O antropólogo Kabengele Munanga (2008), em seu livro Rediscutindo a mestiçagem no Brasil, ressalta que a partir do final do período escravista algumas questões se apresentaram pela primeira vez aos pensadores brasileiros. Uma delas foi até que ponto seria possível constituir a nação e a identidade nacional, uma vez que grande contingente populacional era formado de ex-escravizados negros; havia a necessidade de transformá-los em elementos constituintes da nacionalidade e da identidade brasileira, mas como deveriam proceder se, no imaginário social, ainda eram considerados como coisas ou detentores de força física necessária ao trabalho?
Para a elite brasileira daquele período, a pluralidade racial resultante do processo de colonização representava uma ameaça à construção de uma nação que até então pensava-se branca. A questão racial tornou-se, então, um grande desafio, provocando um debate nacional que se iniciou no início do séc. XIX e durou até meados do séc. XX.
Para responder a esta e outras questões os pensadores brasileiros recorreram aos aportes teóricos produzidos por cientistas ocidentais – europeus e americanos. Apesar da busca por referências estrangeiras, desenvolveram propostas bastante originais para o caso brasileiro, criando fundamentos de ideologia racial que ainda hoje estão impregnados em nossa sociedade, sendo permanentemente reiterados, o que dificulta a luta dos movimentos negros contemporâneos pela construção de uma identidade a partir das características peculiares do seu grupo: “herdeiros dos escravizados africanos, estigmatizados, racializados e excluídos dos postos de comandos da sociedade, cuja construção se tornou possível pela utilização do trabalho não remunerado; membros de um grupo étnico-racial cuja humanidade foi negada e a cultura inferiorizada” (MUNANGA, 2008).
O ideal de branqueamento fez com negros e mestiços não se sentissem membros de um mesmo grupamento, alienando a construção da identidade de ambos. Esse fato pode ser percebido nos discursos de técnico-administrativos na UFMG: “Meu irmão é mais moreno, o cabelo dele é liso. Eu, mais clara, com o cabelo assim [anelado]. Minha bisavó era negra. Então eu também sou negra? (Técnica em Enfermagem, parda)
Esse mesmo discurso de branqueamento produz uma tensão para o sujeito quando este se depara com uma tonalidade de pele e um tipo de cabelo que revelam que ele não é tão branco quanto se pretendia:
eu marquei branca, depois olhei bem e marquei parda, porque não tem moreno. Mas eu não tenho certeza. Acho que branca é quem tem olhos azuis e cabelos lisos. Umas duas vezes ao ano, eu relaxo meu cabelo. Mas eu não sou parda. Parda eu não sou! Não posso ser amarela, porque não sou oriental. Então o que eu sou?! (Auxiliar de Enfermagem, parda)
De acordo com a reflexão de Munanga (2008), embora o objetivo de branqueamento físico da sociedade não tenha sido alcançado, o seu ideal foi inculcado através de mecanismos psicológicos potentes e que permanecem no inconsciente coletivo brasileiro. Esse ideal impacta as vidas de negros e mestiços e dificulta a construção de identidade baseada na negritude, uma vez que impera nesses o desejo de um dia ingressar na identidade branca, que julgam ser superior.
Eu me declarei branca. Embora ache que não sou por causa do cabelo. A minha pele é clara, mas o cabelo é crespo. Sempre penso na V. ela tem a pele preta, mas o cabelo é liso. Então ela é o quê? Negra, como eu?”(Psicóloga, parda)
Segundo a avaliação de Munanga, esse comportamento do mestiço é visível desde o período colonial, e talvez tenha feito parte da política das elites de divisão da população para melhor controle. Talvez seja esta uma “das explicações para a ausência de solidariedade entre negros e „mulatos‟, e que repercute ainda hoje no processo de formação da identidade coletiva de ambos”.
No Brasil, em função do lugar social ocupado, o mulato pode “embranquecer-se”, enquanto nos Estados Unidos, por exemplo, essa possibilidade é quase inexistente; neste sistema de classificação racial não foram construídas categorias intermediárias entre branco e negro. O continuum de cor existente no Brasil, que faz com que determinados indivíduos sintam-se menos negros e desconfiem da luta pela superação do racismo desenvolvida pelo movimento negro contemporâneo, não foi observado naquele país.
