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YENĐ DENETĐM ÖNERĐSĐ

Na TV, onde Sant’Ana atua desde o início de sua carreira, em 1971, o processo de sentir junto e de proximidade é reforçado por um tipo de interação que se dá na e pela duração compartilhada das transmissões diretas ou ao vivo, capazes de transmitir, além dos conteúdos verbais, um sentido de co-presença entre os sujeitos:

E é justamente esse efeito de correspondência construído pelo próprio discurso da TV entre o tempo da sua programação e um tempo “do mundo” (crônico e cotidiano) o que está na base desse sentido de “contato” instaurado pela transmissão direta. Com a transmissão da programação em tempo real, a TV sincroniza o “passar o tempo” do meu cotidiano com o de grupos sociais mais amplos e, com isso, instaura certas comunidades imaginárias, que surgem a partir dessa experiência comum de “assistir à TV” – comunidades instituídas por sentido de “estar juntos” forjado pela televisão. (FECHINI, 2003, p. 2).

Sant’Ana, além de beneficiar-se desse efeito de contato proporcionado pelo ao vivo, investe na personalização de si próprio, produzindo um discurso mais pessoal e, por isso mesmo, de maior empatia com o público em nome do qual fala. Ao colocar-se como ator dos fatos que noticia, o comunicador aposta no personalismo como estratégia de construção de proximidade e de credibilidade. Fechini (2008, p. 5) explica: “Quando o apresentador diz eu é como se abandonasse a função comunicativa de porta-voz, distante e impessoal, deste actante coletivo da enunciação para colocar a si próprio como sujeito enunciador do discurso”.

Um exemplo do investimento na produção de um discurso pessoal deu-se em 12/05/2008, quando Sant’Ana foi ao ar, ao vivo, no programa Jornal do Almoço, com um chapéu de palha na cabeça (imagem na página seguinte). Sentado na bancada, ele revela:

Estou com esse chapéu porque foi coberto com ele que vivi uma das mais ricas experiências da minha vida jornalística, hoje pela manhã nas avenidas e ruas de Porto Alegre. [...] Fui ver como vivem os carroceiros, e um dos carroceiros me acompanhou numa travessia que veio quase até o centro da cidade. Vocês vão ver cenas desta reportagem. [...]. Eu, catando lixo na rua. Eu, transportando lixo dos restaurantes para a nossa carroça. Eu, arriscando minha vida como fazem todos os dias os 40 mil carroceiros de Porto Alegre. [...] Uma vida dura, uma vida sacrificada, uma vida suada. [...] É evidente que a carroça é um veículo excêntrico entre o progresso vertiginoso da cidade. [...] Mas ela não pode ser extinta antes que as autoridades dêem uma destinação social para esses carroceiros.

EXPERIÊNCIA: SANT’ANA RELATOU SEU DIA COMO CARROCEIRO

Além da estratégia de personalização, claramente evidenciada no relato exposto, outras informações se depreendem do texto. Ao testemunhar e relatar as dificuldades vividas pelos carroceiros, Sant’Ana apresenta o texto de forma pictórica, ou seja, os fatos são vistos através de sua narração, de sua descrição. O comunicador “pinta” a história conforme seu olhar e sua visão da realidade.

É o que Pessoa de Barros (2002, p. 83) classifica, a partir de Friedman (1967), como um narrador combinado com onisciência, um narrador organizador que “tudo sabe, comenta e avalia”. O narrador está presente, sem neutralidade, e ainda tudo sabe e em tudo se intromete.

Outra demonstração de que a personalização é estratégia importante na carreira de Sant’Ana verificou-se na época do lançamento do produto Viagra, em 1998, quando o comunicador fez uso do medicamento, que promete aumentar a capacidade sexual masculina, e relatou, em série de crônicas e comentários, os resultados da experiência. Trecho da crônica Usei o Viagra, publicada em 31/05/1998 em ZH:

Usei o Viagra. [...] Consegui dois comprimidos com um amigo recém-chegado dos EUA, que me obrigou à promessa de que eu só usaria o estimulante sob controle médico. Fui ao médico, que me interrogou por 60 minutos. [...] "Usa o máximo de dois comprimidos e não me incomoda mais. Telefona-me somente no caso de sentires algo anormal. E passa aqui depois para eu ouvir o relato da experiência". Nada de não-costumeiro, palpável (ou sensível), verificou-se em mim até o primeiro roçar dos corpos nus. O surpreendente, o novo, o que eu classificaria de incrível, se desenrolou após o meu orgasmo: como já não me acontecia há 20 anos, permaneceu intacta minha função erétil. [...] E o mais fantástico: após o segundo intercurso, presumivelmente interrompido por um clímax dela, o terceiro ou quarto, ouviu-se um apelo, colocado num balbucio dela: "Vamos descansar um pouco...". (o Viagra) multiplicará o número de orgasmos femininos geometricamente, levando o macho à realização mais completa, que é, psicanaliticamente, antes que satisfazer-se, satisfazer por inteiro a sua fêmea. E agora, [...] o homem se igualará à mulher em uma das suas grandes desvantagens, desde Adão e Eva, que era a aptidão da mulher para fingir no sexo. [...] Ou seja, a função primacial do Viagra é prolongar milagrosamente a ereção. [...] Repito: há que se tomar o Viagra, que será colocado à venda no Brasil esta semana. Não importa o preço caro que ele custará. O encontro com a felicidade não tem preço. E o Viagra é o elixir da juventude e da felicidade.

