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Piaget, em seu método de pesquisa, adotou uma perspectiva metodológica dialética para examinar a complexidade do desenvolvimento de sua teoria e do sujeito.

Podemos observar os aspectos metodológicos dialéticos na teoria de Jean Piaget nos seguintes pontos:

a) Nas aproximações das categorias empregadas pelas ciências, tal como Piaget as utiliza para construir sua própria teoria.

b) Nas oposições e sínteses apontadas por Piaget na construção do conhecimento. c) No método de indagação da própria Teoria Psicogenética.

d) Nos processos dialéticos de interação entre sujeito e objeto. e) Na ruptura do dualismo entre sujeito e objeto.

f) Nas peculiaridades da ação cognitiva comparada com a práxis de Marx.

g) Na ação de conhecer aspectos dialéticos nas contradições naturais e nas generalizações construtivas do pensamento dos sujeitos.

h) Na dialética dos processos inferenciais que correspondem aos processos de equilibração. Piaget rechaça as teorias empíricas e inatistas, até porque elas não usam a dialética para explicar a construção das ideias. Segundo ele, seja na biologia, na psicologia, seja na filosofia, a ideia de interação para explicar a construção do conhecimento “coincide” com a ideia de dialética na construção do conhecimento. Ou seja, a interação do sujeito com o mundo é exclusivamente dialética.

Para Piaget (apud CASTORINA; BAQUERO, 2008, p. 37, grifos meus):

O método dialético – tese, antítese e síntese – é uma forma do método racional e, na sua forma, generalizada, confunde-se com ele. Assim, procura-se estabelecer uma

interação entre os elementos opostos, sustentar a totalização como um processo e,

finalmente, assumir a recusa de qualquer conceituação estática. Nesse sentido, toda conceituação estrutural, ou toda conceituação genética – isto é, a totalização e a história – é negada em termos de sua síntese – o construtivismo relacional ou dialético – nas ciências biológicas, nas ciências sociais e na psicologia.

Também podemos verificar a metodologia dialética utilizada por Piaget por meio do método de investigação que ele desenvolveu, chamado Método Clínico. Observamos a dialeticidade deste método pela flexibilidade permitida ao examinador no momento de sua investigação.

Vejamos, o examinador, que utiliza o Método Clínico como um instrumento para observar o desenvolvimento da inteligência. Ele inicia sua investigação com uma hipótese levantada por ele próprio, a respeito do momento em que o sujeito observado está de seu desenvolvimento. Ao interrogar o sujeito, ele permite que o mesmo responda a seu modo e em seu ritmo, não esgotando nem descartando nada do que o sujeito disser, mesmo que as respostas não se encaixem na hipótese levantada pelo investigador anteriormente. Esta atitude

diante da hipótese e da fala do sujeito é dialética34, pois permite ao examinador a liberdade de afirmar ou rever sua hipótese, por levar em consideração o que o sujeito disse e pensa sobre a pergunta feita. O Método Clínico não tem as amarras dos métodos de investigação cristalizados que têm perguntas/hipóteses feitas com respostas esperadas. Estes métodos de investigação engessam o examinador e o sujeito na escolha dialética clássica: entre o certo ou o errado.

Pensemos a seguir, qual a relação entre a dialética e o papel desempenhado pelo sujeito e pelo objeto na construção do conhecimento.35

O contexto histórico a que pertence o significado vem tanto do sujeito quanto do mundo. Falemos do sujeito. Ao vir do sujeito, vem da história que está sendo contada por ele e que tem significado para ele. A função dialética está em exercício aqui. Isto acontece quando ela possibilita a “união construtiva” de ideias distintas, por vezes não contrárias nem complementares, produzindo uma resposta nova, criativa. Esta resposta se apresenta como o conhecimento construído, mas não acabado, exatamente porque ele vai se encontrar com algo diverso a ele e se reorganizar, se autorregular em um novo conhecimento.

Um exemplo desta autorregulação é a função simbólica, em que a criança junta duas ideias não relacionadas para explicar uma terceira. Ela está organizando suas ideias, construindo conhecimento que se reorganizará novamente quando ela construir novas ideias para explicar uma novidade que o mundo lhe apresenta.

