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“Veremos que todos os conceitos filosóficos da teoria marxista são categorias econômicas e sociais, enquanto que todas as categorias econômicas e sociais de Hegel são conceitos filosóficos.”

Herbert Marcuse63 No seu livro Razão e Revolução, Marcuse faz um prévio apontamento à sua discussão acerca daquilo que nomeia enquanto capítulo da referida obra como Os Fundamentos da Teoria Dialética da Sociedade, ressaltando a importância de não derivar o arcabouço conceitual marxiano de teorias anteriores, isto é, “a tentativa de acesso a teoria marxista não pode ser efetuada pela descoberta de metamorfoses das velhas categorias filosóficas” (MARCUSE, 2004, p. 225). No entanto, Marcuse fará uma afirmação ousada e contundente ao afirmar a partir disso que “Mesmo os primeiros trabalhos de Marx não são filosóficos. Eles expressam a negação da filosofia, embora ainda o façam em linguagem filosófica” (MARCUSE, 2004, p. 225). Ao examinarmos o itinerário intelectual de Marx, é irrefutável que este inicia seus passos sim, na filosofia e no debate filosófico, embora desde cedo demonstre ter no âmago do seu espírito, assim como manifesta constante inquietação, um verdadeiro espinho na carne no tocante ao papel da filosofia no mundo, a saber: qual a ligação entre a filosofia e a mundo real? Isto é, entre a teoria e a realidade concreta? Em termos mais simples e diretos: entre a teoria e a prática? Por que todos os filósofos até Hegel — enquanto expressão do idealismo — ou mesmo seu crítico mais importante (Feuerbach, materialista confesso) sempre acabavam por distanciar-se da prática, recolhendo-se de uma maneira ou de outra no espírito abstrato ou na reflexão pura? — note-se que essas são as próprias questões lançadas por este trabalho. De fato, a construção marxiana não se trata de metamorfoses das velhas categorias filosóficas, mas ao contrário, trata-se de um novo e inédito proceder teórico- categorial para o pensamento.

Marcuse tem razão em dizer que todos os escritos de Marx sempre expressaram de um modo ou de outro a negação da filosofia, mesmo que em linguagem filosófica. No entanto,

63 In: MARCUSE, Herbert. Razão e Revolução: Hegel e o advento da teoria social. Tradução de Marília Barroso – São Paulo: Paz e Terra, 2004, p. 225.

afirmar que mesmo os primeiros trabalhos de Marx não são filosóficos é mais arriscado, salvo que se entenda por “filosóficos” um sentido de comungar integralmente com o modo de proceder com o pensamento nos limites das “possibilidades filosóficas” — digamos assim. Importa salientar, isto posto, que desde sua tese de doutorado sobre Demócrito e Epicuro, como já nos referimos aqui, Marx já antecipava seu incômodo para com a condição sui generis da filosofia — o que não tira, de todo, a razão de Marcuse —, dado que a própria questão que ele põe ao pensamento filosófico representa, desde o início, a iminência da necessidade inexorável da sua superação ao colocar em xeque a ligação entre a filosofia e o mundo, ou como defende na oposição entre Demócrito e Epicuro, “entre o pensamento que acede ao ser e a matéria que acede á ideia64”; também tem-se o exemplo de A Ideologia Alemã, na qual indaga “sobre a conexão entre a filosofia alemã e a realidade alemã, sobre a conexão de sua crítica com seu próprio meio material” (MARX; ENGELS, 2007, p. 84). Numa palavra, Marx parecia não aceitar deter-se na reflexão pura, e nega (Aufheben) a filosofia na alienação do filósofo ao mesmo tempo em que a conserva (Aufheben) naquilo que pode contribuir na desalienação do mundo concreto, ao permitir questionar teoricamente os fundamentos materiais da existência humana; por isso seus aplausos às contribuições hegelianas e feuerbachianas, apesar de não se esquecer de apontar as limitações das mesmas. Em outras passagens Marx também apontará o papel radical da filosofia religada ao mundo real dos indivíduos concretos, isto é, a luta de classes: “Assim como a filosofia encontra as armas materiais no proletariado, assim o proletariado tem as suas armas intelectuais na filosofia” (MARX; ENGELS, 2007, p. 156). A filosofia não perde, de todo, sua importância. Só deveria libertar-se da reflexão pura desconexa da realidade material e da história; e isso é, para Marx, uma questão de como deve realmente proceder o pensamento (forma), que traz sérias implicações e diferenciais para o conteúdo.

Em suma, essa é exatamente a questão na qual se debruça este trabalho. Trata-se de (re)pôr sob investigação a velha relação entre teoria e realidade. Questionar-se quanto ao método exatamente na sua relação entre a crítica de seu próprio lastro teórico e o seu meio material. O próprio Marx nos oferece o norte ao criticar Hegel que pretendia superar a lógica formal ao apontar a construção das categorias no próprio Ser, isto é, numa composição ontológica — e não numa dimensão do conhecimento separada do Ser (epistemológica). Todavia, Hegel é insuficiente ao recair no equívoco kantiano em continuar a separar ser e

64 In: ATTALI, Jacques. Karl Marx e o espírito do mundo. Título original em francês: Karl Marx ou L’esprit du monde; tradução de Clóvis Marques; revisão técnica de Marcelo Backes. – Rio de Janeiro: Record, 2007, p. 52.

pensamento, mesmo que de outra forma, quando relega o fundamento material da consciência não conseguindo enxergar o Ser como ser social. Mesmo considerando que Hegel avança com relação à Kant e toda tradição filosófica anterior a ele, sobretudo quando reconhece que a própria relação entre a consciência e o mundo objetivo é um processo social — e que manifesta contradições históricas —, para Marx, vacila quando não enxerga que a superação desse alheamento, aparentemente teórico, é não só teórico, mas sobretudo é teórico-prático, pois requer mudanças no meio material de onde se ergue toda representação espiritual, todas as ideias filosóficas, isto é, a forma como os seres humanos produzem e reproduzem suas condições materiais de existência. Considerando que o pensar é um fenômeno da consciência, a orientação praxiológica para o método advém do fato de que a relação do indivíduo com seu ambiente (coisas e outros indivíduos) é a sua consciência. Mas sobre a alienação desse que seria um fenômeno aparentemente explicado unicamente na e pela consciência — como queria Hegel e até Feuerbach —, Marx afirmará:

Ela não reside na consciência, mas no Ser; não no pensar, mas na vida; ela reside no desenvolvimento empírico e na manifestação vital do indivíduo, que, por sua vez, depende das condições do mundo. Quando as circunstâncias sob as quais vive o indivíduo só lhe permitem o desenvolvimento unilateral de uma qualidade às custas de todas as demais, se elas lhe proporcionam material e tempo para desenvolver só Uma qualidade, então esse indivíduo logra apenas um desenvolvimento unilateral, aleijado (MARX; ENGELS, 2007, p. 257).

Para Marx a filosofia não poderia escapar das tensões do mundo objetivo — ao contrário, é exatamente a filosofia que deve ser confrontada com a realidade concreta —, salvo na própria alienação filosófica, num próprio alheamento do filósofo ao tentar se refugiar puramente no pensamento ou no Saber Absoluto, como queria Hegel. A Ideia hegeliana acaba por assumir um caráter abstrato, segregado, e se confronta com o sujeito como um poder autônomo. A questão do método é pôr o método em questão? Sim; mas essa não é uma problemática de ordem meramente teórica ou “filosófica”, ao contrário, trata-se de um desafio teórico-prático — ou em termos do jovem Marx: econômico-filosóficos —, no qual elevar-se do abstrato até sua base material (re)pensada criticamente constitui um diferencial decisivo na forma de proceder do próprio pensamento. A importância da práxis não pode ser captada numa análise meramente categorial da própria práxis e suas variadas definições pelos diversos pensadores da modernidade. Trata-se de decodificar a sua implicação dinâmica para o método, eis a verdadeira questão de método.

conteúdo dessa crítica é indagar acerca da ligação entre o processo de abstração, que produz teoria, e o meio material de onde parte o pensamento nesse processo. A questão pode ser assim descrita: se a minha consciência se define pela minha própria relação com o meu ambiente (leia-se: consciência social); logo, a forma como procede essa mesma consciência será a forma como se dá a relação entre a produção da minha consciência (representações) e o seu ambiente efetivo (a realidade prática): entre um e outro faz-se decisivo o como se pensa.

Marx analisa, assim como discutimos até aqui, exatamente como procede o modo de pensar (método) de toda tradição filosófica, econômica e política até a sua época. Como se dá o movimento de abstração no campo das ciências que têm como objeto de estudo o homem em sua essência (filosofia) e em sociedade (economia política), incorrendo no deslindamento da essência humana como social antes de qualquer outra característica — veremos como em termos de conteúdo Marx irá manter aparente semelhança com suas fontes — tanto na economia, a exemplo de Smith e Ricardo, como na filosofia, com Hegel e Feuerbach (logo mais a frente trataremos especificamente dessa questão). Na filosofia Marx irá criticar exatamente a forma como é articulada a abstração para se pensar o ser humano; assim como na economia política irá debruçar-se sobre a produção resultante dos processos de abstração acerca da produção da vida humana. Seu avanço esta exatamente em não separar espírito e matéria, se assim podemos dizer; não separar o pensamento da realidade, a teoria da prática, ou a essência (a princípio, uma constatação filosófica) da produção material (essencialmente de caráter econômico-político); ou a consciência dos indivíduos da condições reais que determinam essa consciência. No entanto, não separa porque compreende que na própria realidade estas esferas mantém uma relação ineliminável que converterá em equívoco teórico toda tentativa de divorciá-las, principalmente quando se leva a uma suposta autonomia do pensamento, como ocorrido no desenvolvimento da filosofia.

Toda consciência é consciência de um indivíduo concreto em relação com o mundo concreto e com outros indivíduos. Numa palavra, não há essência humana desconectada da vida social e como esta se produz, assim como não há produção da vida social sem uma dimensão essencialmente abstrata, espiritual, cultural e claro, conceitual (filosófica). Nisto estão superadas, não abandonadas, tanto a filosofia (inicialmente) como a própria economia política (mais tarde, em O Capital) em Marx.

1.2 A práxis enquanto espírito do método e a totalidade como teoria dialética da

Benzer Belgeler