CANSEVER’İN “DÜŞÜNCE”LERİ
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Apesar de não ter iniciado seus estudos acadêmicos na tradicional Faculdade de Direito de São Paulo, transferiu-se para São Paulo e em 1870 e concluiu seu curso de bacharelado em Direito por essa destacada universidade. Rui compunha a turma de 1866, a qual tinha como membros figuras proeminentes da nossa política no final do Império e início da República: Castro Alves, Joaquim Nabuco, Afonso Pena, Rodrigues Alves e Bias Fortes.
Iniciando sua vida profissional como advogado em 1872, no ano seguinte começou a colaborar no Diário da Bahia, escrevendo artigos em defesa da liberdade de crença e levantando questões a respeito sobre as eleições diretas no país.
Ingressou na vida política com o apoio de Sousa Dantas, chefe da ala progressista baiana do Partido Liberal, sendo eleito para seu primeiro mandato de Deputado na Assembléia Legislativa Provincial da Bahia em 1878 e reeleito em 1881. Eleito Senador pela Bahia em 30.01.1906 com 42.019 votos, e reeleito em 1908, sendo no final reeleito por quatro legislaturas no período de 1890 até 1915.184
Já em 1875 já havia se tornado conhecido defensor dos escravos, tendo destaque nesta questão da liberdade religiosa e na extinção da escravidão no país,
183 SANDRONI, Luciana. Minhas memórias de Lobato. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1997, p.
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na Loja Maçônica Grande Oriente do Brasil, do Vale dos Beneditinos, da qual era membro.
Em 4 de abril de 1870 Rui Barbosa redigiu e apresentou, em nome da Loja Maçônica América, um projeto de lei para ser enviado ao Grande Oriente Brasileiro do Vale dos Beneditinos em defesa da abolição da escravatura. Sua proposta asseverava que toda a maçonaria deveria dedicar 1/5 de sua receita a fim de ser utilizada para o alforriamento dos escravos. O texto deveria ser incorporado como regra para a maçonaria:
Artigo 1O – Sendo verdade inconcussa que a emancipação do elemento servil e a educação popular são hoje as duas grandes idéias que agitam o espírito público e de que depende essencialmente o futuro da nação, a Maçonaria brasileira declara-se solenemente obrigada a manter e propagar estes dois últimos princípios, não só pelos recursos intelectuais da imprensa, da tribuna e do ensino, como também por todos os meios materiais atinentes a apressar a realização destas idéias entre nós.
Artigo 2O – Todas as Lojas Maçônicas instituídas no país, tanto as já existentes como as porvindouras, não poderão alcançar e nem continuar a merecer o título e os direitos de oficinas regulares e legítimas sem que adotem pelo mesmo modo esses dois princípios sociais, comprometendo- se a trabalhar por eles com eficácia e tenacidade.
Artigo 3 O – Todas as Lojas Maçônicas sujeitas ao Grande Oriente Brasileiro assim presentes como futuras, ficam obrigadas a abrir no orçamento de suas despesas um verba especial reservada ao alforriamento de crianças escravas.185
Após a redação e aceitação desse projeto que estabelecia a libertação do ventre das escravas e a libertação das crianças escravas na Loja Maçônica, a libertação desses escravos pertencentes aos membros dessa Loja, se tornou condição prévia admissão de seus iniciados. O referido projeto antecipou Lei do Ventre Livre que no ano seguinte seria promulgada.186
Conforme os relatos de Eduardo Silva, Rui Barbosa foi o primeiro intelectual brasileiro a sustentar que a abolição não foi uma dádiva da princesa Isabel, mas
185 Casa Rui Barbosa.Projeto apresentado pela Loja Maçônica América ao Grande Oriente Brasileiro
do Vale dos Beneditinos. 4 de abril de 1870. [ PI 3 (1)}.
186 BASTOS, A.M.R. Memória dos 150 anos do nascimento de Rui Barbosa. Rio de Janeiro:
uma conquista do próprio escravo e do movimento abolicionista. Enquanto alguns exaltavam a princesa regente, ele defendia que “não há hosanas que entoar aos deuses, mas confiança que cobrar em nós mesmos”.