A repercussão foi tão grande que Sant’Ana, à época, foi entrevistado pela revista Newsweek, em matéria intitulada A cultura do Viagra (a revista com a entrevista foi mostrada por Sant’Ana no Jornal do Almoço de 23/06/1998, conforme imagem abaixo).

NEWSWEEK: SANT’ANA MOSTRA A ENTREVISTA PUBLICADA

É interessante ressaltar que os textos anteriormente citados, que relatam práticas de Sant’Ana como andar de carroça e experimentar o Viagra, produzem efeitos de sentido de uma performance na qual o sujeito quer-fazer, sabe-fazer e pode-fazer, ou seja, reforça-se a idéia de um sujeito dotado de um arsenal poderoso de competências.

A identificação de Sant’Ana com seu público é reforçada ainda pela auto- contemplação. Com freqüência, o jornalista faz uso de seu espaço na mídia para deixar-se conhecer, expor sua vida privada e mostrar seus sentimentos ao público, como nos trechos abaixo, retirados de crônicas publicadas em ZH:

Mas eu falava da minha dificuldade em assimilar a mudança através dos tempos. Sou tão reacionário às mudanças, que até hoje, depois de 50 anos da implantação, não me conformo com a troca na cozinha brasileira da banha pelo azeite. Nunca mais comi comida tão deliciosa como a que minha madrasta fazia com banha. (SANT’ANA, 17/12/2007, p. 43).

Confesso uma intimidade minha: sou bipolar. E acrescento: desconfiem de todos os unipolares. Eles são pessoas de uma idéia só, de um sentimento só, de uma mulher só, de um emprego só, de uma fonte de renda só e de uma solidão de dar dó. [...] O limite ideal da mente está entre a tristeza e a alegria, se baixar da tristeza, entra no terreno da depressão. Se exceder na alegria, ingressa na euforia. (SANT’ANA, 07/12/2007, p. 79).

Eu ainda peguei o tempo, em Tapes e São Jerônimo, de todos os dias me encontrar com meus amigos, pela manhã, ao meio-dia, à tarde e à noite, nos intervalos do trabalho ou durante o seu curso. Hoje, só encontramos tempo para o trabalho e para os pagamentos de DOCs nos bancos. [...] E, quando se encontra um tempinho para um amigo, ele não tem tempo para a gente. (SANT’ANA, 23/01/2008, p. 55).

Se há uma coisa que me aterroriza, é tirar sangue da veia. É simples o método: a coletadora injeta a agulha da seringa no braço, acha a veia e puxa o sangue. Mas para mim é uma tortura. [...] No hospital, o que mais gostam de fazer comigo é tirar sangue da minha veia ou injetar contraste na minha veia para obter maior visibilidade nas tomografias e cintilografias que devassam, de forma quase perfeita, todos os recantos do nosso organismo. (SANT’ANA, 23/06/2007, p. 47).

Ao relatar sobre seus problemas com a mulher amada, o medo de tirar sangue, a hospitalização e os detalhes do tratamento, a simpatia pelo espiritismo, o sonho de morar num sítio ouvindo samba até anoitecer etc. Sant’Ana contrói-se com efeito de desnudamento e estabelece uma proximidade com seu público, que extrai de seus relatos “a substância humana que permite a identificação”, conforme Morin (1977, p. 106-107).

[...] a lógica da identificação põe em cena “pessoas” de máscaras variáveis, que são tributárias do ou dos sistemas emblemáticos com que se identificam. Este poderá ser um herói, uma estrela, um santo, um jornal, um guru, um fantasma ou um território, o objeto tem pouca importância, o que é essencial é o ambiente mágico que ele segrega, a adesão que suscita. Há viscosidade no ar. (MAFFESOLI. 2005, p. 19).

Essa visibilidade provocaria uma identificação que ocorre, segundo Bauman, na medida em que os leitores recebem como recompensa a sensação de “fazer parte” de uma comunidade. De solitários:

Ao ouvir as histórias de infância infeliz, surtos de depressão e casamentos desfeitos ficam seguros de que viver em solidão significa estar em boa (e muito célebre) companhia e de que enfrentá-la por conta própria é o que os torna membros de uma comunidade. (BAUMAN, 2001, p. 64).

