Não é na resignação, mas na rebeldia em face das injustiças que nos afirmaremos. Paulo Reglus Neves Freire (1996, p. 87)
A ascendente sociedade de controle instala dispositivos e dispara mecanismos e instrumentos de captura para identificar e antecipar percursos, caos e guerra, potencializando, dessa forma, em si mesma, a violência.
Os dispositivos de controle difundem e disseminam o seu conteúdo de forma online e de modo colaborativo, o que facilita a gestores e a usuários tomar decisões com maior qualidade e exatidão.
A dicotomia entre o certo e errado da sociedade de controle prevê o poder, o conhecimento do ser humano, a regulação ou manipulação da vida, dentre outros fatores. Contudo, o Estado já possui esse papel regulador, moderador das convivências sociais, atuando, contemporaneamente, em prol de si mesmo.
A sociedade de controle era tratada por Foucault, em seu repertório bibliográfico, como a própria legitimação do poder. “Na atualidade, esse pensamento evoluiu” (MORAIS, 1999 p. 92). Percebe-se que na sociedade de controle, o indivíduo não é tratado como pessoa, como um ser não apenas ativo e conectado, mas um ser humano igual aos seus antepassados. Ele, o homem, não deixou de ter curiosidade pela vida, conhecer, desfrutar, avaliar, manifestar desejos e saciá-los e este homem é constituído em demasia por todos esses impulsos, que obviamente foram personificados ao ser humano.
Nesse sentido, como explicar o comportamento do índio que vive fora da sociedade, morando em florestas, sendo controlado por órgãos governamentais como ONGs, FUNAI, setor privado (por interesses comerciais)? Observa-se que os índios não carecem da sociedade civil e de
suas doutrinas. Manifestam anseios de controlar seu povo de forma autônoma, gerindo sua floresta, tendo atitudes que coíbam o impacto da civilização em terras indígenas. “O poder instaurado sobre o povo indígena refere-se ao desenvolvimento do controle social (políticas públicas) e políticas indígenas, aparentemente, ambas as políticas são direcionadas em prol da sociedade indígena” (FUNAI, 2008).
Esse tema gera complexidade e discordância. A expectativa é a de que, embora o governo tenha traçado, no século XX, diversas mudanças estratégicas com o rótulo de “Estado de bem-estar”, elas, de fato, ocorressem. Houve críticas que problematizaram essas tentativas de mudanças, por falhas da gestão governamental, no que se refere à preservação dos direitos que garantem a individualidade e a moral privada. Por outro lado, essas mudanças propiciaram o desenvolvimento de novos dispositivos de governabilidade, promovendo o alcance dos benefícios sociais aos cidadãos, o que lhes garantiu bem-estar e progresso. Desse modo, é estabelecido o sentido do estado liberal, a administração pública que Foucault comenta: “A ciência de administração pública europeia do século XVIII sonhava com um tempo em que um território e seus habitantes seriam transparentes ao conhecimento: tudo devia ser conhecido, registrado, enumerado e documentado” (FOUCAULT, 1989, 1991 apud PASQUINO, 1991).
Além disso, de acordo com Oestreich:
A conduta das pessoas em todos os domínios da vida deveria ser especificada e escrutinada nos mínimos detalhes, através de minuciosa regulação de moradia, vestuário, costumes e similares – impedindo a desordem através de um ordenamento fixo de pessoas e de atividades. (OESTREICH, 1982).
Nesse sentido, a primeira citação demonstra um sonho utópico para a época. Refere-se à idealização da sociedade contemporânea, que propicia um estado gestor de direito dos comportamentos sociais. Analisando a segunda citação, observa-se que o estado liberal apregoa uma sociedade totalmente gerenciada, interferindo no âmago do ser humano. Assim, há um confronto
com a sociedade civil, que almeja direitos e interesses para os cidadãos, que antes eram impedidos.
A sociedade passa por diversas etapas de “governamentalidade”, em busca sempre de direitos democráticos, além de exercer o “poder sobre a vida”, prática identificada por Foucault (MILLER; ROSE, 2012). A presente sociedade de controle ainda não é regulamentada, o que deixa um hiato para o futuro. No entanto, ela não se manifesta contra a democracia estabelecida; antes, coaduna-se com cada uma de suas formas. Essa posição de tolerância possibilita para ambas confortável autonomia existencial.