O tribuno condenava abertamente a escravidão e proferindo discurso na conferência realizada no Teatro Lucinda, no Rio de Janeiro em 1885 considerando-a um triplo roubo: roubo de lesa-pátria contra a honra nacional, penhorada nos tratados; mas também roubo direto, positivo, material, pecuniário, do capital metálico que essa soma de cativeiros ilegais representava e no roubo moral de centenas de milhares de liberdades.187
Temos registro de um outro episódio em defesa da abolição da escravatura, enquanto ministro da Fazenda indeferiu a criação de um banco para indenizar os ex- proprietários de escravos, afirmando que quem deveria ser indenizado eram os escravos. Atitudes que lhe valeram apoio inconteste da Confederação Abolicionista que o homenageou conferindo-lhe um diploma com a impressão desse despacho denegatório em um luxuoso papel da Holanda em letras de ouro.188
Neste mesmo ano, o tribuno mandou que fossem queimados todos os documentos: papéis, livros de matrícula e documentos fiscais relativos ao período da escravidão no país, existentes nas repartições do Ministério da Fazenda. Essa medida foi determinada pela circular nº 29 de 13 de maio de 1891.189
Sua decisão até hoje é questionada por muitos historiadores, pois não compreenderam que Rui Barbosa, apesar de não ter apresentado uma visão a respeito da preservação da memória nacional, seu ato pretendia apagar os resquícios dessa mancha indelével da nossa História. Essa ordem de mandar destruir os registros sobre a escravidão no Brasil levou a enormes críticas. Conforme
187 SILVA, E. 2003, p.56. 188 Ibidem., p. 62.
a historiadora Vera Lúcia Amaral Ferlini o propósito do ministro era tentar passar uma esponja no passado, a fim de apagar os resquícios da escravidão, destruindo as provas fiscais da propriedade escrava. 190
Apesar da polêmica durante anos sobre essa incineração dos arquivos, a historiadora, afirma que foram destruídos apenas alguns livros de matrículas especiais de escravos no período de 1872-3 e 1886-87, nos quais constavam dados primários sobre os cativos, concluindo que os dados perdidos serviam para traçar um perfil da população escrava no final do século XIX.191
Em 1880 recebeu a incumbência de preparar o projeto de lei que instituiria a eleição direta no país, o qual, aprovado, passou para a história com o nome de Lei Saraiva, o projeto de lei, deveria normatizar o processo eleitoral na Primeira República.
Levantou as bandeiras do voto secreto e da restrição do direito de voto aos alfabetizados. Sendo esse trabalho alvo de grandes elogios e de severas críticas também por parte dos oponentes. A negação do voto ao analfabeto ampliava a parcela da população excluída das decisões políticas. Para defender suas posições, o deputado afirmava acreditar que as eleições só se tornariam democráticas quando o voto secreto estivesse livre de intimidações. E, quanto ao voto do alfabetizado, Rui propunha a adoção de um processo de alfabetização popular que tirasse os brasileiros da obscuridade. Assim, segundo ele, o direito de voto seria ampliado e as eleições legitimadas.192
Rui não era elitista quando negava o voto ao analfabeto, porque propunha ardentemente, o remédio para acabar com aquela condição, que não devia ser eternizada, embora com direito de voto. A instrução geral e obrigatória apressaria a mobilidade vertical, melhorando a qualidade de vida do operário e transformando-o em cidadão de primeira classe, não mais de
190 FERLINI, V. L. A. Folha de São Paulo. Suplemento especial, 12.05.88. p.12 191 loc. cit.,
segunda, integrado na sociedade do seu tempo, e não mais acampado ou marginalizado.193
Outra batalha que enfrentou no Congresso Nacional, foi em 1884 quando redigiu o parecer e o projeto de lei sobre a emancipação dos escravos idosos, a Lei do Sexagenário. Ardoroso defensor da abolição da escravatura e dos direitos dos trabalhadores rurais continuou sua luta pela total libertação dos escravos, tendo alforriado seu escravo Ananias em 1875.194
Em 1890 Rui redigiu o texto definitivo do Projeto da Constituição da República, sendo nesse mesmo ano eleito senador pelo seu estado natal, passando a seguir a assumir o Ministério da Fazenda.