivindicam a emancipação frente aos modelos excludentes. Nessa conjuntura, o leitmotiv da “inclusão social” se torna tema recorrente nos embates discursivos que disputam orientações políticas e ações sociais que corrijam os descompassos produzidos pelo neoliberalismo. O sintagma se integra ao vocabulário de múltiplos movimentos sociais. Passando, pois, a contemplar uma versatilidade de reivindicações; o que fez com que, em sua circulação, o termo “inclusão” ganhasse novos determinantes: inclusão racial, inclusão digital, etc. Repete-se o vocábulo “inclusão”, ao passo em que se substitui o “social” por outros determinantes que particularizam e distinguem os alvos da luta.
Tomamos a publicação do Mapa da Exclusão Digital como acontecimento que empresta visibilidade às formas de exclusão produzidas pelo avanço da informatização no Brasil. Com base em pesquisas domiciliares e em estabelecimentos, bem como em registros
administrativos, o Mapa perscruta quem está à margem da cultura digital. A cartografia agrupa dados relativos à idade e a índice de escolaridade, como também a gênero e etnia. Os comparativos informam sobre as desigualdades regionais, identificando que os estados mais pobres são também aqueles com menores taxas de acesso. Além disso, o mapeamento indica números referentes ao inexpressivo alcance das redes digitais de comunicação em áreas rurais. Com publicação em 2003, mesmo ano que o Governo Federal implementa um programa de inclusão digital, o Mapa abaliza a abertura de uma arena discursiva em torno do Brasil online.
A constituição do sintagma “inclusão digital” e sua ampla circulação nas mídias demarca, historicamente, a associação das novas tecnologias da comunicação a um fator de integração ou segregação na esfera sociocultural, bem como assinala sua instalação como objeto do discurso político. No momento em que as tecnologias são lançadas no discurso político – domínio menos estabilizado dos sentidos –, torna-se vacilante a pretensa objetividade do discurso tecnocrático.
Mapa da exclusão digital. Disponível em:
<http://www.socialiris.org/Imagem/boletim/arq48d6fb75c632 f.pdf>. Acesso em: 5 fev. 2010.
BADÔ, Fernando. Com a Rede Povos da Floresta, internet chega a aldeias indígenas. Folha de São Paulo, São Paulo, 27 set. 2003. Disponível em:
<http://soma.org.br/sys/popMaterias.asp?codMateria=Q5eufl6cznkI&secao=show>. Acesso em 5 fev. 2008.