Quanto à questão formulada pelo Juiz Federal Dr. Rony Ferreira e pelo Procurador da Re- pública Dr. Jessé Ambrósio dos Santos Junior, ambos de Foz do Iguaçu, que concluiu pela neces- sidade de realização de Laudo Antropológico pela FUNAI, esya consistia em determinar: “qual tamanho de área territorial a comunidade indígena Avá-Guarani do Oco’y necessita para a sua sobrevivência ?”
O MPF-Foz do Iguaçu de acordo com os Autos da Ação Civil Pública nº 87.1018182-2 (10.10.90), – que não tratava da questão fundiária da Terra Indígena do Oco’y, movida contra
FUNAI, IBAMA e Usina Hidrelétrica de Itaipu, na época manifestava preocupação com a reivin- dicação indígena por mais terras e ainda afirmava que o território anterior, o Oco’y-Jacutinga, era de dimensão maior que o atual, o Oco’y.
Relatam os Avá-Guarani que suas formas de vida tradicional foram subitamente interrompi- das em dois momentos: em 1973 por invasão e tomada de parte do território do Oco’y-Jacutinga por terceiros, através da ação de funcionários do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária/INCRA, e, em seguida, em 1982, quando o restante de seu território original deixou de existir, pela inundação causada pelo reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Questões estas que retomaremos ao longo do trabalho.
Ficou constatada inicialmente a situação de extrema precariedade fundiária e ambiental em que a população Avá-Guarani vem vivendo, sendo impossível manter-se economicamente nas terras do Oco’y – o que contradiz o Artigo 231 # 1º da Constituição Federal Brasileira – e consequentemente vem afetar seriamente as condições de subsistência e saúde da comunidade indígena.
Assim já era fato dado que o território no qual os Avá-Guarani se encontravam era fundiária e ambientalmente inapropriado para a moradia da população, colocando em risco a vida da co- munidade através de inúmeros fatores: – é território insuficiente para desenvolvimento da econo- mia indígena; – há invasão de terras pelos colonos lindeiros à Terra Indígena do Oco’y; – há indícios prováveis de contaminação por agrotóxicos de tudo o que há vida na Terra Indígena, proveniente da borrifação nos plantios dos colonos lindeiros, muito próximos que estão dos indígenas, e, escoamento pela microbacia, perpassando a Terra Indígena e desaguando no reser- vatório de Itaipu; – a área se caracteriza por ser o único local do estado do Paraná onde se observa casos de malária, pois os indígenas residem, inadvertidamente, às margens do reservató- rio da Itaipu Binacional, águas que permanecem em grande parte do tempo paradas; – a qualida- de da água que consomem, de acordo com os relatos indígenas, está seriamente prejudicada. Todos estes fatos serão tratados no Capítulo 3.
Verificamos que todo o histórico dessa área foi marcado por erros, com a ausência, do que era essencial: informações e estudos verdadeiramente técnicos de caráter antropológico e legal. Afirmávamos que o Laudo Antropológico/LA deveria ser pormenorizado, tanto em relação aos fatos ocorridos quanto à legislação que sustenta a questão indígena, para que assim pudéssemos responder a todo e qualquer questionamento por parte de quaisquer instituições envolvidas.
A partir dessas constatações e dado que o LA não poderia se limitar à apenas a questão colocada pela JF, indicamos inicialmente, que para responder à formulação solicitada, dever-se- ia considerar as seguintes questões:
– que não existia até o momento uma área específica a ser destinada aos Avá-Guarani, para que se pudesse examiná-la, com o objetivo de determinar sua adequação fundiária e ambiental;
– que o cálculo solicitado pela JF e MPF não poderia ser considerado “abstratamente”, pois o território indígena não poderia ser definido, limitado à apenas um condicionante “certa quantidade de terras em hectares”; a resposta deveria necessariamente considerar, além do aspecto referente à dimensão fundiária, os aspectos ambientais, socioeconômicos, socioculturais, populacionais, histó- ricos, geográficos e legais. Isso evidentemente tornava a questão mais complexa;
– que isto caberia ao Laudo Antropológico avaliar, o que pressupunha pesquisa de campo e de gabinete.
Informava ainda que os estudos objetivando dimensionar terras para população indígena se dividem em dois momentos: o primeiro e mais extenso, Laudo Antropológico; o segundo de caráter mais operacional, a formação de Grupo de Trabalho/GT de responsabilidade legal do Departamento de Identificação e Delimitação/DEID, que por sua vez é subordinado ao Departa- mento de Assuntos Fundiários/DAF/Bsb/FUNAI, ambos os trabalhos estabelecidos conforme o Decreto nº 1775 de 08.01.968 e a Portaria nº 14 de 09.01.969.
Justificamos perante à JF que a contemplação de vários aspectos eram necessários para proceder-se à adequação ambiental/fundiária do território a ser escolhido. Após a pesquisa reali- zada pelo LA este teceria as devidas recomendações. A segunda etapa consistiria na procura e escolha de novo local, que faria parte legalmente das atribuições do Grupo de Trabalho/GT, que uma vez coordenado pelo antropólogo que redigiu o Laudo Antropológico, iria viabilizar suas recomendações.
Por sua vez o Grupo de Trabalho/GT sairia em busca de outras terras e/ou ampliação do território atual, quando então analisaria as condições e os procedimentos legais com relação às terras encontradas e, por fim, ofereceria elementos para efetivar a reterritorialização da popula- ção indígena em terras adequadas às necessidades do agrupamento.
Assim a resolução, objetivando subsidiar futuramente o cálculo solicitado, seria de compe- tência também do Grupo de Trabalho/GT/DEID/DAF/FUNAI, pois esses dois trabalhos visari-
8 BRASIL. Decreto, nº 1775 (08.01.96). Dispõe sobre o procedimento administrativo de demarcação das terras indígenas e dá outras providencias. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 09.jan.1996, p. 265.
9 BRASIL. Portaria/FUNAI, nº 14 (09.01.96). Estabelece regras sobre a elaboração do Relatório circunstanciado de identificação e delimitação de Terras Indígenas a que se refere o parágrafo 6º do artigo 2º, do Decreto nº 1.775, de 08 de janeiro de 1996. Disponível em: 6ccr.pgr.mpf.gov.br/legislacao/legislacao-docs/demarcacao/ portaria_funai_14.pdf. Acesso em 26.ago.2012.
am a identificação e delimitação de possível território para a população indígena; assim as dimen- sões territoriais e às características ambientais de novo território necessárias ao agrupamento indígena, só poderia ser tecnicamente efetivada, através do desenrolar dos procedimentos legais do próprio GT.
Neste momento então, avaliar-se-ia a questão colocada, de acordo com os procedimentos administrativos regulares da FUNAI, respondendo juntos LA e GT, à questão colocada pelo Ministério Público Federal e a Justiça Federal de Foz do Iguaçu, “qual a dimensão de terras necessárias à sobrevivência dos índios Guarani.”
Poder-se-ia supor, assim, que não se obtinha elementos para responder de imediato à ques- tão, com a objetividade que se esperava.