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2.4.1. No mundo

Apesar de uma grande discriminação nos tempos de outrora, o acesso feminino ao ensino superior e ao mundo acadêmico já pode ser considerado uma conquista. Na maior parte das áreas de conhecimento científico o número de mulheres matriculadas nos cursos de graduação tem crescido. Por exemplo, a participação feminina no ensino superior nos Estados Unidos, Reino Unido e países escandinavos atualmente é maior que a de homens (VAN ARENSBERGEN, VAN DER WEIJDEN & VAN DEN BESSELAR, 2012). Em Portugal, Melo (2009) apresenta dados do aumento do número de mulheres no ensino de graduação e pós-graduação. Nos anos 2000 e 2001 o percentual feminino matriculado no ensino superior era de 69,9%, e 49% de mulheres com doutorado. Números expressivos para mostrar como o ingresso tem sido mais acessível. O mesmo já pode ser dito da região da América Central: de

acordo com Estebánez (2003), em termos gerais há mais mulheres do que homens no sistema de educação formal.

Em seu trabalho, Abir-Am (2010) discute a questão. Se estiver havendo acesso, então os recursos humanos femininos estão sendo tão bem treinados e capacitados quanto os masculinos. Desta forma, não há motivos para que mulheres não sejam contratadas para o trabalho científico. Em outras palavras, dizer que as mulheres são menos capacitadas que os homens não é mais razoável. Melo (2009) bate na mesma tecla. Seu questionamento é “porque se de fato as mulheres portuguesas demonstram um elevado grau de competitividade acadêmica em nível de licenciatura (>65%), como explicar que, de repente, se tornam incompetentes para ingressar nas carreiras acadêmicas (30%)...?” (MELO 2009, p.10).

Etzkowitz & Kemelgor (2001) descrevem longamente que as mulheres têm enfrentado inúmeras barreiras muitas vezes associadas e que em muitos casos agem de forma sutil. Estes obstáculos são muitas vezes a causa da desistência da carreira acadêmica ou em muitos casos da marginalização feminina dentro do sistema da ciência.

Estebánez (2003) revela que na região da América Central a participação feminina na pós-graduação diminui o que se reflete no encolhimento do número de profissionais mulheres nas carreiras científicas, naquela região. Além disso, a autora cita a diferenciação das áreas ocupadas por homens e mulheres na academia, sendo as áreas mais prestigiadas, ou, melhor remuneradas, geralmente ocupadas por homens.

Em outras partes do mundo, mulheres têm sido bem representadas nos cursos de graduação e pós-graduação, mas ainda há uma superação em números da participação masculina na carreira científica (BARNETT e SABATTINI, 2009). Um estudo realizado com a comunidade científica italiana mostra que as mulheres são apenas um sexto dos pesquisadores em instituições particulares e apenas um terço de toda comunidade acadêmica (ABRAMO, D’ANGELO e CAPRASECA, 2009).

Esta realidade persiste em importantes instituições de pesquisa dos Estados Unidos. De acordo com o recente estudo realizado nas áreas de biologia celular, molecular, bioquímica e genética, o número de professoras é muito menor que o de professores - de um universo de 2.062 docentes, aproximadamente 1/3, apenas, são mulheres. Além disso, o levantamento realizado mostra que dentro de laboratórios chefiados por conceituados pesquisadores homens (líderes científicos reconhecidos e/ou laureados com prêmios Nobel), o

número de mulheres pesquisadoras de pós-doutorado contratadas para desenvolverem pesquisa é bem menor que o de pesquisadores homens (SHELTZER e SMITH, 2014).

No caso da Venezuela, a situação permanece. Apesar do grande acesso ao ensino superior, dados da Universidad Central de Venezuela (UCV) mostram que os cargos de professores titulares são dominados pelos homens (62,43% do total), enquanto que as mulheres estão em grande número nos cargos de instrutor e assistente (CANINO e VESSURI, 2008).

2.4.2. No Brasil

No Brasil, os números do avanço da mulher no mundo acadêmico se mostram cada vez maiores se comportando como os dados vistos ao redor do mundo. Vinculado ao MEC, o INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacionais Anísio Teixeira - promove a avaliação e pesquisas sobre o Sistema de Educação Brasileiro e através de suas informações consegue auxiliar a formulação e implementação de políticas públicas na área da educação no país. Através de dados coletados no Censo da Educação Superior de 20137 é possível perceber a presença feminina nos cursos de graduação:

7 Após contato com o INEP através do e-SIC (Sistema de Informação ao Cidadão), obteve-se a informação de

que os dados do último censo do ensino superior realizado referente ao ano de 2014 só seriam disponibilizados no final de ano de 2015. Com a impossibilidade de acesso a estes dados, portanto, foram utilizadas informações do censo do ano de 2013 que estavam disponíveis nos links que seguem abaixo:

< http://portal.inep.gov.br/basica-levantamentos-acessar>

<http://download.inep.gov.br/educacao_superior/censo_superior/apresentacao/2014/coletiva_censo_superior_20 13.pdf>

Tabela 1- Porcentagem de homens e mulheres matriculados e concluintes no ensino superior em 2013.

