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Antes de discutir os fundamentos básicos para a gestão dos recursos hídricos subterrâneos no município de Fortaleza, é necessário explicar a funções desempenhadas, direta ou indiretamente, para o desenvolvimento e controle dos recursos hídricos, sendo esta caracterização feita segundo várias classificações.

Neste trabalho, foi adotada a classificação proposta por Campos (2001), adotada no Plano Estadual de Recursos Hídricos do Ceará (CEARÁ, 1992), que se baseia em modelos propostos no Plano Integrado de Recursos Hídricos do Nordeste (SUDENE, 1980) e em Barth (1987) com base em cinco funções hídricas principais: gestão dos recursos hídricos, oferta hídrica, uso das águas, preservação sustentável e as funções complementares (Quadro 5.1.1). Quadro 5.1.1 – Principais funções hídricas consideradas no Plano Estadual de Recursos Hídricos do Ceará

FUNÇÕES HÍDRICAS GESTÃO Planejamento Gerenciamento

Regulamentação

OFERTA Represamento Poços

Cisternas USO CONSUNTIVO Abastecimento humano Abastecimento industrial Abastecimento rural Irrigação Aquicultura

NÃO CONSUNTIVO Geração hidrelétrica Navegação fluvial Lazer

Pesca e piscicultura extensiva

PRESERVAÇÃO Ações preventivas e corretivas

COMPLEMENTARES Ciência e tecnologia, Meio ambiente. Planejamento global, Incentivos econômicos e Defesa civil.

5.1.1. A Gestão dos Recursos Hídricos

A gestão das águas é o conjunto de procedimentos organizados no sentido de solucionar os problemas referentes ao uso e ao controle dos recursos hídricos e tem como objetivo atender, dentro das limitações econômicas e ambientais e respeitando os princípios de justiça social, a demanda de água pela sociedade a partir de uma disponibilidade. A gestão é formada por três sub-funções: o planejamento, o gerenciamento (administração) e a regulamentação (CAMPOS, 2001, p.41).

O planejamento é constituído pelo conjunto das atividades necessárias à previsão das disponibilidades e das demandas de água, com vistas a maximizar os benefícios econômicos e sociais. O planejamento consta das seguintes atividades: inventário dos recursos hídricos, estudo quali-quantitativo das águas, estimativa das demandas, estudos prospectivos do balanço oferta x demanda e da avaliação e controle do próprio planejamento.

O gerenciamento constitui-se nas ações que dão suporte técnico ao planejamento e aos mecanismos de avaliação da efetividade dos planos anteriores, tendo em mente uma realimentação dos futuros planos. O gerenciamento engloba a coleta e a divulgação de dados hidrológicos e meteorológicos, as estatísticas do uso da água, o poder de política administrativa e a programação executiva e econômico-financeira das obras previstas nos planos.

A regulamentação (legislação) é formada pelas ações desenvolvidas na formação de um suporte legal para o desempenho da gestão das águas, a partir do disciplinamento e normalização do funcionamento do Sistema de Recursos Hídricos, nos diferentes níveis (Federal, Estadual ou Municipal). A regulamentação é consolidada através de sugestões de leis, decretos, portarias, instruções e regulamentos.

5.1.2. A Oferta Hídrica

A gestão das águas, pelo aspecto da oferta, dá-se no sentido de aumentar as disponibilidades hídricas através da ativação das potencialidades. Assim, classifica-se como funções da oferta as diversas ações, em obras ou serviços, através das quais a água se torna disponível para utilização no tempo e no local onde ocorre a demanda. A função oferta compreende a construção e recuperação de poços, a captação de águas em lagos naturais, a captação de águas da chuva através de cisternas, etc (CAMPOS, 2001, p.43).

Um dos princípios básicos que norteia qualquer estudo hidrogeológico para planejamento e gestão da água, é o correto dimensionamento da oferta e demanda dos recursos hídricos. Porém, na hidrogeologia nem sempre é possível se realizar o dimensionamento da oferta, ou seja, o cálculo de reservas e disponibilidades, em função dos aspectos geológicos (por exemplo, no Sistema Cristalino) ou do uso e ocupação do solo, este resultando, quase sempre, em interferência antrópica sobre a qualidade das águas armazenadas em subsuperfície.

5.1.3. O Uso das Águas

A gestão dos usos das águas, atualmente vem sendo adotada sob a ótica da gestão da demanda, dá-se no sentido de utilizar, da melhor maneira possível, as disponibilidades hídricas viabilizadas pela oferta. Classificam-se, como funções do uso, o conjunto de ações necessárias para que a água se torne efetivamente útil aos homens, às plantas, aos animais e às paisagens. O uso acontece sob duas formas: o consuntivo, que ocorre quando há perdas, derivação ou consumo, havendo diferença entre a quantidade que é derivada e a que retorna ao corpo d’água. Como exemplos há a irrigação, a agricultura e o abastecimento humano; não-consuntivo quando não há consumo, derivação ou desperdício da água, representados nos usos dos corpos hídricos, como o lazer, a pesca e a piscicultura extensiva (CAMPOS, 2001, p.43).

