Considerando o tempo de realização da pesquisa e a complexidade da temática, optamos por entrevistar um grupo de quinze técnico-administrativos que haviam declarado-se negros (pretos e pardos) e brancos nos questionários. Observamos, ainda, os seguintes critérios:
representatividade de técnico-administrativos pretos, pardos e brancos das cinco classes funcionais;
equilíbrio de gênero;
representatividade de trabalhadores das Unidades e Órgãos do Campus Pampulha e Campus Saúde;
representatividade de trabalhadores das Unidades Acadêmicas e Órgãos Administrativos.
Ressaltando que os pseudônimos foram escolhidos pelos/as entrevistados/as, o quadro de selecionados ficou assim definido
QUADRO 1
Trabalhadores Selecionados/Pertencimento racial
Classes Pretos/as Pardos/as Brancos
A Janaína - HC Júlio - Odontologia Martinho - Farmácia B Tiago – ICB Nina Abreu-HC -- Zezé - Medicina C Luiz - HC Simone – HC e Maria - IEAT Vick - CECOM
D Pelé - FAFICH -- Ângela – DAC-PROEX
E Filó - CP Orquídea - SAST Vitor - CECOM
3.5.1.1 Pretos
Janaína – trabalha em setor majoritariamente negro, ocupa cargo de chefia e é mulher. Tiago – alfabetizado; trabalha em um setor com condições bastante precárias.
Nina Abreu – trabalha no setor de nutrição do Hospital Universitário. Atualmente é uma das coordenadoras do Sindicato.
Luiz – trabalha diretamente com público. Já foi coordenador de políticas sociais e anti- racismo da FASUBRA, atualmente é membro do Fórum Municipal de Promoção da Igualdade Racial, representando a CUT.
Pelé – trabalha no Setor de Comunicação da TV Universitária e já participou de vários eventos sobre a temática étnico-racial dentro e fora da UFMG.
Filó – ocupa função de chefia e desenvolve trabalho sobre a questão racial com estudantes da educação básica. Manifestou interesse em participar assim que ficou sabendo da pesquisa.
3.5.1.2 Pardos
Júlio – trabalha na lavanderia da Faculdade de Odontologia. Optamos por incorporá-lo à pesquisa por pretendermos cruzar as informações sobre condições de trabalho e pertencimento étnico-racial do setor na Odontologia e Hospital das Clínicas, além de ser ele o único autodeclarado pardo nesta classe.
Maria – trabalha no Instituto de Estudos Avançados e Transdisciplinares - IEAT e comunicou-nos, após o preenchimento do questionário, que havia sido impactada pelas perguntas. Vive em tensão com a questão da identidade negra.
Simone – trabalha à noite e é ocupante do cargo de Auxiliar de Enfermagem do Hospital Universitário - cargo ocupado por número elevado de mulheres e negras.
Orquídea – é enfermeira. Atua no setor de saúde do trabalhador, o que propicia o contato com trabalhadores/as de vários órgãos e setores da Universidade.
3.5.1.3 Brancos
Martinho – trabalha no setor de serviços gerais da Escola de Farmácia. É o único branco da Classe A.
Zezé – é auxiliar em agropecuária, cargo ocupado em sua maioria por homens negros.
Vick – Assistente de Tecnologia da Informação, trabalha em um setor considerado estratégico na universidade. No primeiro contato pareceu-nos contrária às políticas afirmativas; optamos por verificar se esta percepção confirmar-se-ia durante a realização da entrevista.
Ângela – Assistente em Administração, trabalha na Pró-Reitoria de Extensão - PROEX. Preencheu o questionário no lugar de um colega que se recusou a fazê-lo. Consideramos o ato como relativa prova de comprometimento com a pesquisa.
Vítor – Analista de Tecnologia da Informação, ocupa cargo de chefia há aproximadamente 20 anos. Trabalha na área técnica, em setor também estratégico na instituição.
Em suma, o grupo selecionado é constituído por perfis étnico-raciais e de gênero distribuídos nas diferentes classes dos técnico-administrativos negros e brancos da UFMG, cuja descrição sintética já revela profunda complexidade. Entrevistá-los trouxe-nos, portanto, elementos importantes para a compreensão da questão étnico-racial nesta universidade, além de ter-lhes dado visibilidade, possibilitando-nos ouvir suas opiniões sobre uma temática que hoje está em curso nas universidades, mas ainda é focada nos segmentos discente e docente: a relação destas com as políticas de promoção da igualdade racial, tendo como foco o acesso e a permanência da população negra na educação superior.
A realização das entrevistas trouxe uma série de novas indagações, algumas das quais conseguimos responder nesta investigação; outras, no entanto, demandam estudos mais aprofundados e localizados. A respeito destas, citamos: por que não existem dados oficiais sobre o perfil étnico-racial da UFMG? Quais são os argumentos da gestão da universidade para a não realização de um censo que revele o perfil geral da comunidade acadêmica, incluindo dados sobre o perfil étnico-racial? Por que as discussões sobre democratização do acesso e da permanência de negros na universidade não incluem a questão do concurso
público para técnico-administrativos? Por que não são discutidas formas de democratizar a possibilidade de continuidade de estudos dos próprios técnicos no interior da universidade? Quais cargos são ocupados por técnicos administrativos, negros e brancos, na UFMG? Ao ser analisada a crescente terceirização de cargos na UFMG, o perfil étnico-racial desses trabalhadores e trabalhadoras é considerado? Quais setores da universidade congregam mais funcionários terceirizados? Destes, qual é o percentual de negros? Existe diversidade racial entre os funcionários das fundações universitárias? Se sim, em quais cargos ela se faz mais presente?
Capítulo 4
OS SUJEITOS POR ELES MESMOS
Nesse capítulo serão apresentados os sujeitos da pesquisa a partir de sua biografia. Exporemos recortes de suas trajetórias de vida e profissional que nos permitam visualizar seu perfil, sua origem familiar, sua trajetória escolar, as dificuldades financeiras, o momento de ingresso na UFMG, o cargo que ocupam atualmente nesta instituição e as possibilidades ou não de cursarem o ensino superior, já que atuam dentro de uma universidade pública.
Trata-se de trajetórias de luta familiar e pessoal que, da perspectiva socioeconômica, assemelham-se mesmo entre as diferentes categorias de cor (pretos, pardos e brancos) segundo as quais os indivíduos classificaram-se. Todavia podemos perceber, para além das semelhanças, algo que as pesquisas sobre desigualdade racial já apontam: mesmo em condições de igual pobreza, encontramos maior proximidade entre as trajetórias de pretos e pardos do que entre estas e as do segmento branco. Mas deixemos que os indivíduos falem por si mesmos: