Em 2003, a Lei de Informática estava em plena vigência (como vimos acima, ela foi aprovada com validade até 2009). Mas voltou ao centro da discussão durante a discussão da Reforma Tributária no governo Lula, um ano e meio depois de ter sido aprovada. Ela não era tema de discussão da reforma, mas serviu como moeda de troca do PSDB (principalmente, dos representantes de São Paulo) para que o partido aceitasse a prorrogação da Zona Franca de Manaus por dez anos66
.
A Lei de Informática não fazia parte, portanto, da pauta do governo Lula. Ele só aceitou sua prorrogação como forma de dar continuidade à Reforma Tributária. É interessante observar que o cenário em que a Lei de Informática volta a ser discutida nesse momento é bastante diferente daquele de 1999. O ano de 2003 foi marcado pela alteração do quadro de forças no Congresso Nacional. Em 1999, PFL, PSDB e PMDB eram os maiores partidos. Em 2003, o PT e o PMDB eram os maiores partidos, seguidos pelo PFL67
. Deve-se ainda considerar que houve mudança na condução do governo, de um partido de centro (PSDB) para um partido de esquerda (PT)68
.
Essas alterações, no entanto, não tiveram influência na forma como a Lei de Informática foi discutida no Congresso. Mais uma vez, houve a polarização entre os interesses da bancada do Amazonas, de um lado, e os interesses das bancadas dos estados produtores de TI, principalmente de São Paulo, de outro. A bancada do Amazonas, contudo, teve, no governo Lula, a oportunidade de ver concretizada a ampliação do prazo dos benefícios fiscais da Zona Franca de Manaus, como veremos a seguir.
66 A Constituição Federal de 1988 determinou a manutenção da Zona Franca de Manaus como área de livre comércio e de incentivos fiscais até 2013.
67 Veja Tabela 8 nos Anexos, à página 94
68 Sobre a definição ideológica dos partidos, ver, por exemplo Figueiredo & Limongi (2001), Rodrigues (2002) e Santos (2001).
Na Comissão Especial da Reforma Tributária, foram apresentadas cinco emendas propondo que o prazo dos benefícios fiscais da Zona Franca de Manaus fosse ampliado – quatro prorrogavam os benefícios até 2023 e uma, até 2030. Essas emendas foram propostas pelos deputados do Amazonas: Vanessa Grazziotin (PCdoB), Pauderney Avelino (PFL)69, Silas Câmara (PTB), Lupércio Ramos (PPS) e Humberto Michiles (PL). As emendas faziam parte da pressão dos deputados do Amazonas para que o governo Lula cumprisse a promessa de campanha de prorrogar o prazo dos incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus.
Ao incorporar no substitutivo da Comissão Especial a prorrogação da Zona Franca de Manaus, o governo precisou negociar com a oposição para que o texto fosse aprovado. Isso porque a ampliação do prazo da Zona Franca de Manaus tinha que ser feita a partir de emenda constitucional, o que exige aprovação de 3/5 dos parlamentares em cada casa legislativa. Foi nesse episódio que a Lei de Informática voltou ao centro do debate. Para aceitar a extensão do prazo da Zona Franca de Manaus por dez anos, o PSDB, em especial, a bancada paulista, exigiu a prorrogação da Lei de Informática também por mais dez anos.
Segundo o deputado Julio Semeghini (PSDB-SP), o acordo envolveu todos os líderes partidários, que apoiaram a extensão da Lei de Informática até 201970
. A bancada do Amazonas, com aval do governador do estado, Eduardo Braga (PPS)71
, aceitou o acordo.
A concretização do acordo foi a Emenda Constitucional n° 42 de 2003, que ampliou o prazo da Zona Franca de Manaus até 2023 e determinou que o Executivo deveria encaminhar ao Congresso, sob urgência constitucional, um projeto de lei estabelecendo a vigência da Lei de Informática até 2019.
A forma como se deu a entrada da Lei de Informática na pauta do governo Lula é bem distinta da forma como o tema entrou na pauta no governo FHC. Naquele período, o tema foi pautado principalmente pela pressão das empresas
69 Vanessa Grazziotin (PCdoB) e Pauderney Avelino (PFL) foram dois dos deputados do Amazonas que mais se destacaram em defesa da Zona Franca de Manaus.
70 Entrevista realizada com o deputado Julio Semeghini, por telefone, em 13/07/2007
71 Pelas atas de reuniões da Câmara, vimos ainda que o governador do Estado, Eduardo Braga (PPS), e o prefeito de Manaus, Alfredo Nascimento (PL), acompanharam as negociações de perto.
do setor, em especial, aquelas de São Paulo. Já no governo Lula, o tema voltou à tona dentro do próprio Congresso.
Nesse episódio da Reforma Tributária, os deputados do Amazonas foram os principais beneficiados, já que a emenda constitucional, por si só, era garantia da extensão do prazo da Zona Franca de Manaus. Já para a Lei de Informática, havia apenas a determinação de que um projeto de lei fosse encaminhado ao Congresso. Ou seja, a prorrogação da Lei de Informática ainda dependia de uma prorrogação.
Mas podemos argumentar que o resultado não foi tão satisfatório como gostaria a bancada do Amazonas, já que ela precisou concordar com a prorrogação da Lei de Informática para que seu objetivo fosse atingindo.
Quem saiu perdendo nesse episódio foi o governo federal, que não parecia disposto a mudar a legislação da Zona Franca de Manaus naquele momento. Nossa afirmação baseia-se no fato de o primeiro substitutivo do relator Virgílio Guimarães (PT-MG) não ter incorporado nenhuma das emendas que previa a alteração do prazo da Zona Franca de Manaus. Além de ter que cumprir sua promessa de campanha naquele momento, o governo teve que aceitar também a prorrogação da Lei de Informática, assunto que não fazia parte de sua pauta de governo.
Passamos, então, à análise da tramitação da prorrogação da Lei de Informática na Câmara dos Deputados. Como fizemos com a tramitação da Lei n° 10.176/2001, buscamos identificar os principais atores, interesses e a forma como estes se organizaram em torno da discussão que ocorreu em 2004. O relator da matéria na Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) foi novamente o deputado Julio Semeghini (PSDB-SP).