Novas tecnologias implantadas para suportar a sociedade vigente tendem a manifestar, com autoridade, a expertise implantada. Assim, as relações que se produziam entre as autoridades políticas, as medidas legais e as autoridades independentes têm como objetivo a regulação da economia e da sociedade.
Em outra etapa, se fazia necessário mitigar os efeitos do trabalho realizado nas fábricas, no que tange à saúde, para diminuir os perigos sociais das epidemias. Exemplificando, o controle proporcionou a criação de órgãos de regulamentação como a ANVISA que monitora de alimentos a medicamentos, propiciando proteção à saúde.
Com o boom tecnológico, as informações ganham formas estruturadas porque o trânsito de dados diários é colossal, além de haver a cooperação do indivíduo comum que gera, simultaneamente, informações, comunicações e localizações (uma espécie de tracking11). Logo, se realiza o movimento individual no “espaço informacional”. A sociedade vive em uma vigilância disseminada no social, uma vez que todos sabem os passos de todos, com o auxílio dos dispositivos.
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“O tracking generalizado nos chama a atenção. Há uma espécie de vigilância disseminada no social, haja vista a possibilidade de todos poderem, de certa maneira seguir os passos de todos. O controle exercido é generalizado, multilateral. As empresas controlam seus clientes; as ONGs controlam as empresas e os governos; os governos controlam os cidadãos; e cidadãos controlam a si mesmos, porque precisam estar atentos ao que fazem” COSTA (2006, p. 39).
Confeccionando um mapa de controle, temos:
Figura 2: Entendimento do mapa de controle
Fonte: Diagrama modulado pelo autor, com base na ideia de tracking citado por COSTA (2006, p. 39). Com utilização de imagens do Google.
A forma verbal “almejam”, sublinhada na imagem (figura 2), é a forma pela qual a sociedade contemporânea é controlada. Somente existe a diversidade para a compra de um determinado produto porque o consumidor não tem fidelidade à marca, algo ainda inatingível. É possível concluir que hábitos podem ser controlados por um determinado tempo, mas não por uma vida toda.
O controle é, por vezes, ilimitado. O exemplo mais comum é o da vigilância por câmeras, que efetivamente estão presentes em todos os lugares. Mas somente monitoram, realmente, quando há atividade. No presente contexto, isso demanda esforços muito maiores, ou seja, ele é eficaz temporariamente, conforme o movimento do ser humano, mas o controle tem a capacidade de construir um conjunto de padrões para uma vida, poderá fazer associações, conexões de primeiro e segundo grau, conforme o método de ações dos indivíduos. Porém, como dito, esses dados não são padrões para
uma vida, visto que o indivíduo não está sendo copilado por um só centro de controle. Logo, o mesmo pode se tornar vulnerável e ineficaz, à medida que o tempo passe.
Como exemplo dessa prática, temos o consumidor de uma operadora de telefonia X que consome 500 minutos por mês, tem um gasto médio de R$ 250 reais, logo, se ele solicitar a portabilidade, a nova operadora Y irá iniciar um novo processo de consumo desse comprador. Caso ele não fique satisfeito com o serviço da Y, regressará para a X e seu consumo anterior, que está armazenado na base de dados da operadora X, não pode mais ser válido, visto que, neste espaço de tempo, os hábitos desse cliente se alteraram. Ele tem agora um novo perfil de consumo, novos desejos, novos hábitos, algo esperado pela operadora X, se a cultura de sua base mudar. A base diminui no consumo de minutos e aumenta em megabits de sua internet (dados); é uma referência de informação, que pode ter nuances, conforme a variação de indivíduo para indivíduo. São fatores que influenciam o comportamento do consumidor:
Tabela 1: Comportamento do consumidor
Segundo Featherstone (1941, p. 14), crítico da “sociedade de massa”, acredita-se que “[...] há uma massa automatizada, manipulada, que participava de uma cultura de mercadoria tipo ersatz, produzia em grande escala, voltada para o mais baixo denominador comum”. Desse modo, o autor vê a onda crescente de novos bens de consumo, propagandas, que ensejavam o nascimento de uma “massa atomizada”. De um lado, a sociedade estabelece atos de consumo e relações com tudo àquilo que envolve o consumo, satisfazendo suas necessidades (conforme Tabela 1); exerce atos de poder e constrói subjetividades que se socializam, de maneira contemporânea, conforme a pirâmide de Maslow. Por outro lado, o consumo é interpretado como conquistas individuais, cuja dinâmica vislumbra apenas o lucro, modelado por uma relação de poder, na qual o sistema capitalista interpõe seus conteúdos e valores sobre a sociedade – os prazeres e os poderes.