Essa reflexão encontra um bom exemplo em Laborne (2008). Durante a realização da sua pesquisa de mestrado, em que estudava o processo de construção da identidade racial de docentes da UFMG, a autora localizou uma professora que havia, em um primeiro momento, se classificado como parda. Dias depois, quando a pesquisadora procurou a docente para a realização de entrevista, ambas conversaram sobre a investigação e, constrangida, a docente afirmou
que havia se definido “parda” por acreditar que essa era a natureza de quase toda a população brasileira, pensando inclusive em uma questão genética. Porém, não se sentia à vontade para me conceder a entrevista, pois acreditava que era vista (e se via) socialmente como branca (LABORNE, 2008, p 38)
Também na presente pesquisa encontramos depoimentos em que a classificação racial é problematizada de forma a revelar a singularidade do processo de construção do sistema racial brasileiro, onde ser mestiço representa uma categoria intermediária entre branco-negro- índio.
Essa também é a constatação de Silvério (2002, p. 223), que afirma que
o centro do debate tornou-se a existência de uma categoria racial intermediária, que aparece normalmente nomeada como mulato, pardo ou moreno, que seria o fator de distinção do sistema classificatório brasileiro... No fundamental, o moreno seria uma categoria dissolvente da polaridade negro e branco, isto é, nele estaria contida a síntese brasileira. (SILVÉRIO, 2002, p. 223),
Apesar de avaliada positivamente em alguns momentos, a mestiçagem não conseguiu resolver os efeitos da hierarquização dos três grupos, tampouco os conflitos de desigualdades resultantes desta hierarquização.
O mito da democracia racial, amplamente disseminado pelas elites e existente ainda hoje, contribuiu enormemente para a manutenção das desigualdades e a acomodação de grupos discriminados.
Somos todos mestiços. Para que ficar querendo marcar as diferenças? O Brasil é um só, Deus é um só. Todos somos filhos de Deus! (Auxiliar Administrativa – branca)
Eu não me interesso por essas discussões, somos miscigenados. Quem é branco e quem é negro no Brasil? (Técnico em Contabilidade, branco)
O tipo de pensamento manifestado na fala da trabalhadora desresponsabiliza os ditos “pardos” e “mestiços” e enfraquece a luta de promoção da igualdade racial, dando a uma questão de ordem histórica e política um ordenamento moral e cristão. A possibilidade de construção de caminhos que possibilitem relações raciais dignas entre negros e brancos não é colocada como algo “deste mundo”, da ordem do social, e sim como algo divino. Além disso, o discurso de que fomos misturados na origem e que agora não é possível saber “o quanto” de preto ou de branco há em cada um é recorrente, sendo utilizado como justificativa por muitos negros que construíram uma identidade racial de forma negativa e optaram por não assumir a própria negritude. É também usado por parcela das elites (brancas!), como justificativa para não se posicionarem contra o racismo e as indignas condições nas quais vive a população negra, mantendo históricas hierarquias raciais e lugares de poder. Como já salientamos, a
questão racial não pode ser resumida à quantidade de melanina que cada um traz na pele. Ela está estritamente ligada à construção social que se faz sobre as raças nos contextos de poder.
Há, também, o discurso que culpabiliza o próprio negro quando este não consegue ultrapassar as barreiras impostas pelo racismo, ou mesmo quando luta pelos seus direitos. Trata-se de discurso que revela o desconhecimento sobre o que são, de fato, as políticas de ações afirmativas, responsabilidade inclusive assumida pelo Estado brasileiro, quando, reconhecendo a existência do racismo e da desigualdade racial no país, tornou-se signatário do Plano de Ação de Durban.