Homens Mulheres

Absoluto Porcentagem Absoluto Porcentagem Total Matrículas Ensino

Superior

2.736.167 44,5% 3.416.238 55,5% 6.152.405

Concluintes 338.200 40,8% 491.738 59,2% 829.938

Evasão8 2.430.967 88% 2.924.500 85% 5.322.467

Fonte: Adaptado de INEP, 2013

Estes dados são dos números globais das matrículas e dos formados, sem divisão por área. O quadro abaixo apresenta os dados dos 10 maiores cursos de graduação em número de matrículas por gênero no Brasil (os 10 com mais matrículas de mulheres e os 10 com mais matrículas de homens) também referentes ao Censo do Ensino Superior INEP 2013:

Tabela 2 – Matrículas em curso superior por gênero (10 cursos mais femininos e 10 cursos mais

masculinos).

Curso Feminino Curso Masculino

Pedagogia 568.030 Direito 355.020

Administração 445.226 Administração 354.888

Direito 414.869 Engenharia Civil 183.297

Enfermagem 194.166 Ciências Contábeis 136.733

Ciências Contábeis 191.298 Ciência da Computação 106.266

Serviço Social 157.919 Engenharia de Produção 97.658

Psicologia 146.347 Engenharia Mecânica 91.802

Gestão de Pessoal/RH 138.243 Engenharia Elétrica 74.840

Fisioterapia 88.007 Formação de professor Educação Física 71.215

Arquitetura e Urbanismo 79.293 Análise e desenvolvimento de sistemas 66.383

Fonte: Adaptado de INEP, 2013

Por sua vez, dados extraídos da Plataforma Lattes do CNPq (acessada em 27/02/2015) apresentam uma divisão praticamente igualitária entre os gêneros do número de doutores cadastrados nesta plataforma que trabalham com ensino e pesquisa:

8 É interessante também olhar a evasão que acontece no sistema da Educação Superior no Brasil. A tabela nos

Tabela 3 - Dados de doutores cadastrados na Plataforma Lattes desagregados por sexo em 2015 Mulheres Homens Total

Número Absoluto 56.976 64.033 121.009

Porcentagem 47% 53% 100%

Fonte: Adaptado de Plataforma Lattes (<http://estatico.cnpq.br/painelLattes/sexofaixaetaria/>) Estes indicadores mostram o avanço em termos de acesso das mulheres ao mundo científico no Brasil. Fatores importantes que podem ser levados em conta para esta realidade numérica são a qualificação que as mulheres vêm obtendo e também o fato da entrada de docentes/pesquisadores nas universidades públicas brasileiras (que concentram a maior parte dos grupos de pesquisa, programas de pós-graduação e indicadores de produção científica do país) ser feita baseada no mérito. O uso da ferramenta do concurso público faz com que o processo seletivo de ingresso à carreira acadêmica no Brasil seja mais resistente às práticas discriminatórias que ocorrem no acesso à academia em outros países (VELHO, 2006).

Apesar da aparente situação de igualdade e da ausência de discriminação legal, a mulher ainda é segregada de posições relevantes. Mantida afastada dos mais altos postos da carreira, pode-se afirmar que os mecanismos utilizados para apartar a mulher têm se tornado cada vez mais sutis (YCHIKAWA, YAMAMOTO e BONILHA, 2008). Além do fato de existirem carreiras predominantemente masculinas (ciências da terra, matemática, engenharias) e as dominadas pelas mulheres (educação, cuidados em saúde), caracterizando a chamada “territorialidade” ou segregação horizontal (HAYASHI et al, 2007) existe também a falta de representação feminina nos postos decisórios e de maior destaque (VELHO, 2006), o que denota mecanismos de segregação vertical. Estas posições são vitais para que se possa chegar a uma condição de igualdade de oportunidades entre os gêneros, pois é dali que saem as decisões em termos de políticas e institucionalidades. Este espaço não está aberto totalmente ainda às contribuições femininas. Apesar do aumento maciço no número de pesquisadoras, parece haver uma força que impede que as mesmas alcancem os postos mais altos da carreira (MELO e RODRIGUES, 2006).

O estudo de Leta (2003) sobre a participação feminina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ratifica estes argumentos. Com um levantamento desde o número de alunos nos cursos de graduação até o recebimento de bolsas nos cursos de pós-graduação, bem como de bolsa produtividade, a autora relata um aumento do número de alunas na graduação que

chega a ser, por vezes, maior que o dos homens (em determinadas áreas). Em relação às bolsas concedidas, o que a autora nos mostra é que o número de mulheres tem aumentado ao longo dos anos, mas ainda assim diminui a porcentagem feminina ao longo da “hierarquia das bolsas”. Ou seja, na medida em que a bolsa corresponde a um nível maior de titulação e maturidade na carreira científica, o número de bolsistas do sexo feminino diminui (LETA, 2003).

Dez anos após a publicação do estudo de Leta (2003) anteriormente referido, outros indicadores apontam a perpetuação de mecanismos de segregação hierárquica vertical na ciência brasileira, exemplo do que foi constatado por Rigolin, Hayashi e Hayashi (2013) ao mapear as lideranças femininas do Programa “Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia” (INCTs). Implantado pelo CNPq no ano de 2008, este programa tem o intuito de fomentar a pesquisa inovadora em áreas de fronteira, mobilizando e conectando os grupos de pesquisa que se destacam no estudo de questões estratégicas para o desenvolvimento brasileiro. Os INCTs ocupam assim uma posição estratégica no Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia. No entanto, em 2013, dos 122 projetos aprovados para este programa no país, apenas 18 eram chefiados por mulheres (RIGOLIN, HAYASHI e HAYASHI, 2013).

Nas seções seguintes, os conceitos de segregação horizontal e vertical na ciência são explorados de forma circunstanciada.

Benzer Belgeler