A água subterrânea em Fortaleza é destinada para o uso doméstico (consumo, higiene e lavagem em geral), irrigação, recreação, indústria (bebidas, alimentícias, etc.) e outras funções (postos de combustíveis, lava jatos, construções civis, etc.).

Consumo humano

A qualidade da água para consumo humano baseia-se nos padrões de potabilidade, sendo os valores limites estipulados de forma a atender as características de estética e sabor, e não ser prejudicial à saúde.

A Portaria Nº 2914/2011 do Ministério da Saúde (BRASIL, 2011) estabelece que as águas que são utilizadas para consumo humano, sejam elas provenientes do abastecimento público ou de fontes alternativas como os poços, ao serem analisadas bacteriologicamente devem apresentar ausência (100 mL de amostra) para os grupos coliformes totais e fecais.

Irrigação

Na avaliação sobre as possibilidades da utilização de águas subterrâneas para irrigação, além da qualidade química das águas, outros fatores devem ser levados em consideração, tais como a textura e estrutura do solo; tipo de manejo; método de irrigação empregado e tipos de culturas. De um modo geral, qualquer água que seja potável ao consumo humano pode ser aplicada na irrigação, porém convém ressaltar que nem todas as não potáveis são impróprias para este uso (CAVALCANTE, 1998).

Recreação

A água utilizada para a recreação de contato direto ou primária (natação, hidroginástica etc.), exige um controle constante na sua qualidade físico-química, biológica e radiológica, pois podem oferecer risco à saúde humana, como ter presente organismos patogênicos e metais pesados. É usual adotarem-se os seguintes padrões: bactérias coliformes limite de NMP 200/100mL de água; pH em torno de 7 e piscinas com tratamento de cloro residual de 0,4 - 1,0 mg/L.

Indústria

Os padrões da água para fins industriais são complexos em função da diversidade de uso da água, pois dependem do tipo da indústria e dos processos de industrialização, gerando necessidades diferentes de qualidade de água para cada uso (SANTOS, 2008).

A água para fins industriais pode ser classificada segundo Mathess (1982), Szikszay (1993) e Driscoll (1986), considerando-se valores padrões de pH, dureza, alcalinidade, cálcio, cloreto, ferro, manganês, R.S. (Resíduo Seco: peso dos sais resultantes da evaporação de um litro d’água, após a filtragem para a remoção de materiais em suspensão), nitrato, amônia, sulfato, fluoreto e magnésio para águas utilizadas em indústrias de refrigeração, açucareira, curtume, laticínios, cervejaria, têxtil, conservas alimentícias, bebidas de suco de frutas e indústria de papel.

5.1.4. A Preservação Sustentável dos Recursos Hídricos

A preservação engloba as ações preventivas e corretivas voltadas para garantir o correto escoamento das águas, evitar a erosão do solo, promover a manutenção da vegetação e a implantação de novas áreas verdes. As ações de preservação também criam barreiras que impedem ou reduzem a poluição da água.

O termo “sustentável” segundo Leal (1998), apud Peixinho (2010), supõe um sistema totalmente autossuficiente e sem rejeitos, em total equilíbrio. Sabe-se, todavia, que não é possível um sistema totalmente sustentável, segundo a Lei de Conservação da Energia, que tem a analogia com o sistema ambiental, que se deseja é o maior grau possível de sustentabilidade respeitando os limites de autorregeneração da natureza.

O desenvolvimento de uma sociedade tem como base de sustentação os seus recursos naturais e estes são impactados pelo tipo e grau de desenvolvimento adotado. Portanto, existe uma forte interação entre os meios econômicos e físicos (PEIXINHO, 2010).

A degradação ambiental, uma das manifestações da crise atual, está caracterizada basicamente por dois aspectos: escassez de recursos naturais e saturação do meio como receptor dos rejeitos da atividade humana (poluição). De acordo com Leal (op. cit.), apud Peixinho (op. cit.), dois fatores contribuem fortemente para a degradação ambiental: o grande crescimento da população mundial nas últimas décadas e o modo de exploração predatória dos recursos naturais, numa crescente perda de eficiência dos processos produtivos.

5.1.5. As Funções Hídricas Complementares

As funções complementares são formadas essencialmente pelas ações de suporte ao funcionamento do setor hídrico; constituem atividades de apoio como o treinamento para capacitação de pessoal técnico, o desenvolvimento de pesquisas, a orientação técnica dos usuários de água etc.

Segundo Matta (2002), é necessária a implementação de um amplo programa de educação hidroambiental, enfatizando o elemento água, através de políticas interdisciplinares e multi-institucionais, envolvendo as instituições públicas e privadas, ONGs, associações comunitárias e parcerias em geral, utilizando principalmente aquelas com experiências comprovada no tema e sistematizada através de parcerias com os poderes públicos municipais e estaduais.

Benzer Belgeler