Outro exemplo é quando o sujeito está aprendendo uma segunda língua e constrói as hipóteses sobre os significados das palavras. Estas hipóteses têm relação particular para ele, para o outro sujeito não têm. Este movimento de hipóteses e encontro com o mundo possibilita que ele se organize, se autorregule na busca por explicar e construir o novo. Penso que podemos entender todo esse movimento, por exemplo, por meio da metáfora para o poeta. Dentro desta perspectiva, a metáfora seria a dialética do poeta.

Portanto, a função de autorregulação para promover o desenvolvimento do sujeito está vinculada a todos os encontros que o sujeito tem com os objetos, com as palavras ou com o mundo. Assim, a construção do conhecimento depende de uma relação ativa desse sujeito com o que está fora dele. Na fala de Piaget, verificamos: “A posição dialética ou construtivista consiste ao contrário, em seu próprio princípio, em considerar o conhecimento 

34 Dialética como venho definindo neste capítulo: construção do diferente, do novo e não como unidade dos

contrários.

35 Devemos entender o significado da palavra objeto como aquilo que se apresenta ao sujeito como

conhecimento novo. Assim, objeto pode significar: outro objeto físico em si, os conhecimentos sociais e as relações sociais.

como vinculado a uma ação que modifica o objeto e que só é alcançado mediante as transformações introduzidas por esta ação”36 (PIAGET apud CASTORINA; BAQUEIRO, 2008, p. 46).

E, complementando esse mesmo raciocínio, Rolando Garcia (apud CASTORINA; BAQUERO, 2008, p. 51) discorre sobre a ação piagetiana:

A ação não produz conhecimento por si mesma, mas é fonte dos instrumentos mencionados que, por sua vez, organizam-na mediante esquemas conceituais, e em diferentes níveis de formação segundo o qual, para compreender o mundo, primeiro é necessário construir os instrumentos que tornem possível a assimilação cognitiva.

Desse modo, para que a função dialética aconteça e promova a construção do conhecimento, é necessário que o sujeito esteja em ação sobre os objetos, sobre o mundo. O objeto e o sujeito estão envolvidos em função de ações cada vez mais complexas.

Esta relação sujeito-objeto mediada pela dialética possibilita, no sujeito, quatro aspectos que se relacionam em espiral:

1) as objetivações: que são os encontros do sujeito com os objetos e vice-versa e que suscitam no sujeito a necessidade do entendimento desse encontro;

2) as interiorizações: que são o que estes encontros provocam no conhecimento que o sujeito tinha anteriormente sobre os objetos;

3) as progressões: que são as modificações que, provocadas pela relação sujeito-objeto, promovem a construção de novos conhecimentos;

4) e as reorganizações: que são os encontros destes novos conhecimentos com os anteriores e que se reorganizam em novos conhecimentos, em novidade.

Segundo Piaget (1996), a razão profunda do movimento dialético do conhecimento no sujeito é a existência do objeto e o propósito do sujeito em entendê-lo na prática de seu cotidiano.

Ao se encontrar teoricamente com Goldman, Piaget constrói a ideia de que a atividade e a dialética estão relacionadas, pois a atividade coletiva ou práxis com a natureza é um círculo dialético que corresponde à ação epistemológica teórica que estrutura a relação de cada indivíduo com o objeto de conhecimento.



36 Notemos que a ação piagetiana não significa só atividade física. Ela é também ação no pensamento

provocando o seu reflexionamento e observemos, também, que Piaget trata como sinônimos os termos

E acrescenta a importância de levar em consideração a ideia interativa da função dialética para a construção do conhecimento, afastando-se das ideias inatistas ou empiristas da mesma. Ele afirma que é preciso considerar a sensibilidade como atividade prática dos sentidos do homem.

Para Piaget, as ações individuais dos sujeitos partem das estratégias de conhecimento que conseguem significar o mundo e se modificam em diferentes instâncias do desenvolvimento dos indivíduos. Ou seja, apenas em sua atividade, os sujeitos conseguem utilizar as estratégias necessárias de construção cognitiva. Essas estratégias voltam a organizar novas ações e permitem a modificação significativa do mundo.

A seguir, aprofundarei a relação da dialética ou função dialética37 com as noções de equilibração e abstração reflexionante, segundo Piaget.