3. MATERYAL YÖNTEM
3.1. Materyal
3.1.2. YetiĢtirme Ortamları
Como estudo de caso neste capítulo, analisamos a revista Veja, por ser uma das revistas de maior circulação em território nacional, constituindo-se em um bom exemplo de um veículo de comunicação que opera em uma larga abrangência, pois é a revista de maior circulação no Brasil e possui o seu acervo facilmente disponível para pesquisa. Desta maneira, pode-se dar uma maior contribuição para o trabalho de sistematização de certos aspectos da cultura que circula acerca dos eventos que marcaram o pós 11 de setembro, em especial a guerra do Iraque. Sendo a revista um forte representante dos interesses multinacionais no país, iremos analisar como essas relações existentes entre as empresas e este meio de comunicação fazem com que determinados pontos de vista sejam veiculados seguindo as diretrizes de certos condicionamentos mercadológicos, que atendem a interesses de grandes empresas. Ao folhear a Veja, nos damos conta da
quantidade de anunciantes que se utilizam da revista para promover suas marcas. Existe um apelo publicitário muito forte na revista que recorre às mais diversas formas de seduzir o público. Os anunciantes da revista são multinacionais que estão instaladas no país. São eles que sustentam a editora e que inviabilizam a possibilidade de um discurso que se oponha à ordem econômica prevalecente.
A globalização da sociedade contemporânea e o poder das grandes corporações transcendem as barreiras nacionais, fazendo com que a influência norte-americana se torne presente no mundo como um todo. Para que tal projeto se realize, a ajuda dos aparelhos midiáticos e dos meios de comunicação se fazem absolutamente necessários, sendo estes artigos de primeira necessidade para o capital internacional, que visa enraizar as suas estruturas ideológicas e naturalizar ações que sejam funcionais a suas demandas. É neste contexto que podemos enquadrar o raio de ação da revista Veja. Podemos atestar isso ao observarmos a maneira como a grande mídia, atrelada aos interesses multinacionais, noticia um evento como a guerra do Iraque, iniciada em 2003. Enfocamos a fabricação dos discursos acerca da guerra do Iraque por parte da Veja no período dos seis primeiros meses de 2003, na seção de reportagens “Internacional”, sendo tal análise necessária para se identificar a posição da revista com relação à guerra. A partir daí, podemos fazer uma caracterização da cultura histórica veiculada em tal meio de comunicação. Procuramos, para orientar nossa análise, trabalhar com o conceito de Orientalismo, discutido pelo crítico literário Edward Said. Por se tratar de representações que a revista faz acerca do Oriente Médio, cabe uma caracterização acerca de como aquele pedaço do mundo é tratado. Por Orientalismo, Said entende um conjunto de idéias instituintes de uma concepção acerca dos não-alinhados à cultura ocidental, que são pragmaticamente utilizadas para atender às finalidades imperialistas dos países do Ocidente que procuram se expandir política e economicamente (SAID, 2007, p.29). As relações e interações existentes entre a cultura histórica e o poder político e econômico ao qual atendem os meios de comunicação, em particular no caso da revista Veja, é o foco trabalhado na sequencia deste capítulo.
A imprensa se adéqua aos padrões do mercado e do capitalismo que possui uma escala planetária. Observamos o poder dos fortes grupos editoriais que passam a monopolizar os mercados e, seguindo a lógica do capitalismo, procuram fazer da notícia nada mais que um produto de consumo. Produto esse que influencia fortemente a consciência do público e a formação da cultura histórica e política. Em 1968, a Editora
Abril cria a revista Veja com tiragens semanais e modelo baseado na revista norte- americana Time. Desde então, a publicação cresceu e se tornou popular a ponto de ser a maior referência do jornalismo em revistas do Brasil, tendo esta hegemonia se consolidado cada vez mais. A popularidade da Veja e seu poder de formar opinião é algo a ser explorado como um útil exemplo de veículo formador de uma cultura histórica.
Observamos nas reportagens analisadas o esforço feito para que haja adequação da opinião pública brasileira aos moldes ideológicos que são valorizados e veiculados pelos norte-americanos, sendo a publicação um eficiente porta-voz dos interesses estadunidenses no âmbito nacional, ou seja, difundem-se ideologias que servem às elites dando-se privilégio aos interesses das grandes empresas, estas dão o tom das normas de publicação do veículo. Tem-se o objetivo de atingir aquela parcela da população que forma o que se convenciona chamar de opinião pública, que é representado pelas classes médias, os maiores consumidores de notícias. A grande mídia brasileira, da qual a revista aqui estudada faz parte, mantém relações de submissão com a norte-americana. Esta penetração ideológica se faz presente tanto na maneira de perceber os fatos quanto nos significados conceituais e valores éticos que entram em circulação com a publicação. A proeminência financeira faz dos Estados Unidos um grande controlador das mídias internacionais, sendo sua influência no Brasil avassaladora, algo que se pode confirmar nos discursos analisados.
Os empresários da grande mídia nacional são aqueles que possuem interesse neste sistema, o que faz com que ele se propague e permaneça excluindo os que se opõem a tal esquema de manipulação das informações. Isto, segundo os critérios éticos da profissão jornalística, seria o protótipo do anti-jornalismo. Em nenhuma situação, existe espaço para idéias que se mostrem contrárias àquelas adotadas pela linha editorial da publicação. Abrir espaço para que sejam comentadas certas perspectivas opostas a tais interesses significa dar visibilidade a uma grande parcela do mundo, o que representa um perigo, pois pode dar ensejo para outras formas de percepção e interpretação do mundo que fogem à perspectiva pretendida pela editora. As formas de difusão de informação existentes no mundo atual possuem poder de legitimar ou desautorizar ações de conservadorismo ou rebeldia, sendo este controle, sobre a cultura histórica veiculada em uma sociedade, algo estratégico para os mecanismos de poder. Não é difícil observar, a partir das análises feitas na revista Veja, que os povos que se
situam longe do raio de abrangência da cultura norte-americana, são introduzidos na História apenas a partir de seus contatos com os ocidentais, não possuindo autonomia alguma para darem voz a si mesmos.