A idéia de que as cotas, como modalidade de ação afirmativa, são uma “dádiva do Estado” e não uma justa reivindicação do movimento negro, e de que as mesmas têm sido demandadas por outros grupos sociais e étnico-raciais e já são aplicadas para alguns (mulheres nos partidos políticos; deficientes nos concursos públicos) é prova de completo desconhecimento e fortalece posições conservadoras de negros e brancos. É o que expressa o depoimento:
acho que ficar falando sobre raça e racismo não leva a lugar algum. O negro tem valor. Ele precisa levantar a cabeça e lutar pelo que lhe interessa e não ficar implorando por migalhas, por cotas e bônus para entrar na universidade. Ele tem de ver que também é capaz. (Auxiliar Administrativa – branca)
O depoimento revela, ainda, o lugar ocupado por alguns brancos ao analisarem a luta pela promoção da igualdade racial no Brasil, sobretudo no que tange à questão das cotas. É interessante notar que a “unidade” para a qual a sociedade brasileira apela ao falar da existência da miscigenação e que, segundo o nosso imaginário, é capaz de produzir uma harmonia racial, não é expressa da mesma forma quando pessoas brancas analisam a luta política do movimento negro. BENTO chama a atenção para a omissão do lugar do branco na situação das desigualdades raciais no Brasil, a qual as gera e aprofunda: estas podem ser medidas através dos dados estatísticos de acesso a bens sociais. (BENTO, 2002, p. 30)
No campo do trabalho, mais especificamente na universidade, também a omissão dos brancos contribui para a manutenção do segmento negro em determinados espaços – social e físico, com menores possibilidades de ascensão e participação social.
Os técnico-administrativos negros (pretos e pardos), por sua vez, seguem percebendo a existência da discriminação no seu local de trabalho, seja por sua própria condição de técnicos e sua localização nas categorias que ocupam, seja pelas precárias condições de trabalho que alguns enfrentam. A presente pesquisa revelou-nos que as condições de trabalho dos técnicos
e sua invisibilidade na universidade estão imbricadas à questão racial. De forma análoga, quando analisamos o lugar da desigualdade racial na sociedade como um todo, percebemos a estreita relação entre raça e classe, assim como a existência de momentos em que a raça opera de forma autônoma e perversa. “Não sei como é lá na universidade, mas aqui com certeza tem discriminação [...] eu trabalho no hospital há 17 anos e nunca fui num Quarta 12:30” (Auxiliar de Enfermagem, parda). “Não se pode pensar só no negro, as condições de trabalho são ruins para todos na UFMG. Outro dia explodiu uma geladeira no ICEX que poderia ter matado brancos e negros.” (Técnico de Laboratório, preto)
A riqueza dos registros colhidos na primeira fase do trabalho de campo, além das observações apresentadas pelos trabalhadores técnico-administrativos, negros e brancos, quando da aplicação do primeiro instrumento de coleta de dados, levou a uma ampliação dos número de sujeitos. Devido à presença reiterada de um lugar de subalternidade da categoria profissional, aqui analisada a partir de diversos setores da universidade, observamos que existem problemas comuns, que atravessam o fazer e a trajetória desses trabalhadores independentemente do seu pertencimento étnico-racial. O resultado dos questionários aplicados e as conversas realizadas quando da sua aplicação apontavam, porém, algumas especificidades da condição racial neste ambiente.
Nesse sentido, a investigação passou a incorporar, na sua segunda fase, os técnicos administrativos que se declararam brancos nos questionários, abordando suas trajetórias e vivências do pertencimento étnico-racial. Portanto, ao objetivo central desta pesquisa, qual seja o estudo das trajetórias de vida e profissionais dos técnico-administrativos autodeclarados negros (pretos e pardos) na UFMG – e suas inter-relações, aproximações e diferenças no tocante à vivência das relações raciais nesta universidade – foi somado, para entrevista e análise, o segmento branco que respondeu ao questionário. O trabalho de campo revelou esta necessidade de ampliação do escopo da pesquisa por nos evidenciar que a invisibilidade discutida nessa dissertação, ativamente produzida, diz respeito ao segmento profissional dos técnicos de maneira geral; é possível, porém, perceber agravantes quando realiza-se um recorte étnico-racial e considera-se a situação dos negros (pretos e pardos) em especial. Nesse caso, revela-se uma invisibilidade dentro da invisibilidade, o que demonstra a profundidade e complexidade das relações raciais vividas por esses sujeitos, que também fazem parte do ambiente universitário.