Seguindo esse raciocínio, Bauman defende que os ídolos servem ao propósito de sugerir que a não-permanência e a instabilidade, características atuais, não são desastres completos, e que é possível construir uma vida sensível e agradável em meio a areias movediças. Outro mérito dos ídolos seria o de promover uma “experiência da comunidade” sem comunidade real, a alegria de fazer parte sem o desconforto do compromisso.

A união é sentida e vivida como se fosse real, mas não é contaminada pela dureza, inelasticidade e imunidade ao desejo individual que Durkhein considerava atributos da realidade, mas que os habitantes móveis da extraterritorialidade detestam como uma intromissão indevida e insuportável em sua liberdade. Os ídolos foram feitos sob encomenda para uma vida fatiada em episódios. (BAUMAN, 2001, p. 66).

As confidências de Sant’Ana configuram junto ao público o que Maffesoli (2005, p. 19) define como lógica de identificação (que substituiria a lógica da identidade que prevaleceu durante a modernidade), capaz de ligar cada pessoa a um pequeno grupo ou a uma série de grupos, o que implica uma multiplicidade de valores em oposição:

[...] a lógica da identificação põe em cena “pessoas” de máscaras variáveis, que são tributárias do ou dos sistemas emblemáticos com que se identificam. Este poderá se um herói, uma estrela, um santo, um jornal, um guru, um fantasma ou um território, o objeto tem pouca importância, o que é essencial é o ambiente mágico que ele segrega, adesão que suscita. Há viscosidade no ar.

Machado da Silva (2007, p. 2), ao defender que vivemos a era do hiper-espetáculo, diz que a contemplação agora “é de si mesmo num outro, em princípio, plenamente alcançável, semelhante ou igual do contemplador”. Machado da Silva também crê na identificação, desde que ela seja plena:

Na era das celebridades, época da “democracia radical”, em que todos devem ter direito ao sucesso, os famosos simulam uma superioridade fictícia. São tanto mais adorados quanto menos se diferenciam realmente dos fãs. A identificação deve ser total e irreversível.

Outro mecanismo que “toca” o público é a atenção que o comunicador dá às questões cotidianas, o que colabora na construção da imagem de um homem comum, dotado de um sistema de valores também comum ao Outro. Ao longo de sua carreira, Sant’Ana abordou inúmeras vezes problemas no sistema público de saúde e de transporte, e já se compadeceu de desempregados, de crianças, de idosos etc. Em uma de suas crônicas

mais conhecidas, o comunicador enfatiza o valor universal da forte ligação emocional com a mãe ao relatar sua história pessoal:

E acho muito difícil que alguém valorize mais a figura da mãe do que eu, que não a tive. Havia dois anos apenas estava no mundo, quando minha mãe morreu. De lá para cá, todas as minhas tonteiras são devidas à sua ausência. [...] Quero-a com toda a força do meu coração, sem saber quem ela foi, sem nunca ter guardado o som das suas palavras. [...] eu queria me aproximar dela e dizer bem baixinho no seu ouvido, bem manso e bem fundo: “Mãe, eu te amo tanto que nem a tua mais completa ausência jamais molestou a intensidade deste amor. [...] Espera aí, daqui a pouco nós dois vamos nos acalorar num abraço de eternidade, porque é impossível que a gente não se tope mais adiante, nada teria sentido se não fosse assim. E porque tu existes, embora pareça não ter existido, é evidente que minha vida tem sentido”. (SANT’ANA, 2003, p. 110-111).

O investimento em valores em que o enunciatário se reconheça é praxe no discurso de Sant’Ana. Outro exemplo desta prática se deu em 18/07/2007, quando o jornalista aparece em cena, no Jornal do Almoço, visivelmente abalado com o acidente do vôo da TAM em Congonhas, ocorrido no dia anterior.

No caso, o valor evocado é o da dor da perda de familiares ou de pessoas queridas. Enquanto fala da “maior tragédia aérea brasileira”, o jornalista cruza e descruza os braços, enlaça os dedos, cerra os punhos, demonstrando-se tenso e inquieto, ingredientes em congruência com a construção de um estilo autêntico de ser.

Durante o comentário, Sant’Ana chora (imagem abaixo) e, enquanto as lágrimas molham o seu rosto, a câmera se aproxima para mostrar a emoção ao vivo. E ele encerra o comentário chorando, ao dizer: “Que Deus tenha no reino da glória todas as vítimas dessa tragédia, e nosso amparo e nosso consolo para que prossigam honrando suas vidas os seus parentes que restaram”.

Um aspecto a ser ressaltado é que, aqui, ao dizer “nosso amparo e nosso consolo”, o comunicador é, ao mesmo tempo, ele e nós. Sant’Ana insere o público em cena para que, juntos (o comunicador como porta-voz), desejem consolo aos parentes, postura que o destinatário certamente aprovou.

EMOÇÃO AO VIVO: LÁGRIMAS AO FALAR DE ACIDENTE AÉREO