Figura 3: Pirâmide de Maslow
O homem, criador, desenvolvedor e detentor de conhecimentos e desejos, passa a não existir sob a ótica de autores como Shields (1992) e Featherstone (1991), dado que as relações humanas são subvertidas para relações incorpóreas, sem materialidade social. O homem, então, passa a ser um fantoche do sistema que manipula suas necessidades. Porém, a construção desse sistema é desenvolvida por esse mesmo homem, que a cada geração se reinventa, constrói e refaz aquilo que já foi feito. Ao se reinventar, o homem discute novos temas sociais, culturais e econômicos, buscando ser mais assertivo ao seu tempo. Assim, segundo Albrecht (1992): “É uma combinação de coisas e experiências que criam no cliente uma percepção total do valor recebido”.
A geração do atual está estruturada nas necessidades de estima e desejos. Aproveitando essa onda, as empresas investem, cada vez mais, nos anseios e buscam satisfazê-la, criando benefícios entre o homem e o produto.
Qualter, em 1991, assegura que a propaganda traz pensamentos dúbios, fazendo uso de técnicas psicológicas que ultrapassam concepções de atitudes, relativamente simples, e métodos de mudança de hábito. Trata os consumidores como irracionais e tolos, e estes se deixam ser manipulados por uma cultura pública, insalubre para a democracia.
Walt Disney definiu que: “O exemplo mais bem-acabado de alguém que ousou sonhar”, de forma dinâmica e constante do fluxo:
Figura 4: Entendimento da dinâmica de Walt Disney
Ele trata seus consumidores, neste contexto, com atenção, reconhecimento, humildade, treinamento e, principalmente, encantamento, despertando sempre emoções, satisfação e interatividade. Para quem ainda não foi ao parque da Disney, o desejo está incutido no imaginário da pessoa, que, de alguma maneira, tem a reprodução gravada na memória de imagens que mobilizam ideias, criam vontades, e ela é construída a partir do suporte técnico, pelo qual se difundem propagandas, meios televisivos, boca a boca e por agências de viagens.
O que Qualter cita, em 1991, ou seja, que a “propaganda traz pensamentos dúbios, fazendo uso de técnicas psicológicas que ultrapassam concepções de atitudes”, e trazer essa informação para o contexto atual. Logo, observa-se que a tecnologia está a serviço do homem para desempenhar funções diárias de análise, mapeando o ser humano, mas, instantaneamente. Isso porque, no dia seguinte, ele já não se comporta da mesma maneira.
O contexto acadêmico atual, que atira sobre a cultura, preconceitos e mudanças econômicas, defende apenas uma teoria crítica, ou seja, que a sociedade de controle irá sucumbir com a racionalidade humana, e isso é temerário porque esse mesmo ser humano é diretor, protagonista e detém relativo poder. Diz-se relativo, pois, para deter o poder da massa, precisaria se constituir uma religião capitalista com ditaduras severas, e que manipularia a sociedade em prol de seu poder autônomo, advindo de um pequeno planeta.
Contudo, acredita-se que só podem questionar aqueles que vivem paralelos à sociedade de controle, que estão desprovidos das tendências atuais, de sofisticação, alienados do contexto de consumo e desprovidos de recursos. A atualidade nos traz, como artifício de condutas, práticas e relações sociais do cotidiano com cartões de créditos, celulares, aplicativos, dentre outros. “Como seres vivos que somos, com 23 pares de cromossomos, em seu núcleo humano diploide, podemos acentuar que somos seres racionais com capacidade de agir e pensar sobre nossos atos e escolhas. Defender estritamente uma ideia, sem evoluí-la, é se alienar para o mundo” (QUALTER, 1991).
Não conhecemos ainda a capacidade humana e onde ela poderá chegar, mas sabemos que ela não é maior do que o seu criador.
3. SMART CITY