Podemos constatar que, na mídia brasileira, predominam verdadeiros latifúndios ideológicos. Grande parte deles concedidos na época da ditadura militar. A Editora Abril não foge a esse padrão. Nesta editora, a revista Veja tem total liberdade para desempenhar em suas páginas a função de aglutinar as demandas das classes dominantes, atreladas às grandes corporações internacionais. A difusão dos projetos destes setores é essencial para o funcionamento da revista. Isto é feito de forma escamoteada. Estrategicamente, tais informações são transmitidas com uma roupagem que dá a entender serem os interesses nacionais que estão sendo defendidos. Na verdade, o que a revista procura, é a elaboração de uma cultura histórica que permaneça atrelada em interesses relativos aos grandes conglomerados multinacionais, os mesmos que vêm estampando as páginas de propaganda da revista. Estes conglomerados são os que trazem o seu sustento, dando suporte financeiro à publicação mesmo antes de ela chegar às bancas. Isso é de fundamental importância para entender o papel social da revista Veja. Ela vive de contratos publicitários que são firmados com tais empresas, servindo, assim, de porta-voz destas empresas, contribuindo para que a sociedade seja educada segundo os princípios ajustados para a dominação dos mercados (SILVA, 2009, p.19). A revista procura, em seu mecanismos de ação, desenvolver um plano ideológico, uma espécie de pedagogia do mercado, que torne a sua leitura uma atividade educativa na qual as elites possam estruturar uma mentalidade adequada com o intuito de criar comportamentos que estejam em sintonia com um mundo em que há o domínio de um mercado globalizado com a orientação neoliberal. Pela análise das reportagens que dizem respeito à invasão do Iraque pelos norte-americanos, nós confirmamos a hipótese de trabalho utilizada nesta dissertação e indicadora de que a publicação da Editora Abril é uma forte defensora da lógica econômica atrelada ao capital externo, agindo como um partido e encaminhando, assim, o fomento da dominação capitalista no Brasil, desautorizando aqueles que possuem manifestações culturais distintas da hegemonia norte-americana.
Identificamos posições ideológicas muito nítidas, em que prevalece a luta contra os dissidentes das diretrizes políticas, econômicas e culturais defendidas pela revista. Nestes embates ideológicos levados adiante pela revista, são utilizados velhos
métodos discursivos que eram levados a cabo no período em que o inimigo a ser combatido, eram os comunistas, onde o pensamento divergente é desqualificado a partir do uso de estereótipos já arraigados no senso comum, de forma a apoiar ações repressivas sem que seja levado em conta o que tais opositores têm a dizer. É flagrante o uso de uma argumentação maniqueísta, simplificadora das complexidades existentes no mundo, e que sempre toma partido dos interesses mercadológicos quando se refere aos eventos narrados. Acompanhamos na análise como isto se manifesta no caso da invasão do Iraque. Constrói-se uma vitimização dos EUA frente à “impiedosa ameaça árabe”, sendo lançado sobre estes povos uma visão unidimensional, encarnando-se neles o Mal absoluto. Vemos estampado nas páginas da Veja um duelo entre o mocinho agredido e o pecador impiedoso, que deve ser exterminado. Observamos o uso de mecanismos de espetacularização, onde a superficialidade do discurso é permeada com componentes emocionais, repassados como verdadeiros,
isto deu credibilidade à idéia de que a informação –não importa que informação- sempre é simplificável, redutível, capaz de converter-se em espetáculo de massa e decompor-se num certo número de segmentos-emoções (RAMONET, 1999, p.22).
Isto leva à reprodução de preconceitos, reproduzindo os estigmas sociais que passam a se localizarem na esfera do “socialmente aceito”. Essa prática é útil para a manutenção do sistema do capital. O mundo é mostrado de forma superficial e, ao mesmo tempo, pedagógica, evitando-se grandes complexidades no trato das notícias, acentuando-se os estigmas sociais através do uso de uma argumentação maniqueísta, na qual a guerra ao terror seria mostrada como uma luta entre o Bem e o Mal, resistindo a contemplar a pluralidade que existe no mundo vivido.
De uma forma bem clara, o que não se adéqua à forma como o mundo industrializado se organiza, é tratado como uma espécie de inimigo da humanidade, do desenvolvimento e da noção de progresso com a qual a revista possui estreitos vínculos. A leitura de realidade que se procura encorajar na Veja, é a de que não existem alternativas aos modelos de desenvolvimento hegemônicos capitaneados pelas multinacionais que funcionam sob tal lógica econômica. A escancarada parcialidade com que a revista manuseia a temática da Guerra do Iraque, expressa o quanto os
interesses econômicos se sobrepõem à ética do ofício do jornalismo. Nas reportagens analisadas, conseguimos observar como o veículo se demonstra pronto para atacar qualquer empecilho que seja colocado contra a globalização hegemônica, tratando-o como um atentado à civilização e aos seus supostos benefícios para a humanidade. É tarefa da revista estabelecer adequados princípios educativos que possam adequar ideologicamente a sociedade brasileira aos patamares da ordem global promovida pelo capital multinacional.